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Cultura

Criada associação para certificar morcela de arroz de Leiria

Seis produtores criaram uma associação para certificarem a morcela de arroz de Leiria, disse à agência Lusa um dos promotores, adiantando que o objetivo é divulgar o produto a nível regional e nacional.

Seis produtores criaram uma associação para certificarem a morcela de arroz de Leiria, disse à agência Lusa um dos promotores, adiantando que o objetivo é divulgar o produto a nível regional e nacional.

“A associação foi criada para podermos aglutinar todos os produtores de morcela de arroz de Leiria, para divulgar este produto em todo o país e para certificar a morcela de arroz como um produto de interesse regional”, afirmou o presidente da assembleia geral da Associação de Produtores da Morcela de Arroz de Leiria (APMALEI).

Rui Ferreira salientou que a morcela de arroz de Leiria tem especificidades que devem ser preservadas, começando na sua produção, um trabalho que classificou como “artesanal”.

“O que a distingue é a forma como é feita: na tripa do porco juntam-se as partes mais gordas da carne do animal, incluindo vísceras e sangue, e arroz”, explicou o dirigente da APMALEI, considerando que embora esta iguaria “seja já muito conhecida, mesmo além fronteiras, o objetivo é que seja mais divulgada”.

Aberta a outros produtores, a associação quer que a morcela de arroz de Leiria não seja vista apenas como “entrada” numa refeição ou como “petisco”, acrescentou o responsável.

“Queremos que também seja incluída no prato principal”, referiu, acreditando que maior divulgação pode também significar mais vendas para os produtores.

“Naturalmente que esse é também um objetivo”, observou Rui Ferreira, adiantando que no seu caso comercializa, em média, 1500 a 2000 quilos de morcela de arroz de Leiria por mês.

Para promover a morcela de arroz, a associação, com sede na freguesia da Boa Vista, concelho de Leiria, propõe-se organizar e participar em eventos de caráter social, recreativo, desportivo e gastronómico.

A divulgação de outros derivados de carne, a representação dos associados, o apoio ao licenciamento da actividade e a formação profissional estão também entre os objetivos da APMALEI, que tem o apoio da Junta de Freguesia e Câmara de Leiria e do Turismo de Leiria/Fátima.

Constituída sexta feira passada, a associação estreou-se no dia seguinte, sábado, no Festival Regional de Gastronomia de Leiria, que decorre no Marachão, na cidade de Leiria até domingo.

A morcela de arroz da Alta Estremadura, onde se inclui Leiria, é também nome de uma confraria gastronómica, criada a 18 de maio de 2005.

Uma Receita da Morcela de Arroz de Leiria por Laura Esperança, presidente da Junta de Freguesia de Leiria

“Quando de manhã bem cedo se matava o porco, entre o Natal e o Carnaval, aproveitava-se o sangue da matança do porco, proveniente do coração, recolhia-se o sangue num alguidar contendo sal, mexendo sempre, com uma colher de pau, para não “coalhar”, isto é, coagular.

Na altura de se retirarem as “tripas” (intestinos), e às vezes o bucho, para um alguidar, retirava-se também o véu que envolve e une as tripas, e o rissol, e cortavam-se estas gorduras muito miudinhas. As tripas eram lavadas, de preferência em água corrente, e esfregadas em sal grosso, limão e laranja com casca, que nesta altura eram bastante azedas.

Nesse mesmo dia, ao final da tarde, faziam-se as morcelas de arroz que se confeccionavam da seguinte maneira; num alguidar, colocavam-se então a gordura, muita cebola e a salsa picada, mexia-se e temperava-se com cravinho, cominhos moídos e sal.

Deitava-se, de seguida, o sangue sobre o preparado anterior e dava-se mais uma mexidela.

Nesta altura já fervia, numa panela de ferro grande ou de cobre, parte das “arreigadas”, ou “bofes” (pulmões, traqueia e outras vísceras), cebola e sal, que temperavam a água que escaldava o arroz e onde se iam cozer as morcelas.

Adicionava-se por último o arroz carolino, semi-cozido (escaldado), pouco a pouco, mexendo sempre.

Na altura as mulheres presentes e com experiência, com a ajuda de um funil, ou somente com a mão em concha, enchiam as tripas. O meu cargo era quase sempre cortar a guita, o “Fio de Norte”, e ajudar a atar as tripas. As tripas não podiam ficar muito cheias para não rebentarem ao cozer, dado que o arroz com a cozedura aumenta de volume.

Por último, coziam-se então em lume brando, iam-se mexendo e picando com um alfinete de dama, com muito cuidado. As morcelas estavam cozidas, se ao serem picadas, a água da cozedura ficasse clara e não ensanguentadas.

Comiam-se quentes, depois de saírem da panela, ou frias, conforme o gosto.

O caldo da morcela também se comia como sopa, onde depois de se retirarem todas as morcelas, se coziam os nabos (cabeças) cortados aos bocadinhos e às vezes couve branca, onde se colocavam também umas rodelas grossas de morcela ou apareciam alguns bocados de alguma morcela que se tivesse rebentado, os bocadinhos de “bofes” e um pouco de pão e umas folhinhas de hortelã.”