Para além da reflorestação, projeto defende criação de campos agrícolas Foto cedida por Gabriel Roldão

Joaquim Torres, produtor agrícola e organizador da feira profissional de agricultura Agroglobal e Uziel Carvalho, responsável da Associação de Regantes do Vale do Lis, defendem que várias zonas do Pinhal de Leiria sejam arrendadas a agricultores para que sejam cultivadas.

A ideia, asseguram, já foi transmitida ao ministro da Agricultura e o projeto visa travar o risco de incêndio. Mas este projeto está a alimentar os receios de quem teme que este seja o primeiro passo para a privatização do Pinhal.

A ideia é utilizar parte do Pinhal de Leiria para o cultivo agrícola e dessa forma ajudar a combater os incêndios. “Projeto Nação Valente” é a designação da iniciativa. A criação de “zonas de culturas irrigadas” com “faixas de interrupção da floresta, dificultando, ou mesmo impedindo, propagação de incêndios”, é a ideia base do projeto.

A ideia “nasceu de uma conversa com o Ministro da Agricultura” Capoula Santos, aponta Joaquim Torres, numa nota publicada no sítio da Agroglobal. A Agroglobal, adianta, seria a “alavanca” mobilizando as empresas para a “fertilização, sementes, perfuração, equipamento de rega”. Por sua vez, caberia à Associação de Regantes do Vale do Lis a gestão do projeto.

Eventuais lucros, acrescenta, “seriam doados para apoio às vítimas dos incêndios”. O projeto prevê o surgimento de “unidades de produção agrícola rentáveis, utilizando modernas tecnologias”, aponta Joaquim Torres. De acordo com este responsável, “essas zonas seriam concessionadas a agricultores experimentados, sob a forma de arrendamento, em unidades de dimensão viável”.

Esta proposta é “o embrião da privatização do Pinhal”, contesta Alexandra Dengucho, vereadora da CDU no executivo municipal da Marinha Grande. A autarca alertou para o assunto na reunião do executivo, dia 19. “É uma situação que nos deve preocupar”, alertou. A autarca, que integra igualmente a Comissão Popular “O Pinhal é Nosso”, adianta que a comissão técnica da comissão entende que este uso do Pinhal pode ser prejudicial. Entre outros aspetos, “pode aumentar a salinidade do solo”.

Cidália Ferreira, presidente do Câmara da Marinha Grande, adiantou não conhecer o projeto, mas afirmou-se contra qualquer plano de privatização, defendendo que a gestão do Pinhal deve permanecer a cargo do ICNF. Uziel Carvalho, responsável da Associação de Regantes do Vale do Lis, assegura que apenas se fala em arrendamento, sendo que a propriedade do terreno permanecia estatal. “Não se fala em privatização”, assegura.

Grupo estuda proposta

Em cima da mesa está a “criação, desde já, de uma pequena unidade de produção”, com 20 a 25 hectares e há já um grupo de trabalho a estudar o projeto. Uziel Carvalho lembra que existem zonas no Pinhal com elevados níveis de água no solo e poderiam ser usadas para o cultivo de milho e de horticultura.

“Para além de ser rentável para o Estado e para a região, criava uma barreira verde que impediria a propagação do fogo”. Seria ainda possível, adianta Uziel Carvalho, com o recurso à irrigação, criar “bacias de retenção e água que possam ser usadas no combate aos incêndios”.

Os promotores deste projeto sublinham que uma solução similar foi adotada, com “enorme sucesso”, nas Landes, em Bordéus, França, depois de incêndios nas décadas de 30 e 40 do século passado. Onde antes havia pinhal, são hoje cultivados mais de 100 mil hectares “com cenoura, batata, alho francês, milho”, o que constitui “uma das zonas mais ricas da agricultura francesa”, remata.

Nota: artigo originalmente publicado na edição impressa, de 22 de março, do REGIÃO DE LEIRIA  

Carlos S. Almeida
Jornalista
carlos.almeida@regiaodeleiria.pt