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Cultura

Carlos Matos. Há 300 noites a revigorar a pista de dança do Beat Club

Hoje há mais uma “Unknown Pleasure Night” no Beat Club, em Leiria. Esta é ainda mais especial do que habitualmente: é a 300ª em que o dj Carlos Matos assume os comandos.

Hoje há mais uma “Unknown Pleasure Night” no Beat Club, em Leiria. Mas esta será uma “noite de prazeres desconhecidos” ainda mais especial do que o costume: é a 300ª em que o dj Carlos Matos, ou Broto Verbo, assume a programação e as escolhas musicais.

A celebração é feita com um programa especial: há concerto dos Born a Lion, que vão recuperar os temas de “John Captain”, o primeiro disco da banda de Leiria.

Depois, o dj que prefere que chamem “revigorantes” ou “fixes” às suas noites no Beat Club, partirá para um “mano a mano” com um conjunto de djs convidados: Ba’al, Deadly Brown Boys, L&E, Pê Silva, Peter Schmeichael, Rocky Marciano, Sawyer e Themoteo Suspiro.

Dj há 25 anos, Carlos Matos tem muito para contar, num percurso marcado pela intensa e contagiante paixão pela música e pela sua partilha. Uma partilha que surge de múltiplas formas: além de dj, Carlos Matos é também elemento ativo e o rosto mais conhecido da associação e do festival Fade In.

No Facebook e por e-mail, Carlos Matos partilhou um pouco do seu percurso como dj, a propósito da comemoração da 300ª “Unknown Pleasure Night”. Um texto que aqui publicamos:

 

Carlos Matos

“Hoje tenho vontade de vos contar um bocadinho do meu percurso inicial como dj.

A primeira vez que fiz um dj set a sério foi em 1988, mais coisa menos coisa. Foi num bar chamado Diabrete e o pessoal dançou as minhas músicas sempre com um semblante meio desconfiado… Lembro-me que tinha 18 anos e antes só passara música para o meu irmão (e para mais um ou dois vizinhos que se interessavam por estas coisas da melomania) e no meu primeiro programa de autor, numa rádio pirata – a Antena Liz – cujos estúdios eram sediados perto da minha casa, no lugar de Pocariça, freguesia de Maceira, a 12 ou 13 quilómetros de Leiria (embora faça esse caminho quase todos os dias, nunca reparei, ao certo, qual a distância exacta…).

O programa chamava-se Flauta Mágica – em homenagem a Ian Anderson dos Jethro Tull, de quem era cegamente fã – e dividia-se em duas horas semanais. Uma hora era dedicada aos “sons do passado” com Television, Eric Clapton, Electric Light Orchestra, Peter Frampton, Pink Floyd, The Doors, Cheap Trick ou, obviamente, Jethro Tull. A outra era feita com “sons de vanguarda” (se fosse hoje não usaria nenhuma destas terminologias, mas na época, para mim, vá-se lá saber porquê, faziam sentido) onde se incluíam os Joy Division (que entretanto acabariam por destronar os Jethro Tull no topo das minhas preferências e onde, curiosamente, outro Ian fez história), Bauhaus, Echo & The Bunnyman, Cabaret Voltaire, Diamanda Galás, Laibach, The Cure ou Mão Morta. O programa durou entre Janeiro de 1986 e Dezembro de 1987.

Os Compact Discs eram recentes e havia locais que ainda não estavam preparados para esse formato, por isso, nesse primeiro dj set oficial e remunerado – acreditem que fiz inúmeros pro bono – levei alguns dos vinis que havia utilizado no entretanto extinto programa de rádio, traçando, logo ali (não me lembro se por irresponsabilidade, se por irreverência adolescente, se por ignorância, se por vicissitude, se por feitio, se por opção deliberada) aquilo que, ainda hoje, caracteriza os meus sets: o ecletismo.

Volvidos 24 anos não me arrependo do meu percurso. É certo que não me tornei num dj de renome especializado nalguma área em particular como o House, Techno, Rock, Trance, Electro, Metal (ou de todos os outros “sub-géneros” que não permitem quase ninguém fazer carreira, como o gótico, post-punk, minimal-wave, dark folk, etc…), mas essa opção fez de mim, efectivamente, um tipo feliz! A verdade é que bebo de várias fontes e não tenho qualquer problema em passar músicas dos géneros e sub-géneros supra-citados, desde que – condição sine qua non – goste! Nunca me recusei passar alguma música que gosto só porque possa ser de um género “não na moda” ou de um género considerado como menor (ui, isso dava aqui mais uns milhares de caracteres, mas não irei por aí!). Para mim as etiquetas musicais nunca foram nem impeditivos nem tiros certeiros à priori. Não há música no meu set que não seja sujeita à triagem natural dos meus ouvidos…

Para mim – já o disse várias vezes – não existe nem boa nem má música. Existe música de que gosto e música de que não gosto. Música que me diz algo e música que me é indiferente. Música que me faz vibrar e música que me causa repulsa. É óbvio que este meu ponto de vista já despoletou acesas e animadas discussões com pessoas que pensam de maneira diferente, mas nunca foi minha intenção impor a alguém o que quer que seja, e muito menos algum dos meus princípios. Assumo que me dá um gozo particular em fazer sets desgovernadamente variados, provocatoriamente inconformados, irresponsavelmente desbravadores, com propositadas derrapagens e mudanças súbitas de direcção, muito à semelhança, aliás, do programa de rádio que ainda mantenho no activo: Unidade 304. A única diferença é que em rádio não tenho que estar necessariamente preocupado em colocar as pessoas a dançar!

Toda esta prosa é, afinal, para vos informar que este sábado comemoro 300 noites de dj sets no Beat Club. As “minhas” noites chamam-se, como sabem, UNKNOWN PLEASURE NIGHTS (UPN) em homenagem ao disco que mudou a minha vida, o “Unknown Pleasures” dos Joy Division – mas essa é outra história que, em conjunto com as vividas com as centenas de músicos e bandas com quem já privei, será, quem sabe um dia, registada em livro. Dizem que as UPN são umas noites de “música alternativa”. Confesso que este é um termo que uso cada vez menos, sobretudo porque é, na minha opinião, maioritariamente mal aplicado! Prefiro que chamem às UPN noites revigorantes. Ou melhor, chamem-lhes “noites muita fixes!”

Há outros locais no país em que se pode dançar música selecionada a dedo, mas dificilmente se encontra um local que na mesma noite passe música de tantas castas estéticas diferentes, “sem nunca baixar o nível”! Sinto-me muito privilegiado em poder passar Death In June no mesmo set em que encaixo Deep Purple sem que isso signifique perder pista! Ou VNV Nation e Arcade Fire. Ou Wolfmother e Frustration. Ou Alt-j e Nitzer Ebb e La Inesperada Sol Dual e Django Django e The Horrors e Clair Obscur e The Doors e Holograms e Kap Bambino e The Cramps e sei lá mais o quê! E esse não é só um mérito meu. É uma qualidade de quem se habituou a frequentar as UPN.

Costumo dizer que tenho um “Mercedes” nas prateleiras do meu quarto. Não sei se isso é um dote suficientemente atraente, mas que dou uso aos discos que tenho, lá isso dou! E não os trocava por um carro melhor que o meu… (mesmo que fosse um daqueles topo de gama inalcançável a um mortal da minha classe)

Neste sábado dia 9 de Fevereiro comemoro, como já referi, a UPN nº 300 e resolvi partilhar a cabine com alguns amigos leirienses que, de certo modo, têm o mesmo código genético que eu: Peter Schmeichael (que comigo fez a dupla Super Fury Djs nos primeiros anos das UPN), Pê Silva (que, numa temporada, também me acompanhou nas UPN), Ba’al, Deadly Brown Boys, L&E, Rocky Marciano, Sawyer e Themoteo Suspiro. Tudo malta criteriosa e com bom gosto, portanto!

Antes de entrarmos em acção, haverá um imperdível concerto com os BORN A LION! Rock’n’roll in your face, com muita alma, blues, e atitude! (https://www.youtube.com/watch?v=bwe06T5FPyY)

Para finalizar (o texto é tão longo que certamente foram muitos os que desistiram antes de chegar aqui) quero dizer-vos que estou grato ao Beat Club por me permitir desenvolver este trabalho ao longo de tantos anos. Quero agradecer também aos meus companheiros de trabalho que são excelentes amigos e profissionais, e a todos os que, com as suas presenças assíduas, legitimam a existência desta noite leiriense. E, acreditem, ela está com uma vitalidade absolutamente imparável!

Este sábado, muito particularmente, gostava de vos ver por lá!
Um abraço,

Carlos Matos

PS: quando tive a minha fase de consumo de música experimental e de noise japonês em doses industriais, remeti os Jethro Tull para os confins das minhas preferências, estando mais de duas décadas sem lhes tocar. Hoje, ao escrever este texto, fiquei com vontade de os ouvir de novo e perceber se as sensações que me provocam serão as mesmas da minha fase iniciática. Não serão, por certo… Mas o arrepio fugaz de revivalismo que me subirá do cóccix à nuca, ninguém me tirará! É este o poder da música!”