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Sociedade

Regresso no agridoce mês de agosto

O mês rei de verão é sinónimo de aldeias e cidades cheias de portugueses que vivem quase todo o ano lá fora. O que pensam do país e da região a que regressam?

Regressar? “Infelizmente não o penso fazer”, responde Pedro Baroso. “Espero que as pessoas não me compreendam mal, mas não me revejo aqui, com muito respeito que tenho por todas as pessoas que estejam a ler isto agora”.

Natural de Carvide, Leiria, apostou no Dubai, o mesmo será dizer, no mundo. É chef no primeiro hotel da cadeia Armani no Dubai. Voltou de férias. Como muitos que saíram com o intuito de encontrar outros desafios. Outros sentidos para a vida. “Gosto de desafios, onde andam eles em Portugal?”, questiona.

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Pedro Baroso, de Carvide, é chef no Dubai e não conta regressar de vez tão cedo

Ecoa a questão que é comum a muitos dos que deixaram o Portugal geográfico e o colocaram numa mala, no canto dos sentimentos, no compartimento da saudade. “Desafios, sim, há neste nosso país mas para sobreviver não para poder crescer como profissional”, constata e lamenta.

Quando se olha para o globo, Irene Cordeiro, professora de Porto de Mós, é quase vizinha de Pedro Baroso. Arriscou mudar de vida e de desafios em Abu Dhabi.

É também vizinha na explicação para a necessidade de deixar a terra natal. Num agosto invulgarmente cinzento e tímido, quem marca o retorno temporário neste verão, enfrenta um país que “continua em crise, as pessoas deprimidas, as notícias deprimentes”.

Irene Cordeiro, professora lá onde o verão rima com Calígula, não esconde o amor pela pátria – “continuo a gostar muito de Portugal enquanto paisagem e a ser muito orgulhosa das nossas riquezas naturais” – todavia acrescenta-lhe um mas lancinante: “este país não contribui para a saúde dos portugueses”.

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Há ano e meio, Elisabeth Oliveira regressou a França, onde tinha crescido

Elisabeth Oliveira, de Pombal, encontrou em França a oportunidade de dar o sentido ao futuro que não vislumbrou por cá. As férias que matam saudades e recarregam mais um ano de vida no país que já os seus pais tinham escolhido como segunda pátria, são polvilhadas pelo prazer de rever a família e amigos, mas também pelo desalento.

“O país parece devastado, fantasma, com lojas, apartamentos e casas fechadas”. Numa palavra, “dói”. Foi em França que fez a sua vida, estudou até à universidade.

Arriscou por cá, mas não teve outro remédio que não fosse voltar onde também já fora feliz. Foi em França que, literalmente, lhe abriram portas, trabalhando como porteira. Agora, na sua terra natal, Pombal, fecham-se em catadupa: “está tudo fechado, restaurantes e empresas”. Está além Pirinéus há ano e meio. O ano passado, no primeiro retorno, o impacto não fora tão forte. “Agora foi pior”, confessa.

Mónica António arriscou no sector da restauração na Noruega. Pensa regressar, mas não para já. De férias na sua Leiria, faz coro das constatações de Elisabeth. “No outro dia fui a Pombal e ao olhar para a EN1, deu a sensação de viveres num país fantasma, atendendo ao número de empresas fechadas”.

Copo meio cheio

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Mónica António e a filha Maria João estão radicadas na Noruega. Maria João deve regressar no próximo ano, a mãe ainda não sabe quando (fotografia: Joaquim Dâmaso)

Há, contudo, compensações no regresso. Até nos pequenos grandes detalhes do quotidiano. Vinda da superdesenvolvida Noruega, Mónica António espreita as vantagens locais.

Por lá, “o sistema de saúde é super caro”, aponta. “Pediram-me 650 euros para tirar o dente do siso”. Por essa razão, “sempre quis fazer cá todo o tipo de consultas”, explica, ainda que se perceba que “tudo está muito mais difícil, que a burocracia é de loucos”. Ou seja, “ainda que reconheça que o nosso sistema de saúde é um dos melhores, está na verdade cada vez pior”.

Depois sobra o tempo para rever amigos, paisagens e tradições, na companhia da filha Maria João, 14 anos, que no próximo ano ensaia o regresso para estudar por cá.

No sentido inverso, Elizabeth Oliveira faz as contas à vida e planeia a ida da filha para França para ingressar no ensino superior. A razão é simples: cá é mais caro. “Ela não quer ir, mas não tenho escolha”, acrescenta resignada.

As férias de Pedro Baroso começaram em julho, para rever a família: “será sempre a razão do meu regresso a Carvide , gosto de dizer isto pois para mim vir a Portugal é vir a Carvide e não só a Portugal”.

Aproveita ainda para rever “muitos amigos que infelizmente também estão fora e assim podemo-nos encontrar”. Irene Cordeiro chegou em julho – por causa das “saudades da família, de casa e dos amigos” – e regressa a 20 de agosto a Abu Dhabi. Nestes dias, gasta o tempo “a conviver com família e amigos, é difícil chegar a todo o lado”, confessa.

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Irene Cordeiro, professora em Abu Dhabi, aproveita as férias para revistar a região, como é o caso na foto, com um passeio em Pedreiras, Porto de Mós

Na mente dos quatro emigrantes espalhados por outros tantos cantos do globo, há a eterna questão: voltar de vez? Elizabeth, que em 2013 foi rosto de uma manifestação em Paris contra as políticas de austeridade em Portugal, sintetiza que o sonho é sempre regressar, mas não arrisca futurologia. Mónica espera pela oportunidade certa – mas deixa o recado:

“Parem de dizer que o desemprego baixou, digam antes que somos cada vez mais lá fora”.

Pedro já fez saber dos seus planos no início deste texto e Irene é perentória: Regressar? “Claro, mas tenho que melhorar a minha situação primeiro, a do país já vi que não tem remédio”. Vemo-nos num agosto mais doce?

350

De 2010 a 2013, emigraram cerca de 350 mil cidadãos residentes em Portugal. Os dados são da Pordata e deixam claro que essa tendência se tem acentuado.

Aliás, em 2012, o número de emigrantes superou o de nascimentos, contribuindo assim decisivamente para o declínio da população do país. Valores que agora comparam com a onda de emigração dos ano 60 do século passado. Os jovens estão, atualmente, entre os que mais emigram

 

Carlos S. Almeida
carlos.almeida@regiaodeleiria.pt

(Reportagem publicada na edição de 7 de agosto de 2014)

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