O embaixador dos EUA em Lisboa deixou um aviso que soa a intimação: “Portugal tem de escolher entre os aliados (leia-se EUA) e os chineses”. Nada disto é novo e era previsível face à crescente tensão político-militar e económica entre a superpotência ainda dominante e a que se encontra em ascensão.

Os responsáveis políticos deram a resposta adequada, mas isso não esconde a fragilidade da posição portuguesa. O País está endividado, depende dos fundos e das decisões de Bruxelas e possuí vários sectores económicos nas mãos de terceiros. A tudo acresce uma cobiçada posição estratégica no Atlântico, onde a China quer aumentar a sua presença, e não existem meios para garantir de forma autónoma a segurança nacional.

Os ditames da Troika e a falta de visão criaram as condições para China comprar activos, de início no sector da energia ( EDP e REN), a que se seguiram aquisições na Banca, nos seguros e na saúde. Recentemente, a Mota-Engil vendeu 30% do seu capital à CCCC. Esta empresa está ligada ao esforço de Pequim para construir e militarizar ilhas artificiais no sul do Mar da China, o que tem gerado uma crescente tensão com os países vizinhos e os EUA.

As carências de capital, a atracção de um vasto mercado e a vontade de o País não ficar à margem do projecto da “Nova Rota da Seda” levaram os nossos governantes a prestar menor atenção ao contexto geopolítico e a esquecer os alertas de entidades nacionais e da UE, em relação aos riscos que o investimento chinês pode acarretar para a segurança colectiva.

Em 2018, António Costa opôs-se à criação de limites ao investimento chinês em sectores estratégicos na UE. A retracção da presença americana nos Açores despertou o interesse chinês e António Costa anunciou que a China podia vir a utilizar a base das Lajes para fins científicos e a instalar um centro de negócios. No âmbito da visita de Ji Ping a Portugal, foram assinados diversos protocolos, nomeadamente em relação ao desenvolvimento da tecnologia 5G. Os chineses estão interessados em ter um porto nos Açores e em gerir o novo terminal de Sines. Os EUA recusam a instalação da tecnologia 5G da Huawei no Ocidente e pretendem utilizar o porto de Sines para escoar o seu gás liquefeito na Europa. Na actual conjuntura internacional é muito difícil ter dois amores!

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(Artigo publicado na edição de 1 de outubro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)