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Maratonas: atletas embarcam no espírito

Faltam 10 dias para a Maratona de Berlim e Pedro Neves ultima os treinos para aquela que vai ser a sua segunda experiência no estrangeiro a correr 42,195 km. Luís Conceição já completou três maratonas este ano, num total de 46 que fez nos últimos 14 anos, e tem meio mundo corrido “devagarinho” e outro tanto por correr. Já Lourdes Pereira encontrou na corrida uma fuga para a depressão e quis experimentar a distância rainha em Paris, enquanto Ricardo Oliveira, passado cinco anos de treino regular, cumpriu o objetivo de correr uma maratona. E repetiu.

Em conversa com o REGIÃO DE LEIRIA, a opinião dos atletas é unânime: correr renova o espírito, deixa um sorriso no rosto e, nas longas distâncias, o apoio constante do público e a companhia de atletas durante todo o trajeto são motivadores. O que pesou na decisão de participar, como foi feita a preparação e como se (sobre)viveu aos 42 km são alguns dos pormenores que estes quatro aventureiros partilham nas próximas linhas.

Pedro Neves correu a primeira maratona em Berlim, no ano passado. Vai voltar dentro de uma semana

Vale tanto que regressa

Experimentou em 2017 pela primeira vez em Berlim. Gostou tanto que dentro de dias, Pedro Neves [02], da Maceira, concelho de Leiria, vai repetir a aventura de correr uma maratona, também em Berlim, com mais 44 mil atletas de todo o mundo.

Ao fim de 19 anos da primeira corrida – a Meia Maratona de Lisboa – este leiriense, de 43 anos, atleta da Juventude Vidigalense, decidiu dar o salto. “Já fazia meias maratonas com regularidade e, para quem gosta de correr, mais tarde ou mais cedo, a hipótese de fazer uma maratona coloca-se”, diz, reconhecendo que é um desafio. “A distância duplica”, realça.

Calendarizou os treinos, escolheu uma prova plana e lançou-se à estrada. “A experiência foi espetacular. Falar em facilidades quando corremos uma maratona é sempre relativo. Há sempre 42.195 metros para fazer”, afirma. Depois há o ambiente, a dinâmica da prova e centenas de atletas com o mesmo objetivo.

Pedro Neves demorou 5h05m para completar a distância. E com muito custo. Ao km 26 sentiu umas pontadas nos músculos, começou a gerir o esforço e acabou por se atrapalhar no ritmo que aplicava. “O muro caiu ao km 39”, lembra. “Hipotermia, caibrãs, tive que receber assistência médica e repousar alguns minutos numa ambulância. Acabei por cruzar a meta a andar e com uma manta térmica”, recorda.

Apesar da experiência dolorosa, Pedro Neves vai regressar a uma das principais provas mundiais da modalidade. “Quero passar a meta em melhores condições. O ambiente é fantástico e, no ano passado, não fiquei isento àquilo que estava à minha volta, o calor humano, pessoas a olharem para o dorsal e chamarem por mim, a bater palmas de incentivo. Embarquei na dinâmica da prova. Isso vale muito. Vale tanto que vou regressar”, esclarece.

O plano de treinos este ano foi ajustado, adicionou umas horas semanais de ginásio, gere melhor a alimentação e o patamar de motivação está elevado. E mesmo sem Berlim cumprida, Pedro Neves já pensa nas próximas: a Meia Maratona da Nazaré, a São Silvestre na Batalha e a Maratona de Londres 2019.

Ando devagarinho

Todas as maratonas têm uma história e Luís Conceição [03] tem muitas para contar. Rosto habitual em provas de atletismo da região, cumpre todos os anos várias maratonas em Portugal e no estrangeiro.

Só este ano já fez três – Badajoz, Roma e ECO Marathon de Lisboa – e o número só não será maior porque se encontra a recuperar de uma lesão (rotura de ligamentos) feita num simples passeio a pé, em vésperas de uma prova de trail na Madeira.
Natural de Moçambique, Luís Conceição vive na Martingança, concelho de Alcobaça, e corre pelo CCRD Burinhosa. Começou aos 20 anos, nos paraquedistas militares, manteve o hábito e não mais largou. São poucos os fins de semana livres.

E não facilita na preparação para as maratonas. “Se o trabalho me permitir, treino todos os dias. Também ando de bicicleta e complemento com ginásio e natação. Tudo ajuda a manter a forma física e tem que ser tudo dentro de uma metodologia de treino. Se fizemos um treino descontrolado, o organismo não reage e não ganha forma. Tem que haver uma metodologia para evoluir e conseguir atingir objetivos de tempo, distância, resistência,..”, diz.

Ainda assim, o objetivo principal é participar. “Vou para fazer o melhor mas também tenho que ser consciente. Atualmente, sei que na maratona posso valer 4 horas e é para aí que aponto. Se correr bem, faço menos, que foi o que consegui em Badajoz e em Roma, 3h50m. Mas também estou preparado caso corra mal e tento gerir até ao fim”, conta.

A aventura no estrangeiro permite também vestir a camisola de turista. “É outra forma de viajar”, entende Luís Conceição, de 58 anos, que em 2019 planeia ir ao Vietname e à Cidade do Cabo (África do Sul). Perth (Austrália), Jerusalém (Israel), Boston e São Francisco (EUA), Estocolmo (Suécia), Bordéus – Médoc e Paris (França) e Lisboa e Porto (Portugal) são outras das 46 maratonas de estrada que já correu. “Mas eu ando devagar, devagarinho”, repete. O melhor registo é de 3h15m09s, em Lisboa, em 2004, a primeira que fez.

“Corre-se exatamente igual em Portugal ou no estrangeiro. A diferença é que há locais com maior motivação e participação e todas elas têm a sua história. Talvez Portugal seja dos locais onde vemos menos pessoas a apoiar os atletas. Por onde tenho ido, tem sido fantástico”, assegura.

A corrida de Luís Conceição agora é outra, a recuperação, mas Londres. Nova Iorque, Chicago e Tóquio são destinos que não estão esquecidos. “Falta ver se a condição física me permite”, assegura.

Luís Conceição corre maratonas desde 2004. Já fez 46 maratonas por todo o mundo

Em abril deste ano, Lourdes Pereira realizou a primeira maratona, em Paris. Demorou 4h48m

Alívio sem igual

Foi a pensar no facto de nunca ficar sozinha que Lourdes Pereira [01] decidiu cumprir uma maratona no estrangeiro. “Em Portugal, as provas são normais, não têm muita gente. Em Paris, tinha família, vivi lá muitos anos e há mais atletas, ou seja, nunca ia estar sozinha ao longo da corrida. Como no ano passado tinha feito a meia maratona de Paris e tinha gostado, fui experimentar a maratona”, explica.

Atleta do Atlético Clube da Batalha, começou a correr aos 56 anos para “esquecer” uma depressão. “Percebi que era aquilo que gostava e nunca mais parei. Comprei um mp4 para levar música nos ouvidos e andava por aí, Casal de Mil Homens, Golpilheira, Batalha,…, sozinha. Chamavam-me doida, mas eu corria, limpava as lágrimas e no final sentia um alívio que não havia melhor”, conta.

A corrida passou a fazer parte da rotina, o roteiro de provas também, bem como o lugar no pódio do escalão: meia maratona da Nazaré, meia maratona do Douro, meia maratona de Madrid, e muitas das provas locais de 10 km.

O vício fê-la aumentar o objetivo. Em 2017 fez a Meia de Paris, em 1h48m, entre 55 mil participantes. Este ano, em abril, foi novamente à capital francesa mas para completar 42 km. “Não queria correr sozinha, tinha medo de me sentir mal. Fiz 4h48m, fiquei bem classificada. E como não tinha treinado por causa de uma lesão no joelho, foi bom”, analisa. E continua: “Chega a uma altura em que pensamos ‘o que é que estou aqui a fazer?’ mas depressa aquilo passa”.

Conhecida por todos os agricultores dos lugares onde passa, Lourdes Pereira, gerente da pastelaria Arqueiro, na Batalha, partilha a vontade de correr com o filho – “ele faz os 10 km, eu vou nas maiores” – e com todos os clientes. Os troféus, medalhas, fotos e diplomas estão expostos na pastelaria.

Ricardo Oliveira pratica atletismo e orientação. Já completou por seis vezes no estrangeiro a distância rainha da corrida

Viver espetáculo na berma da estrada

O gosto pela corrida surgiu em idade escolar. Jogou ténis de mesa, voleibol e, aos 30 anos, por influência de colegas docentes ligados à orientação, recomeçou a correr. Ricardo Oliveira [04], hoje com 43 anos e professor de educação física, é atleta federado de orientação pelo COC – Clube de Orientação do Centro e em atletismo pelo Clube Recreativo Amieirinhense (Marinha Grande).

Nas pernas tem nove maratonas, seis delas na fora de Portugal (Paris, Berlim, Sevilha, Badajoz e Roterdão), e quatro meias maratonas, todas em Espanha (Plasencia, Madrid e Badajoz). Sem falar nos três mundiais de masters em orientação.

“Passado cinco anos de treino regular, coloquei-me o desafio de treinar para correr uma maratona. Optei por Paris [2012] por ser numa altura coincidente com a interrupção letiva da Páscoa e por reunir, na altura, 40 mil participantes, o que indicava que ia ter companhia e público ao longo do percurso, o que poderia ser um fator motivador muito importante, principalmente quando chegamos aos 30/35 km e o ‘desistir’ pode começar a ser uma opção pelo cansaço acumulado”, justifica.

Durante meio ano treinou seis vezes por semana, corrida, reforço muscular, ritmo, intensidade e recuperação. Queria correr 4m/km (2h48m). “Não consegui, quando passei na partida já tinha decorrido 1m30s e não quis forçar o ritmo. Fiz 2h50. Depois da primeira experiência, o objetivo passou a ser tentar correr a 3m45cs/km, para 2h38m. Por uma ou outra razão, nunca consegui chegar a esse nível”, afirma. O melhor que fez foi 2h40m43s, em Berlim2013, e diz-se satisfeito.

Em Sevilha (2014), juntou uns dias de férias à prova e decidiu passear mais de 10 km pela cidade na véspera da maratona. “Aos 25 km acabou-se o combustível” e arrastou-se até à meta. “Obviamente que as férias devem ser feitas após ter corrido a maratona e nunca antes”, realça Ricardo Oliveira, que também destaca a importância do exame médico-desportivo, aconselhamento para treino e nutricionista.

“Planear tudo com antecedência, facilita. Permite inscrições, viagens e alojamentos mais em conta. E se houver a possibilidade de alojamento que permita preparar as refeições, tanto melhor. Alterar hábitos alimentares e ingerir alimentos inadequados podem arruinar os meses de treino”, alerta Ricardo Oliveira.

Marina Guerra
Jornalista
marina.guerra@regiaodeleiria.pt

(Artigo publicado na edição de 6 de setembro de 2018)

Planear tudo com antecedência, facilita. Permite inscrições, viagens e alojamentos mais em conta. E se houver a possibilidade de alojamento que permita preparar as refeições, tanto melhor.

Ricardo Oliveira

atleta do Clube Recreativo Amieirinhense

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