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José Manuel Silva

Professor/gestor do ensino superior | jmsilva.leiria@gmail.com

Passageiro do tempo: Cozido à moda das Furnas

Bem se pode gritar que vem aí o lobo, mas até este já é uma espécie protegida.

É célebre o tradicional cozido das Furnas, em São Miguel, Açores, confecionado em caldeiros enterrados durante horas nas covas vulcânicas. Agora temos outro cozido açoriano, este político, e que vai ficar a marcar a história eleitoral portuguesa destes tempos ao conceder carta de alforria ao Chega. Há tempos já tinha antecipado e escrito que o PSD lhe iria dar o braço para um casamento de circunstância, pois nunca tive dúvidas de que o poder vale mais do que os princípios. Incapaz de derrotar sozinho a liderança do PS era inevitável que o PSD se aliasse com o Chega se isto lhe fosse necessário para chegar ao governo.

Aconteceu nos Açores, inesperadamente, mas apenas antecipa o que se pode vir a passar nas legislativas e já não faltará muito, pois já poucos acreditam que a atual legislatura chegue ao fim, face às sucessivas chantagens dos parceiros do PS, cada um a apresentar uma fatura cada vez mais alta como contrapartida do seu apoio político. E algumas medidas são inaceitáveis para cada vez maior número de pessoas.

O PS parece não conseguir chegar à maioria absoluta e para continuar a governar precisa dos aliados, mas o seu custo político é cada vez mais incomportável. A alternativa é o PSD, mas para chegar ao governo não pode dispensar um único apoio à direita. Ora o Chega, que é qualquer coisa que ainda nem se sabe bem o quê, exceto ter um líder que foi militante e candidato do PSD, é da família e quer sentar-se à mesa do poder.

Tal como o PS tem vivido com aliados que são contra a NATO, a União Europeia e o grande capital, o PSD também pode viver com gente que defende ideias bizarras, absurdas e inconstitucionais, desde que na prática respeitem o ordenamento jurídico-político e constitucional e façam maioria com o PSD.

Bem se pode gritar que vem aí o lobo, mas até este já é uma espécie protegida.

(Artigo publicado na edição de 19 de novembro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)