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Foge Comigo: Música para protestar

Foge Comigo: Música para protestar
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Estou quase a fazer 20 anos. A primeira vez que votei tinha tido um acidente de carro na véspera. Foi o primeiro desastre e até agora o único. Tinha 18 anos.

Eram outros tempos. Uma altura em que ainda não era preciso fazer a inspeção automóvel. Sim, levava cinto, mas como o Fiat 127 estava um pouco podre, o banco soltou-se com o embate, e aquilo ainda doeu bastante. Em 20 anos muita coisa mudou, e para melhor. Assim se espera da básica condição humana.

Ah, estou quase a fazer 20 anos como eleitor, não de idade. E lá fui meter a cruz a coxear e com má cara. A primeira cruz. Por uma qualquer ironia cósmica, a palavra “desastre” está associada ao meu primeiro contacto ativo com a política.

Mas lembro-me antes disso. Tenho uma vaga ideia do funeral do Sá Carneiro; da APU; de um mural que dizia “Vota POUS” e de um outro com “Fora Cavaco gasolina a 100 escudos”. Depois lembro-me difusamente do Ramalho Eanes que nunca se ria, do ”Soares é fixe” e do sarilho na Marinha Grande que lhe ajudou à eleição. Não me lembro do FMI em 1983.

Mais lembranças como o símbolo do PPM; um comício sufocante do Freitas do Amaral na Praça Rodrigues Lobo em Leiria; do PRD; do slogan “A nossa senha é Salgado Zenha” e de (credo, como um puto é ingénuo) andar atrás de um carro de campanha a pedir autocolantes do Cavaco Silva, porque claro, aos 10 anos, um catraio fazia coleção de autocolantes, latas ou de caricas, independentemente da sua toxicidade.

E sim, todos eles à passagem com os carros da comitiva mandavam papéis e autocolantes para o ar, sem qualquer sentido de ecologia ou espaço público.

Mais lembranças de um “partido dos reformados” com um senhor chamado Sérgio; foi só mais na adolescência que me apercebi das extremas direita e esquerda, com skins e outros simpatizantes mas pacíficos de um lado, o Garcia Pereira, o PSR e a UDP do outro.

Assim por alto, acho que em 14 eleições, entre Presidência da República, Legislativas, Autárquicas, Europeias, e três referendos, falhei duas eleições. Uma, estava uns dias em trabalho fora de Portugal quando o Durão Barroso foi eleito primeiro-ministro, e outra não me deve ter apetecido.

É assustador fazer o balanço de 20 anos e perceber que todos os governantes se dizem de consciência tranquila, apesar da situação atual. Como lidar com tamanha cobardia?

Expressões tão nossas como “Com o mal dos outros posso eu bem” ou “Antes ele que eu” também não ajudam ao consenso, mas é incrível como a culpa não é de ninguém.

Só agora que tocou a todos, é que houve unanimidade como na manifestação do 15 Setembro. Antes disso, as manifs eram para freaks, sindicatos e aquela malta de esquerda.

Residualmente ainda há vícios que não se apagam como a recente guerra dos números em alguma blogosfera de direita, delirantes ao tentarem pateticamente desvalorizar aquele que foi um acontecimento esmagador.

Para além do punk, não escutei grandes músicas de intervenção na adolescência, mas pertenço a uma franja que ouviu uma canção chamada “Common People”. Apesar de na canção ser uma rapariga com muito dinheiro que quer viver no meio das pessoas comuns, cantado por nós, os comuns, ganha outro significado. A dançar com lágrimas nos olhos, já há muito tempo que se berra em apoteose que queremos ser felizes.

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