Nos últimos anos, a região de Leiria transformou-se num viveiro de arquitetos para exportação. Trabalham na Europa, no Médio Oriente ou mesmo no extremo asiático, com sucesso, provando ser tão bons ou melhores do que os colegas estrangeiros. Saíram por vontade de viver novas experiências, mas também por falta de oportunidades no país de origem. Não se arrependem. E acreditam que o futuro da profissão está lá fora, muito mais do que em Portugal.

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Ana Menino Silva vive na Alemanha, depois de uma temporada a trabalhar no Japão

Ana Menino Silva é um destes casos. Licenciada em 2012 pela Universidade do Minho, vive atualmente na Alemanha, depois de uma temporada no Japão.

Está envolvida nos chamados baugruppe, comunidades que trabalham diretamente com arquitetos na instalação de habitações ou espaços públicos sem intermediação de construtores e agentes imobiliários. Em ambos os países integrou-se com facilidade, não obstante a convivência com profissionais oriundos das melhores universidades do mundo, como Harvard e o MIT.

“A diferença que notei foi apenas a nossa falta de preparação para o mundo empresarial – bastante competitivo. Somos formados com pouca ambição e isso reflete-se na dificuldade que por vezes temos em inovar e arriscar”, refere, sublinhando, contudo, que “a formação em Portugal transmite uma sensibilidade arquitetónica que destaca” os arquitetos nacionais radicados no estrangeiro.

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Sara Saragoça está há dois anos no Kuwait

Sara Saragoça Soares, há dois anos no Kuwait, vai mais longe: “Considerando a zona onde me encontro os arquitetos portugueses são excelentes profissionais. São reconhecidos não só pela sua competência técnica, mas também pela sua enorme capacidade de trabalho e sacrifício em prol de uma arquitetura de qualidade.

De um modo geral, e com toda a humildade, são melhores”, afirma. Inserida no projeto da Casa do Emir – um parque verde com 235 mil metros quadrados e dois museus – e na equipa responsável pelo pavilhão do Kuwait que estará na próxima Bienal de Veneza, não tem dúvidas sobre o destino dos atuais estudantes de arquitetura.

“Vejo-os no estrangeiro. Não digo isto de forma negativa, mas a verdade é que Portugal não tem num futuro próximo capacidade de gerar trabalho suficiente para os arquitetos já existentes”.

De acordo com o último estudo sobre a profissão, há cerca de 18 mil inscritos na Ordem e a taxa de desemprego ronda os 16%.

Mas, entre os profissionais sem trabalho, 73% pertencem à geração que obteve o diploma de arquitetura entre 2000 e 2009.

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João Gameiro Neves

Mudar de vida

Na perspetiva de João Gameiro Neves, que está em Londres, num dos maiores ateliês, trabalhar no estrangeiro é acima de tudo uma oportunidade, indispensável nos dias que correm.

“É importante conhecer novas formas de aprender e trabalhar para podermos evoluir no modo como trabalhamos e como nos posicionamos no mercado de trabalho. Essa noção de ‘arquiteto no mundo’ foi bastante importante para entender que ser arquiteto no século XXI é bem diferente de ser arquiteto no sec XX”.

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Pedro Gonçalves está em Inglaterra

Para Pedro Gonçalves, outro leiriense no Reino Unido, a saída de Portugal significou trocar a arquitetura pelo doutoramento em arqueologia. Ao fim de nove anos, a estagnação profissional e de rendimentos convenceram-no a mudar.

“Por incrível que pareça, tenho uma vida mais estável economicamente, apesar de estar a viver com uma bolsa de estudo e num país com um nível de vida mais caro. Por aí também se pode ver a situação difícil e inconstante que é trabalhar em arquitetura em Portugal”, assinala.

“Na verdade, quando descrevo aqui em Inglaterra o quanto ganhava em Portugal, ninguém acredita ser possível”.

Cláudio Garcia
claudio.garcia@regiaodeleiria.pt

(Notícia publicada na edição de 29 de maio de 2014)