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Passeio Sénior. Um dia de felicidade a multiplicar por mil

Quase mil habitantes de Leiria, Pousos, Barreira e Cortes participaram no 5º Passeio Sénior da União de Freguesias. Um oásis de alegria no quotidiano de quem muitas vezes vive isolado e esquecido

Manuel Leiria
Jornalista
redacao@regiaodeleiria.pt

Foto Monumental
fotografias

A hora da partida aproxima-se e faltam chegar dois dos três autocarros previstos sair dali. Há nervosismo entre o aglomerado de pessoas que espera junto ao tribunal de Leiria: são quase nove horas, tempo de partir para o tão aguardado Passeio Sénior da União de Freguesias de Leiria, Pousos, Barreira e Cortes. A azáfama é grande: de t-shirt azul, com a imagem da óptica que apoia o evento, os guias não param um minuto.

Nos grupos põe-se a conversa em dia e há satisfação porque “a D. Arlinda também veio!” e lamenta-se a ausência de outra senhora. “Está ali sempre encafuada em casa…”.

É um dia muito esperado por todos: quase mil aposentados das quatro freguesias juntam-se anualmente para esta viagem. Inscrevem-se voluntariamente e, ansiosamente, contam os dias até à data. Mas o que justifica tanto entusiasmo, que leva gente a interromper férias no Algarve para participar e origina até listas de espera para embarcar nesta viagem?

A resposta é do presidente da União de Freguesias: “Estas pessoas estão muito isoladas. Há necessidade de promover estes encontros”, diz José Cunha, que não se arrepende de gastar no Passeio Sénior “tanto como no pavimento de uma rua” – 30 mil euros – para dar um dia de felicidade a este milhar de leirienses:

“Há aqui muita gente que vive sozinha e não pode fazer umas férias. Aqui muitos encontram família que está dispersa pelas outras freguesias”.

Este ano, dia 20 de setembro, 20 autocarros partiram de Leiria para a Quinta d’Oliveiras, em Abrantes. É o mesmo destino visitado em 2017 ams deixou tão boa impressão que todos insistiram no regresso. “Esta quinta tem condições que não é para todos”, conta António Rodrigues, 81 anos e muitos passeios no currículo. “Está tudo bem organizado e estar aqui é do melhor”, sentencia o morador dos Pousos, que também já colaborou na organização.

Judite Brás, 57 anos, foge ao público-alvo do evento. “Vim com o meu marido, ele é reformado”, esclarece. Sempre pronta para o passeio, tirou o dia. “Está a ser muito fixe, estou a adorar. A quinta é muito bonita e é bom para quebrar a rotina”, diz, protegida pela sombra de uma oliveira.

Calmamente, o dia passa a correr. Depois do nervosismo da partida, e tudo bem resolvido, a viagem evolui pensada ao pormenor. “Têm de manter os lugares que estão marcados por causa do seguro”, avisa a guia do autocarro 13, onde seguimos.

Lá dentro, já em andamento, alguém ensaia umas anedotas ao microfone. Sem sucesso. “Se vocês não se riem, rio eu!”, desabafa a comediante de serviço.

À chegada, há palhaços, música e salgadinhos. Os mais aflitos correm para as casas de banho. Logo ali, num instante voam os 7 mil salgadinhos que estavam preparados para bem receber os visitantes, espanta-se o gerente da Quinta d’Oliveiras ao final da manhã: afinal, sempre são mil estômagos para alimentar.

Entre croquetes e rissóis, há encontros felizes: familiares, colegas de escola, companheiros de trabalho e até de guerra. A quem as pernas mais cansa, valem as muitas cadeiras propositadamente espalhadas no recinto; a outros basta a viçosa relva para sentar e relaxar.

Quando é o próximo?

Chega a hora do almoço e os ânimos agitam-se. O momento é sensível, porque a clientela é exigente. À mesa, há “gelo” para quebrar: os lugares são definidos pelo alinhamento dos autocarros e, assim, juntam desconhecidos. Depois da comida e da bebida cumprirem a função de lubrificante social, soltam-se línguas que partilham ricas histórias de vida e analisam o repasto ao pormenor: qualquer minuto a mais no serviço não passa em branco.

“Tudo é uma preocupação. Este ano [a comida] demorou um bocadinho mais a vir”, atira, em jeito de balanço, o presidente José Cunha. Sempre estremoso para que tudo corra sobre rodas, no ano passado o autarca levou a sua própria sobremesa a um participante que reclamava a sistemática falta da mesma.

Acácio Sobreira, coordenador do Inatel Leiria, também se desdobra em atenções. O Inatel é parceiro no evento, mas assume-se como bem mais do que isso. “Para nós, estes passeios são como um filho que adoptámos. Fazemos como se fosse nosso”, sublinha.

Levar o lazer aos seniores é uma das prioridades da Fundação Inatel, que assim contribui para satisfazer uma população “um bocadinho esquecida”. “O sucesso deste projeto é o sucesso do Inatel”, frisa Acácio Sobreira. Por outro lado, “há muita gente com dificuldades que de outra forma não poderia vir”, nota. Para ali estar , cada participante paga 7,5 euros para as despesas, o restante é investimento da União de Freguesias.

Foi pela mão do Inatel que surgiu uma das surpresas do dia, quase no final da jornada. Mas antes ainda, depois do almoço o grupo espraiou-se pelo jardim, jogando cartas, conversando ou dormindo belas sestas.

Para os participantes mais ativos preparou-se um baile com umas modas e nem faltou o clássico “Apita o comboio”. Pouco depois subia ao palco a surpresa: no ano passado foi Paco Bandeira, este ano coube a António Manuel Ribeiro avivar memórias com sucessos dos UHF, a comemorar 40 anos em registo acústico, a que se juntaram temas de Zeca Afonso ou Eduardo Nascimento.

Muitos idosos ouviram sentados, atentamente, mas um grupo de enérgicos fãs dançou com vigor, bebendo belas imperiais para refrescar, como gente jovem. Até houve músicas pedidas, autógrafos, selfies no fim e emotivos testemunhos, que muito sensibilizaram António Manuel Ribeiro.

Quase na hora do regresso, ainda há tempo para lanche e bolo comemorativo, antes da partida para Leiria. “O dia esteve fantástico e o ambiente agradável”. A descomprimir da ansiedade da organização, José Cunha já sabe: no dia seguinte começam a perguntar-lhe quando é o próximo.

Com esta é a segunda vez que venho. Para o ano não sei, já cá não devo estar: gosto muito de viver mas já é viver demais! O que me vale é que eu sou uma pessoa muito rija! (…) Gosto das pessoas, do convívio, do petisco e hoje até bebi um bocadinho de vinho com gasosa!”

Emília Costa Pinto, 93 anos

A mais velha de entre todos os participantes no Passeio Sénior mora em Leiria

Estou sempre pronta para o passeio! Tirei o dia do trabalho para acompanhar o meu marido e quebrar a rotina. Está a ser fixe, estou a adorar, a quinta é muito bonita. Disseram-me que era muito bom e realmente estou a adorar. É um dia bem passado, apesar do muito calor”

Judite Brás, 57 anos

Vive nos Andrinos e acompanhou o marido, já aposentado

Há muitas histórias felizes nestes passeios. Reencontro sempre gente que não vejo há muitos anos. Come-se e bebe-se sempre muito bem e também se dança, joga cartas e até dá para dormir umas sestas!”

José Lopes, 74 anos

É dos Andrinos e já perdeu a conta ao número de passeios que integrou

Já estive em vários passeios e vim pelo convívio. São quatro freguesias, é muita gente, tenho aqui muitos amigos e gosto de estar com esta malta. Está tudo bem organizado – para tanta gente tem mesmo de ser assim. Estar aqui é do melhor. Esta quinta tem condições que não é para todas. As pessoas estão satisfeitas e isso é o mais importante”

António Rodrigues, 81 anos

Mora nos Pousos e já participou na organização de anteriores passeios, Diretora do Conservatório Internacional de Ballet e Dança

Estava de férias [no Algarve] e disseram-me que iam estar aqui muitas pessoas e que era bonito o sítio. Estou a gostar imenso. Fiquei surpreendido, encontrei muitas pessoas conhecidas dos Pousos, Andrinos, Azabucho, Campo Amarelo, Barreira… Vim conhecer e rever a malta da minha idade! É uma coisa extraordinária”

Augusto Pinto, 68 anos

É dos Pousos mas está há mais de três décadas no Canadá

Isto é como a música do Marco Paulo, ‘Maravilhoso coração!’. Para pessoas ‘novas’ como eu é muito bom, porque pessoas da minha idade saem pouco ou nada de casa. Mesmo coxa quis vir!”

Maria da Conceição Santos, 83 anos

Moradora no Calvário, Cortes

Tenho muita honra em estar aqui. Não há muitas oportunidades destas. Infelizmente sou viúvo, não tenho ninguém, não tenho mulher, não tenho filhos, nada. Gosto de conviver com quem gosta de conviver comigo”

Joaquim Pereira, 71 anos

Mora em Famalicão, nas Cortes

Estas pessoas estão todo o ano a perguntar pelo passeio. Tenho de tirar o dia para vir ajudar, mas no fim fico muito contente: é um orgulho ver estas pessoas contentes”

Rui Jorge, 45 anos

Guia do passeio. É dos Pousos e integra o executivo da União de Freguesias

“Percebemos melhor a importância do nosso repertório”

António Manuel Ribeiro foi a surpresa preparada pela organização do passeio. Os êxitos dos UHF e uma seleção de outros temas tocados em registo acústico embalaram o final de tarde e surpreenderam muitos dos seniores que participaram no passeio. 

No final do concerto, o cantor estava rendido ao momento. “Para nós foi uma experiência completamente nova. Nunca tínhamos tocado para um público desta faixa etária. Não sabiamos o que iamos encontrar”, explicou António Manuel Ribeiro. Com 40 anos de carreira, os UHF estão na memória de muitos. “As pessoas com 80 anos conhecem-nos e isso era um trunfo a nosso favor”, assumiu, reconhecendo que o alinhamento foi pensado para ir à procura da reação do público. 

“Nestes espetáculos devemos entrar sempre muito calmos e muito humildes. Estamos aqui para comunicar com as pessoas”. Isso aconteceu amiúde, com músicas pedidas e troca de palavras entre a audiência e o palco. Até houve alguém que recordou os tempos em que António Manuel Ribeiro escreveu no jornal “Record”. “Foi uma surpresa. Para mim, tudo isto serviu para perceber melhor a importância do nosso repertório. São 40 anos de carreira e não há vaidades, só trabalho e mais coisas para fazer”. 

Também a reação à música de Zeca Afonso sensibilizou António Manuel Ribeiro. “Foi muito importante ver esta gente a saudar e cantar José Afonso. Houve muitas quezílias durante anos e anos por causa da política. José Afonso tem uma obra universal fantástica que não pode morrer. A melhor forma de o celebrarmos é divulgar as suas canções”.

No final, uma senhora segredou-lhe que há nove meses tinha perdido uma filha e todas as canções que ouvira a emocionaram. Um momento tocante, porque “é bom que as canções tenham importância para as pessoas, que a canção tenha qualquer coisa dentro e que sejam úteis para cada um deles”.

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