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A escolha brasileira de buscar uma vida melhor após a eleição de um presidente de extrema-direita

A escolha brasileira de buscar uma vida melhor após a eleição de um presidente de extrema-direita

Para quem decide trocar o Brasil por Portugal, as promessas subliminares não são poucas. O imaginário de viver na Europa carrega consigo uma série de referências que chegam sedutoras além-mar. Da esperada qualidade de vida, presente, por exemplo, na segurança já há muito não vista em terras tupiniquins, à oportunidade de frequentar uma formação profissional de qualidade, a mudança de continente vem carregada de uma série de anseios a serem preenchidos.

Foi após um episódio de roubo violento, quando quatro assaltantes invadiram o carro de Diogo Yoshida, 32 anos, levando todos os pertences, que ele e a esposa tomaram a decisão de fechar a empresa que tinham em São Paulo, vender o imóvel em que moravam e reestabelecer a vida em Portugal. A porta de entrada foram os estudos de Camila Ramanzini, 22 anos, que abandonou o curso após a situação de insegurança vivida pelo marido em janeiro.

Aluna de Engenharia de Energia e Meio Ambiente, ela concorreu para a bolsa de estudos no Instituto Politécnico de Leiria e foi aceite para dar início à licenciatura este semestre. Após três meses sobre a data de chegada, a experiência tem sido diferente do esperado. “Os arrendamentos muito caros, documentos que demoram para sair, além do facto de muitas empresas não contratarem estrangeiros sem residência”, descreve a brasileira referindo-se a parte do cenário que encontrou.

Apesar de ter sentido a segurança em que nada se assemelha ao medo contínuo de andar pelas ruas do Brasil, onde 60 mil mortes são registadas por ano, a estudante se desiludiu com os processos que envolvem burocracia. As situações de falha de comunicação por parte dos órgãos públicos transformaram a tentativa de legalização em uma maratona de idas e vindas em torno de documentos. “Eu já fui às Finanças duas vezes para resolver uma coisa que poderia ter sido resolvida na primeira vez, por desencontro de informação”, conta um dos casos.

 

Diogo Yoshida e Camila Ramanzini decididiram deixar o país natal por causa do clima de violência

Em outra situação, mesmo com posse do visto para permanência, ela e o companheiro precisaram dar entrada do pedido de residência junto do SEF. Após ligar 20 vezes para a central telefónica, Camila foi atendida apenas na 21ª e teve de aguardar 40 minutos em linha até marcar uma entrevista no posto de Viseu, para quase 90 dias mais tarde.

“Eu acho um absurdo ter que esperar três meses para ter a residência, mesmo já estando legalizada”, declara, ao citar que a nova vida acaba por ficar em suspenso nesse meio tempo. “Eu só consegui emprego em part-time depois de ter o documento, mesmo com a residência agendada. Não é o american dream”, alerta a quem pode.

Hoje, longe do cenário de incertezas que elegeu Jair Bolsonaro como próximo presidente no passado domingo, a brasileira se arrepende de ter optado pela mudança de país tão rapidamente. “Se eu soubesse que Portugal estaria do jeito que está, e que eu passaria pelos problemas que eu estou tendo aqui, não teria vendido tudo o que tinha e vindo para cá. Teria aguentado mais”, diz, pouco antes de adiantar que, com o quadro político que está prestes a se desenhar, também não volta ao Brasil. “Eu particularmente não acho que irá melhorar. Não colocando uma pessoa no poder que não tem capacidade intelectual”, acrescenta.

Para a empresária Tahila Carvalho, 36 anos, a escolha de fugir da crise económica brasileira em 2016 foi diretamente ao encontro da xenofobia praticada por alguns portugueses. “Eu sofri muito no sentido de ser diminuída dentro de uma equipa em que eu era a única brasileira”, conta sobre a sensação que teve em duas das três empresas onde contou com contrato de trabalho em Lisboa.

 

Tahila Carvalho deixou o Brasil durante a crise económica Foto: Joaquim Dâmaso

A realidade de trabalhar muitas horas seguidas e ganhar um salário inferior à formação que possui – quesitos comumente vividos por imigrantes que desejam ingressar no mercado estrangeiro –, também pesou na desconstrução da imagem de Portugal como o país dos sonhos.

Foi depois das más experiências que a gaúcha de Porto Alegre escolheu reabrir a empresa de eventos e casamentos que tinha no Brasil, dessa vez em Leiria. Há dois meses ela retomou as funções de cerimonial e já realizou o primeiro casamento pela Oriente Produção de Eventos, com boa aceitação. “A questão de a empresa ser aqui é estratégica. Por ser o centro de Portugal, eu consigo me deslocar para o norte ou para o sul”, comenta, explicando a preferência.

Apesar das dificuldades Tahila quer ficar

Mais animada por poder atuar no sector em que se especializou, além de contar com o apoio dos pais, que já cá vivem, Tahila não se imagina indo embora. “Já passei por muitas dificuldades, já sofri muito preconceito, mas apesar de tudo, adoro viver neste país”, declara, antes de ser questionada se pensa em voltar para solo brasileiro. “Não consigo imaginar isso. É uma insegurança generalizada que eu sinto em relação ao Brasil hoje: no que está por vir na política, na economia e na segurança em si.”

Robson Oliveira está satisfeito com a forma como foi recebido mas reconhece que persistem alguns preconceitos

Recém-chegado a Portugal, o professor universitário Robson Oliveira, 40 anos, atracou na capital para seguir um mestrado que teria custos muito elevados em Brasília, sua cidade-natal. Aluno há um mês de Ciências Gastronómicas, no Instituto Superior de Agronomia, ele mantém a boa imagem que havia construído. “Povo educado, cidade limpa, segurança (mesmo nunca tendo sido roubado no Brasil) e transporte público maravilhoso”, resume.

Satisfeito com a recetividade, o brasileiro aponta como negativo o preconceito em relação aos imigrantes. “Na hora de arrendar apartamento, mesmo comprovando renda e tendo todos os documentos legais, eu escutei algumas vezes: ‘não alugamos para estrangeiros´”. Apesar disso, ele garante que tem gostado da experiência.

“A universidade em que dou aula me deu uma carência de dois anos para pensar se valerá a pena morar aqui ou não”, completa. Após o resultado recente das urnas, entretanto, ele declara que repensa a volta à nação-mãe enquanto Bolsonaro estiver no poder. “Fico preocupado. Sou gay e o Brasil não é um bom país para minorias”, atesta.

Jéssica Germano

 

A insegurança marca o quotidiano no Brasil. Em 2017, de acordo com a organização não governamental Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de homicídios no país aproximou-se dos 64 mil. Segundo esta ONG, o país registou um total de 63.880 homicídios no ano passado

A imigração crescente é vista também na rede. No Facebook, o grupo Brasileiros (as) em Leiria (Portugal) já soma mais de 2.800 usuários, que trocam experiências sobre a vida na região e constroem, invisivelmente, uma comunidade de recomendações, dicas e serviços. Outro canal de ajuda é a página da AMIGrante, associação que dá apoio e auxilia cidadãos estrangeiros com informações por meio de voluntários.

Não é novidade a escolha de Portugal por parte das celebridades, incluindo as brasileiras. Quem mais recentemente declarou a mudança de país foi a atriz Luana Piovani que, ao lado dos três filhos e do marido, o surfista Pedro Scooby, deve atracar por cá em 2019. As razões que levaram à decisão foram citadas em alguns vídeos no canal da brasileira, no Youtube.

 

Comunidade brasileira retoma rota de crescimento depois da queda durante os anos da crise

É a segunda maior comunidade estrangeira da região e está em crescimento. O ano passado, a comunidade brasileira somava 3.493 pessoas com o estatuto legal de residente na nossa região (distrito de Leiria e concelho de Ourém). Os números são do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e revelam ainda que o universo de cidadãos ucranianos a residir nesta região ainda lhes permite constituírem-se como a comunidade estrangeira mais numerosa entre nós.

Contudo, brasileiros e ucranianos estão em dinâmicas diferentes em termos de crescimento. A comunidade ucraniana (4.135 pessoas em 2017) está em queda há pelo menos uma década. Ao invés, há dois anos que a população brasileira está a aumentar.

Depois de uma redução de residentes brasileiros durante a crise (a queda iniciou-se em 2011 e prolongou-se até 2015), em 2016 a comunidade brasileira ensaiou uma ligeira recuperação que se consolidou o ano passado. Em 2017, o número total de estrangeiros na região voltou a ultrapassar os 18 mil, algo que não acontecia desde 2011.

 

No cômputo geral da última década, o ano de 2009 registou o pico no número de estrangeiros na região (18.951). Destes, a maioria eram ucranianos e brasileiros. Iniciou-se então uma constante descida no número de estrangeiros, que se acentuou particularmente em 2012. Nos últimos dois anos, todavia, essa tendência inverteu-se. E a comunidade brasileira está a ajudar nesse retorno do crescimento da comunidade estrangeira.

Relevante é, igualmente, o incremento significativo de algumas comunidades. Veja-se o caso de cidadãos do Reino Unido. Foi a que mais cresceu no distrito nos últimos anos e é já a terceira mais numerosa. Dos 485 britânicos com estatuto legal de residente na região em 2008, esta comunidade triplicou numa década, para uns impressionantes 1.446 cidadãos em 2017. Este crescimento não terá sido alheia a perspetiva de saída do país da União Europeia (o Brexit foi aprovado em referendo em junho de 2016).

A recente mudança de poder no Brasil poderá alavancar um comportamento semelhante que é, contudo, prematuro antecipar.

O certo é que, a nível nacional, “a nacionalidade brasileira, com um total de 85.426 cidadãos, mantém-se como a principal comunidade estrangeira residente, tendo aumentado 5,1% em relação a 2016”, aponta o relatório do SEF relativo a 2017. Já o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, apontava que, em 2015, dos cerca de 750 mil brasileiros que estima estarem radicados na Europa, 116.271 estejam em Portugal.

Para já, acumulam-se os sinais de que a procura por Portugal por parte de cidadãos do Brasil está a subir. Já este mês, a elevada procura levou o consulado luso em São Paulo a suspender a receção de novos pedidos de reconhecimento de nacionalidade para luso-descendentes. Por outro lado, esta dinâmica deverá acrescentar pressão ao sistema de agendamentos do SEF que em agosto registava já agendados 100 mil atendimentos até ao primeiro trimestre de 2019. CSA

Nota: Artigo originalmente publicado na edição de 1 de novembro da edição impressa do REGIÃO DE LEIRIA 

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