No ano em que se cumpre uma década da entrada em funcionamento do Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota, inaugurado em outubro de 2008, as mudanças continuam no local onde castelhanos e portugueses se defrontaram em finais do século XIV. Alexandre Patrício Gouveia, presidente da Fundação Batalha de Aljubarrota, explica as mudanças em curso e quais os planos para aquele espaço e ainda a sua expectativa quanto à evolução das relações com as autoridades locais e com a população de São Jorge.

 

No final do ano, o Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota (CIBA) procedeu a alterações que se traduzem em mudanças para quem visita o espaço. Quais as principais mudanças e quais as razões para a sua implementação? 

Um museu ou centro de interpretação nunca pode considerar que tem a sua obra completada. Pelo contrário, é indispensável que se dialogue com o público, procurando entender quais são as sugestões para melhorar a oferta expositiva desse espaço. Foi isso o que fizemos desde a inauguração do CIBA, em 2008, tendo sido possível verificar que havia uma opinião muito generalizada que consistia no melhoramento do núcleo 1.  Compreendemos bem essa proposta, pois em 2008, aquando da inauguração do Centro, esse núcleo foi preparado em muito pouco tempo, devido à prioridade dada à realização do filme sobre a Batalha de Aljubarrota. Iniciámos desse modo uma investigação aprofundada sobre o período que antecedeu a Batalha de Aljubarrota e que em boa medida explicou porque se deu esta Batalha. É o resultado dessa investigação que passou a estar exposto no novo núcleo 1.  Julgamos assim que o CIBA está hoje mais instrutivo e mais interessante de visitar.  É o que têm referido muitos dos visitantes que conheceram a versão anterior, e que tiverem já a oportunidade de conhecer o novo CIBA.

 

Estão previstas mais alterações no futuro próximo? Quais?

Estão. Num futuro próximo vai também ser valorizada e melhor descrita a área dedicada à arqueologia. É um objetivo importante pois quanto mais descobrirmos o papel desempenhado pelos obstáculos artificiais na Batalha de Aljubarrota, como os “fossos” ou as “covas do lobo”, melhor entenderemos a forma genial como Nuno Álvares Pereira preparou o exército português para esta extraordinária vitória.  A nova área dedicada á arqueologia deverá estar totalmente pronta em março.

É assim possível afirmar que com estas duas grandes alterações, o CIBA terá sofrido, em 2018, um grande melhoramento quanto ao seu funcionamento e quanto ao interesse dos seus conteúdos expositivos. Teremos assim conseguido proporcionar uma muito maior satisfação aos visitantes do Centro de Interpretação.

 

Do ponto de vista do interesse científico do local, são de esperar novas campanhas para aprofundar o estudo do terreno?

O CIBA foi construído em São Jorge e não em Lisboa ou no Porto onde poderia ter mais visitantes, pois só fazia sentido explicar este extraordinário acontecimento da História de Portugal no próprio local onde teve lugar. Desta forma era imprescindível valorizar e investigar este lugar histórico, o que implica necessariamente, a realização de trabalhos de arqueologia. Estes trabalhos foram iniciados em 1954 por Afonso do Paço, e posteriormente continuados em 1994, 1995 e 2002 e 2003, tendo em muito contribuído para um melhor conhecimento desta Batalha. Mas estes trabalhos de arqueologia estão ainda em boa medida por realizar, pois não foram ainda realizados numa parte importante do Campo de Batalha.  Foi por este motivo que apresentámos, em 2015, uma candidatura ao Turismo de Portugal, que foi aceite e que permitirá a realização de importantes campanhas arqueológicas em 2018, 2019 e 2020. Findos estes trabalhos, os seus resultados serão expostos no CIBA, e teremos dado mais um importante passo no entendimento de como esta Batalha foi travada e vencida.

 

Está satisfeito com a evolução do número de visitantes ao CIBA?

Desde a inauguração do CIBA, em 2008, o número de visitantes tem sido relativamente estável entre 35.000 e 45.000 por ano, 50% dos quais são alunos. Atendendo a que este Centro não se encontra numa grande cidade, estamos relativamente satisfeitos pois este significativo número de visitantes só é possível pela qualidade oferecida pelo CIBA, que justifica uma deslocação propositada a este local a partir de vários pontos do País.  Mas temos consciência que a função didática exercida pelo CIBA é muito importante e insubstituível, pois só no Campo de São Jorge de pode devidamente explicar e entender como os portugueses souberam defender um valor incalculável da sua identidade e cultura, que consiste em termos escolhido ser uma nação livre e independente. Pelo contributo único que a Batalha de Aljubarrota deu para este objetivo, não poderíamos ter descrito este acontecimento histórico de uma forma que não fosse considerada de excelente.

 

Esperava mais visitantes, nomeadamente portugueses, ao local onde decorreu a Batalha de Aljubarrota? 

O número de visitantes passou de 4.000 no anterior museu militar, que aqui foi construído em 1995, para cerca de dez vezes mais. Mas estamos particularmente otimistas pois sabemos que Aljubarrota sempre será uma referência única para os portugueses e que com o aumento do nível de escolaridade na sociedade portuguesa, a procura de destinos culturais tenderá a aumentar. Se nos compararmos com os restantes 28 países da União Europeia, os portugueses visitam hoje museus quatro vezes menos que a média europeia. Desta forma, e numa perspetiva de médio e longo prazo, o CIBA terá certamente uma tendência crescente de visitantes, à medida que o nível económico e cultural dos portugueses for aumentando. Teremos, contudo, de cumprir a nossa parte, que consiste em assegurar um nível alto e variado na qualidade das exposições apresentadas.

 

Recentemente foram conhecidas notícias que davam conta que a FBA iria pedir declaração de utilidade pública para a expropriação de sete prédios nas imediações do campo de batalha. O que motiva esta intenção de expropriação? E em que ponto está esse processo?

Existem imóveis que por estarem demasiadamente próximos do CIBA, da Capela de São Jorge e da área do campo de batalha onde se deu a parte principal do combate, prejudicam não apenas os visitantes, mas também os trabalhos de arqueologia que aqui devem ser realizados. Felizmente que a quase totalidade dos imóveis nestas condições estão hoje desabitados e à venda há vários anos. A sua compra pelo Estado Português não terá assim qualquer impacto social negativo. Contudo, estas compras terão um grande impacto positivo na preservação e valorização do campo de batalha de Aljubarrota, pois permitirão a reconstituição da paisagem existente em 1385, numa parte essencial deste lugar histórico.  A Fundação considera assim que é um esforço financeiro que se justifica realizar, mesmo que estes imóveis fiquem na posse do Estado Português.

 

Que planos tem a Fundação no que se refere à recuperação paisagística daquela zona?

Com as presentes compras de imóveis, o lado esquerdo do campo de batalha passará, para sempre, a ter a sua paisagem recuperada. Embora a estrada nacional impeça que uma recuperação semelhante se realize do lado direito do campo de batalha, será possível aos visitantes passarem a ter uma perspetiva correta e elucidativa de como Nuno Álvares Pereira organizou e dispôs o exército português no Planalto de São Jorge. E essa perspetiva mais completa dos visitantes existirá para sempre, pois os imóveis adquiridos pela Fundação, ou pelo Estado Português, nunca mais serão utilizados para outros fins.

 

Com a mudança de executivo municipal em Porto de Mós, está confiante numa relação mais próxima com as autarquias locais? E com a população local?

Sendo o Campo de São Jorge o local histórico mais importante dentro do concelho de Porto de Mós, é absurdo admitir que a Fundação Batalha de Aljubarrota e a Câmara Municipal de Porto de Mós não trabalhem em conjunto na sua promoção e desenvolvimento. No entanto foi essa a situação que existiu até às últimas eleições autárquicas, por opção da anterior vereação. Espero sinceramente que para benefício de todos os portugueses, incluindo os residentes de São Jorge, a Fundação e a Câmara Municipal passem a trabalhar em conjunto na valorização de um bem cultural que é de todos e que deve estar ao serviço de todos.

Gostaria também de referir que uma vez definitivamente compreendida a vantagem que existe em se conciliar a preservação desta paisagem histórica com a qualidade de vida da população de São Jorge, a Fundação tem toda a disponibilidade para encontrar formas de apoiar socialmente os residentes que habitam dentro da área classificada, nomeadamente em termos de habitação ou de educação. Será um diálogo que teremos todo o empenho em iniciar, logo que se ultrapassem desconfianças antigas, que tiveram a sua origem em 2001, quando se atribuíam à Fundação propósitos inconfessados de ganhar dinheiro com este projeto, o que nunca foi verdade.

 

 

 

 

 

Carlos S. Almeida
Jornalista
carlos.almeida@regiaodeleiria.pt