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Sociedade

Adelino Gomes volta “a casa” para recordar a revolução dos cravos

“Quis o acaso e a minha boa estrela que lá haveria de estar, àquela hora, naquele pedaço de Lisboa, onde o militarmente essencial se passou”, recordou Adelino Gomes, em Leiria.

“Quis o acaso e a minha boa estrela que lá haveria de estar, àquela hora, naquele pedaço de Lisboa, onde o militarmente essencial se passou”, recordou Adelino Gomes, esta manhã, no Teatro Miguel Franco, em Leiria. 

Foto: CMLeiria

Jornalista, natural dos Marrazes, presenciou a revolução que hoje se celebra por todo o país. Passaram 38 anos mas Adelino tem na sua memória bem presente a experiência que vivenciou.

No anexo do Liceu Francisco Rodrigues Lobo, foi colega de Fernando Salgueiro Maia (imagine-se!), do qual, confessa, “não fui especialmente amigo, devo dizer”. Estava Adelino Gomes longe de imaginar que uma década e pouco depois, este companheiro de escola liderava a revolução que marcaria o fim de um regime de 48 anos, à qual o jornalista admite “pertencer”. Estava no sítio certo, à hora certa.

Adelino Gomes conta que, ao avistar Salgueiro Maia, dirigiu-se a ele e perguntou-lhe de que lado estava, ao que o general respondeu: “Não tiveste um problema qualquer que te obrigou a ir para a Alemanha, devido a uns textos que disseste na rádio?”. O jornalista confessa que, esta resposta em jeito de pergunta, o surpreendeu. E à pergunta, Adelino Gomes conta que Salgueiro Maia ainda acrescentou: “Estamos aqui para que ninguém mais tenha que ir para o estrangeiro por causa daquilo que pensa, diz ou escreve”. E esta é a “mais bela definição do 25 de abril” que Adelino Gomes confessa alguma vez ter ouvido e justifica: “Coloca no topo da lista, aquela que considero ser a mãe de todas as liberdades – a liberdade de expressão”.

O jornalista admite que na manhã de hoje acordou sentindo “um frémito de alegria de orgulho”. “De alegria, por viver num país democrático, onde cada um pode defender, por palavras, por escrito, por ação, na rua, as suas convicções (…) Alegria e orgulho, disse. Por pertencer à geração de Salgueiro Maia, o capitão de Abril”, explica.

Adelino Gomes falou também do presente e do “clima de descrença, de desânimo, de revolta” que atualmente se vive. Referiu que à democracia “devemos exigir sempre mais, muito mais. Devemos exigir mais aos governantes, aos partidos, à justiça, ao poder autárquico”. O jornalista disse que “a solução não está num regresso ao passado do partido único, da censura”. “A solução está em mais profunda e mais participada democracia, em mais igualdade e em mais liberdade”.

E à pergunta “Precisamos de um novo 25 de abril?” Adelino Gomes responde que “não precisamos de outro 25 de abril. Para mim bastava um – que foi aquele, o de há 38 anos”.

Adelino Gomes terminou o seu discurso aplaudido de pé, por toda a plateia.

A sessão comemorativa contou ainda com a intervenção de Raul Castro, presidente da Câmara Municipal de Leiria, José Alves, em representação do presidente da assembleia municipal de Leiria e Gonçalo Lopes, António Martinho e José Benzinho, vereadores.