A sociedade portuguesa está cheia de tabus. Não é de agora, é histórico e é quase idiossincrático.

O racismo é provavelmente o maior de todos, circunstância que não será alheia à nossa História colonial mais recente, e em particular a uma história de 14 anos de guerra colonial. Os anos passam e, por muito que muita gente não queira ver – é assim que nascem os tabus –, essas páginas da nossa História continuam difíceis de folhear.

Ainda recentemente, na sequência da onda de protestos que se espalhou a partir dos Estados Unidos da América, ouvimos vários altos responsáveis políticos do país proclamar que não havia racismo na sociedade portuguesa, justamente quando emergem e ganham espaço na sociedade portuguesa forças políticas que promovem objetivamente o ódio racista.

Não é apenas nas redes sociais e nas caixas de comentários dos jornais que vemos como esse ódio racista se propaga. É também nas ações de organizações racistas de extrema-direita que chegam a impor a agressão a negros como condição curricular indispensável no recrutamento dos seus jovens.

O que é novo, e mais grave ainda, é o que aconteceu no último sábado em Lisboa, com um homem de 80 anos a assassinar um cidadão português sem nenhuma outra razão que não um brutal e inexplicável ódio racista. Não sei se a expressão que a comunicação social deu a este ato hediondo se deve mais à dimensão do crime se à condição da vítima, um conhecido ator de novelas, que confesso que não conhecia.

Sei é que não podemos ignorar as circunstâncias deste crime, em que um homem nascido em Portugal, com três crianças para criar, caiu assassinado a tiro na rua depois de ouvir “preto, vai para a tua terra”. E sei que o racismo existe em Portugal e continuará a existir enquanto, em vez de o assumir, mantivermos tabu!

(Artigo publicado na edição de 30 de julho de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)