No reino do Algarve os portugueses acima do Caldeirão só são bem-vindos quando não há estrangeiros, é o caso este ano. Antigamente o atendimento era péssimo pois os nossos compatriotas algarvios consideravam-nos tesos e suspeitos de ocuparmos o lugar dos estrangeiros endinheirados e enxotavam-nos. Hoje isso acabou, os algarvios quase desapareceram e são brasileiros, chineses, nepaleses, ucranianos e outros que nos atendem e recebem carinhosamente.

Mas nem tudo está perdido, as obras públicas cá continuam em pleno verão, como é da praxe, para que o visitante nunca se esqueça de que as autarquias pensam um ano inteiro no conforto e tranquilidade com que o devem receber e os acessos a algumas praias permanecem muito ecológicos, com pavimentos do século XIX que fazem trepidar os automóveis como uma carroça, uma largura que põe à prova a perícia dos condutores, uma poeirada tipo nevoeiro e uma chegada à praia numa gincana sem fim entre carros amontoados onde calha. O estacionamento nestas praias é o melhor exemplo de como os turistas são bem-vindos, cada um que se desenrasque pois isto é um reino de liberdade, praia e Sol, tudo ao preço que cada um pode pagar.

O Algarve é um postal ilustrado exótico e o que o salva é a praia e o mar, aquilo que ainda não conseguiram estragar e que é natureza, mas para podermos desfrutar temos de nos sacrificar a tudo o resto que, em muitos casos, é mau e caro. Sim, temos Vilamoura, Vale do Lobo e Quinta do Lago, mas isso é outro Algarve.

A região turística de que oiço falar desde 1962 quando aqui passei férias pela primeira vez, na altura havia esgotos a céu aberto, mosquitos que nos devoravam, meia dúzia de portugueses e já muitos franceses e ingleses, continua adiada, apesar dos progressos falta visão estratégica do que deve ser um destino turístico que não viva apenas do Sol e do mar.

(Artigo publicado na edição de 6 de agosto de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)