Os grandes projectos, com influência directa na economia e no desenvolvimento do País, costumam arrastar-se durante décadas, envoltos em decisões muitas vezes contraditórias, quando não são adiados, sem razão aparente. Basta pensar no ocorrido com a barragem do Alqueva ou o “novo aeroporto” de Lisboa. Podíamos, também, falar na recuperação da rede ferroviária ou das estruturas portuárias. Vejamos a situação do novo aeroporto. As limitações operacionais da Portela são conhecidas e os aviões sobrevoam áreas densamente povoadas, com os riscos inerentes.

Desde 1969, já se estudaram mais de quinze localizações possíveis para um novo aeroporto internacional, a Norte ou a Sul do Tejo. Os estudos iniciais incidiram sobre Rio Frio, na margem Sul, que deveria estar operacional em meados da década de setenta. Face aos custos de investimento, de manutenção e de operação de um novo aeroporto foi afastada a solução Portela+1. Em 1999, abandona-se a hipótese da margem Sul e o governo dá luz verde à construção na Ota, apesar das sérias limitações. Em 2007, o governo socialista mantém essa opção. Na época, a CIP entrega um estudo onde se defende o novo aeroporto na zona do Campo de Tiro de Alcochete. Suspende-se a Ota para se estudar Alcochete. Entretanto vem a bancarrota, mais a Troika e a privatização da ANA à construtora Vinci. 

Em 2019, o governo assina um acordo com a ANA e a Vinci para transformar a Base Aérea do Montijo num aeroporto comercial (Portela+1), quando, ainda, estavam em falta diversos estudos exigidos por lei. Esta solução tinha sido anteriormente afastada, entre outras razões, por motivos ambientais, pela forte concentração de aves migratórias na zona, por restrições operacionais e de conflito de gestão do espaço aéreo com a Portela, além do sobrevoo de zonas urbanizadas. Nada parece garantir que esta seja a melhor solução para a segurança e a qualidade de vida das populações e, sobretudo, para o País.

A retracção do tráfego aéreo, provocada pela pandemia, criou as condições para que seja repensada a criação de um novo aeroporto, na zona de Alcochete, de forma faseada, com o mínimo de impacto ambiental e urbano, com ligação à ferrovia e à rodovia e que permita um efeito catalisador na economia e na sociedade, sem andar a fazer remendos!

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(Artigo publicado na edição de 20 de agosto de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)