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Há pouco espaço no balneário. Homens e mulheres, adversários em combate, equipam-se lado a lado. Há sacos e proteções pelo chão. As mãos ganham volume com ligaduras que, no final da noite, vão encher o caixote do lixo. E há um cheiro a mentol que inunda o balneário, resultado das pomadas de aquecimento que os lutadores colocam no corpo.

Valentyna Bilous fica nervosa com o aproximar da hora do combate. Está em causa o título nacional classe B k1 (- 56 kg) de kickboxing.

Ela é uma das promessas da modalidade. Atleta do Lis Tiger Club, empenhou-se durante semanas e, em particular, nas 24 horas antes da entrada no ringue, passando por vários momentos: ansiedade, alegria, nervosismo, diversão e concentração.

Em Portugal pela qualidade de vida

Natural da Ucrânia, a jovem de 20 anos está em Portugal desde os 9 anos. Os pais emigraram à procura de melhores condições de vida e deixaram-na com os avós. Tinha três anos. Viveram na Nazaré, Marinha Grande, Leiria e assentaram arraiais no Barracão, em Leiria, nos últimos anos.

Foi já em Portugal que nasceu Viktoria, tem quatro anos e é outro poço de energia, tal como a irmã, Valentyna. A mãe Sivtlana, de 42 anos, era enfermeira. O pai Vasil, de 43 anos, era professor de Química. Ambos trabalham em unidades fabris perto do Barracão.

Foram eles que levaram Valentyna a praticar kickboxing, com o objetivo de se preparar fisicamente para uma candidatura à Academia de Polícia.

Hoje, a ideia da candidatura está em stand by e os pais assumem algum receio pela forma entusiástica como a filha treina e compete.

Nas últimas semanas, Valentyna adotou um regime alimentar controlado que lhe permite ter o peso desejado, ainda que as últimas 60 horas antes da pesagem – realizada um dia antes da campainha soar para o início do combate – tenham sido as mais complicadas: eliminou completamente a ingestão de líquidos e comeu apenas sete ovos cozidos.

Correu com várias camadas de roupa e recorreu à sauna. Em 24 horas eliminou 2,2 kg do seu peso.

“Não gosto muito mas ela gosta. É um pouco violento mas o importante é que não se magoe”, diz a progenitora, transparecendo um pouco de nervosismo, por saber que o dia é importante para a filha. A opinião é partilhada por Vasil, ter “uma menina” a praticar desportos de combate é “demasiado agressiva”.

No dia do combate, a 16 de fevereiro, os dois vão assistir à gala, com Viktoria, que não pára sossegada na cadeira e corre atrás da irmã, de punho fechado e pé levantado. “Também ela já gosta das lutas, acho que vai ser pior do que a irmã”, acrescenta a progenitora.

A conversa, em português, ucraniano e russo, decorre com um café e um chocolate pelo meio. Valentyna olha para a caixa de bombons. Agarra num mas volta a colocar na caixa. É melhor não cair na tentação!

A vida da família Bilous é agora por cá. Continuam a regressar à Ucrânia nas férias, todos os anos, para visitar a família e amigos. Antes a viagem era feita de carro, numa corrida contra o tempo e as fronteiras. Agora vão de avião.

Naquele sábado à noite de fevereiro, frio, na Boa Vista, Leiria, mais de 350 pessoas assistiram à Gala News Talents Arrive III, organizada pelo Lis Tiger Club. Em jogo estavam três títulos nacionais, dois dos quais disputados por atletas da casa.

Troféus e tranças

Troféus e tranças

“Quanto mais próximo da hora de combate, começo a ficar mais bruta, respondo mal. Depois peço desculpa a toda a gente, dou beijinhos, passo por várias fases ao longo do dia”, diz, no sábado de manhã, ainda com uma cara de sono, quando se senta na cadeira do cabeleireiro para fazer tranças.

Enquanto lhe puxam os longos cabelos claros, bem rente ao couro cabeludo, Valentyna tenta convencer mais pessoas a assistir à Gala do Lis Tiger Club. “Vai estar cheio. Uma vez combati e quando entrei só ouvia pessoas a gritar o nome da minha adversária. Aqui, espero que seja ao contrário, que gritem por mim e por todos os outros atletas do clube. Vai ser bom”, reforça.

“Quando combates em casa tens muito público que é teu… mas tens medo de cair com a cara na lama”, salienta, lembrando que a adversária, Marisa Barbosa, de Aveiro, com quem já combateu, não é pera doce e tem o título nacional. “Vai ser um combate duro, complicado. Eu quero ganhar mas ela também é boa”, diz.

Ao fim de uma hora, as “tranças profissionais” estão prontas e Valentyna, de camisola do clube e calças personalizadas, está orgulhosa da opção. “Vão aguentar vários dias”.

“Somos mulheres, apesar de irmos combater gostamos de ir arranjadas, com um pouco de maquilhagem à prova de água, para não borrar tudo”, explica, sem esquecer o sorriso, um elemento constante no rosto. Em jeito de brincadeira diz que demorou dois anos para ficar com um “sorriso lindo” e isso não se pode perder.

Calções Danger

A boquilha é, por isso, um elemento essencial (e obrigatório) no saco de equipamento. “Senão o meu sorriso lindo acaba”, reforça.

É em casa, num ambiente familiar, entre perguntas de última hora da mãe e a televisão ligada num canal de desenhos animados russos que Valentyna dá o “pontapé de saída” para o momento do dia.

Calções de combate, com a inscrição Danger atrás, calções de licra, t-shirt, proteções peitorais, coquilha feminina, toalha branca e o mongkon, com as cores de Portugal e da Ucrânia. “Normalmente uso no muay thai, hoje não será preciso, mas vai na mesma”.

Há ainda espaço para um chocolate, bolachas de aveia, rimel, perfume e as proteções profissionais para os pés, a novidade do combate. “Vou combater ser as proteções nas pernas. Vai ser duro”, confessa enquanto sorri radiante com o desafio que enfrenta.

O mongkon é um objeto litúrgico em forma de cordão, exclusivo do muay thai, colocado na cabeça dos atletas, em busca de proteção antes dos combates. É dado ao lutador pelo mestre. 

Os atletas entram no ringue com ele na cabeça e antes do início do primeiro assalto, executam obrigatoriamente o Wai Kru  (uma demonstração de respeito e gratidão ao mestre), acompanhado por música tradicional tailandesa .

É tempo de ir embora. “Adeus, adeus, até logo! Às nove é quando começa”, avisa a jovem lutadora, enquanto entra apressadamente no carro.

Os nove quilómetros que separam a casa de Valentyna da sede do clube são feitos a bom ritmo e ao som de Eminem. A paragem nos semáforos é a oportunidade para consultar (mais uma vez) o telemóvel e sorrir ao ler a mensagem.

Em português ou ucraniano, a lutadora está constantemente a trocar sms e mensagens de Whatsapp. Tem bilhetes para entregar aos amigos e dinheiro para receber. As contas da venda dos bilhetes para a Gala têm que ficar fechadas até às 20h30. 

Há 350 lugares sentados e apenas 54 bilhetes para vender à porta. No ponto alto da noite, percebe-se que são poucos lugares e o público começa a ficar de pé encostado às paredes ou sentados no chão.

O relógio não pára e Valentyna quer controlar todos os passos antes da hora H.

“Onde é que vamos jantar?”, pergunta ao mestre João Pedro Severino. “Aqui, há bifanas!”, responde o treinador.

A resposta não agrada e uma hora depois decide ir à procura de um sítio para comer algo com mais substância.  Jonathan Silva, o único atleta do Lis Tiger Club que vai fazer um combate de muay thai, acompanha-a. Faz kickboxing há 12 anos. “Queremos algo mais consistente, com hidratos de carbono”, justifica o amigo.

Os dois seguem pela rua, de casaco, roupa desportiva e mãos ligadas. O enchimento, feito com ligaduras e gases, serve para amortecer o impacto dos socos e proteger as nozes da mão, mesmo com luvas colocadas.

Isso incomoda? O que é que não conseguem fazer com isso nas mãos?, perguntamos. “Conseguimos fazer tudo”, dizem rapidamente. Na verdade, mais tarde vão perceber que há coisas que não dão para fazer assim tão bem, mas já lá vamos.

O enchimento terá que ser validado e rubricado, instantes antes do combate, pelos elementos da equipa de arbitragem do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Kickboxing e Muaythai, dois deles com estatuto internacional.

Meia hora antes do começo da gala, a afluência à Boa Vista congestiona os restaurantes numa noite de sábado e a dupla de lutadores decide-se por um take away. Frango assado com arroz e migas. É servido num prato e comem de pé, num balcão do estabelecimento. “Tem talheres?”. A resposta é sim e com os talhares vem o desafio de comer frango com ligaduras nas mãos que insistem em travar os movimentos das mãos.

“Afinal há coisas que não conseguimos fazer”, brincam enquanto tentam contrariam a direção dos talheres.

Vinte minutos depois, a dupla regressa ao clube. Dezenas de pessoas começam a acumular-se à entrada. As portas abrem e as filas da frente, junto ao ringue, são rapidamente ocupadas. No espaço de meia hora, a sala enche e há um frenesim constante de pessoas a entrar e sair, felicitar atletas e a tentar chegar ao bar.

O público é maioritariamente masculino mas há espectadores de todas as idades e proveniências: crianças, algumas de colo, empresários, namoradas e amigos, pais de atletas, aficionados da modalidade e até um desportista de alta competição que, no início da tarde, conseguiu uma das melhores marcas de sempre no atletismo português.

Valentyna já não consegue esconder os sentimentos. Sorri quando encontra alguém que conhece e fica nervosa quando percebe que não tem sítio para ir ou alguém com quem falar. Foge de um lado para o outro. Tão depressa os olhos ficam repletos de lágrimas como diz uma piada. Ela avisou: ficava instável com o aproximar da hora H.

Os treinadores estão concentrados à entrada do balneário e ouvem as instruções da equipa de arbitragem. Emana dali um intenso cheiro a algina, a famosa pomada de aquecimento que os desportistas usam. Lá fora está frio. Na sala começa a ficar calor. Há quem jogue às cartas enquanto espera que os combates comecem.

Cada atleta traz consigo três a quatro pessoas, mais os amigos. Encontram um buraco no balneário e começam a equipar-se. Depois são besuntados. Colocam vaselina na cara, aquecem o nariz, friccionando-o em círculos. Saltam nas pontas dos pés e estendem os braços, testando os golpes, enquanto emitem sons e controlam a respiração. São os últimos preparativos antes da chamada ao ringue.

Ao fundo, fora do balneário, ouve-se a campainha que marca o começo do combate e os assobios à passagem da menina com a placa numérica dos rounds. Valentyna volta a fugir para junto dos pais, sentados na segunda fila, estão acompanhados pelos patrões, mas não por muito tempo. Carrega cadeiras de um lado para o outro, para mais pessoas se sentarem. E não pára quieta. Vai ao balneário dar força ao lutador que se segue. Jonathan Silva, o companheiro do jantar no take away.

Por ser o único combate de muay thai da gala, este também é o único onde os atletas entram com o mongkon e onde se ouve o sarama, música característica da modalidade que é tocada antes do combate, durante os rituais preparatórios para o combate do lutador.

Soa a campainha e o primeiro round fica marcado pelo ataque certeiro de Jonathan e  a queda do adversário, que pede assistência. Acabaria por desistir a meio do segundo round, queixoso do joelho, e Jonathan Silva vence por knockout (KO).

A sala rebenta em euforia.

O golpe aplicado pelo atleta do Lis Tiger Clube foi cilíndrico e eficaz. O troféu fica em casa. E os hidratos de carbono do take away parecem ter resultado.

Este é o último combate que faz no clube antes de embarcar para uma nova etapa na vida pessoal e profissional a 400 km. Vai continuar ligado ao Lis Tiger Club mas à distância.

Valentyna não aguenta sossegada. Pula, corre para o balneário, festeja com os companheiros e saúda o amigo. No final da noite, os papéis e os sentimentos vão inverter-se. E é altura de Valentyna começar o seu trajeto de preparação. 

Passam dez minutos da meia noite e com três títulos nacionais em jogo que vão determinar os próximos campeões nacionais, escuta-se o hino A Portuguesa. O armazém está repleto, o público de pé e a meia dúzia de luzes que estão acesas apontam para o chão do ringue. As expectativas estão elevadas.

Valentyna já não sai do balneário. Está concentrada e focada. Do outro lado da cortina, está a adversária que nos últimos minutos se bateu para aperfeiçoar o movimento de punhos. Marisa Barbosa, da Dynamic Life Academy (Aveiro).

Em cima do ringue ouve-se o speaker… ‘E para o canto vermelho, do Lis Tiger Club, Valentyna Bilous”… O som aumenta e rebenta ‘I Will Never Give up’, uma batida de hip hop ucraniana escolhida a dedo.

Segundos depois – “quando ela quiser” reforça João Pedro Severino – a lutadora sai do balneário, de capuz na cabeça e mãos nos ombros do treinador.

Abana o corpo ao ritmo da música, com um ar sério. Verdadeiramente concentrada. Um semblante bem diferente daquele que apresentou ao longo de todo o dia. O público grita por ela e é agora, o tudo ou nada.

Verificadas as proteções e validada a posição dos cinco árbitros, começa o combate. Com cinco rounds pela frente, de dois minutos cada, as duas lutadoras mostram algumas iniciativas. Primeiro golpes de joelho, depois punhos, muitas vezes “dois diretos e um joelho”, que é como quem diz dois movimentos de punho, seguidos de um golpe na cintura. Os movimentos começam a ficar marcados no corpo das atletas e num momento de maior intensidade, Valentyna é encostada às cordas.

A adversária não perde pela resposta e Valentyna retribui de igual modo. O golpe é certeiro e a adversária fica a sangrar do nariz, obrigando a uma pausa no combate para limpar o piso. A luta continua intensa e Valentyna saltita em frente à adversária a sorrir, um pouco de provocação misturado com a concentração que assume.

Nos cantos, os treinadores gritam a estratégia – “usa mais pernas”, “mãos, mãos”, “não a deixes avançar” -, enquanto no meio do público, Vasil segue atentamente os movimentos da filha e os amigos gritam o seu nome.

Uma aplica mais força, outra é mais rápida. No quinto e último round, as forças começam a falhar e ambas esperam que a campainha soe depressa. Será a avaliação dos juízes é que vai decidir a vencedora e ninguém aguenta sentado pela decisão.

O combate acaba e as atletas abraçam-se. A agressividade do kickboxing cai e dá lugar ao fair play. As maçãs do rosto estão rosadas, a transpiração recorre às luzes para deixar os corpos e os cabelos estão desorientados. Perdão, as tranças de Valentyna estão intactas – são “tranças profissionais”, recordam-se? – nem parece que estiveram dez minutos a lutar.

Lado a lado, Valentyna a rir, Marisa com uma cara desgastada, ouvem a decisão. Os juízes dão o título à lutadora da Dynamic LA. O resultado não é do agrado de todos, João Pedro Severino entende que a sua atleta foi melhor.

Até desligar as luzes

Enquanto a vencedora celebra entre o público, Valentyna regressa ao balneário. Como? De sorriso no rosto. É recebida com carinho, por todos os amigos que passaram por igual prova na noite de sábado. Contudo, é quando encontra Jonathan Silva que o “muro” de Valentyna cai. Chora ao mesmo tempo que ri e pede desculpas a todos e dá beijinhos, tal como prometera quando estava sentada a fazer as tranças, ainda de manhã.

“Não tenho nada a apontar aos meus atletas, estou muito orgulho de todos eles. Só posso”, refere João Pedro Severino.

O momento é de descompressão. A jovem ucraniana não tem marcas nas pernas, nem no rosto, ao contrário da (nova) campeã nacional que circula na sala com um saco de gelo no olho e outro no lábio.

Tiram-se selfies, distribuem-se abraços e Valentyna segue o último combate da noite encostada à porta do balneário, ao lado do treinador.

Cortam-se as ligaduras e as mãos ganham liberdade. No caixote do lixo não há espaço para mais gase. O equipamento é empurrado para dentro do saco e a vencida continua a tirar fotografias e assina as luvas de outra atleta.

São duas da madrugada e a noite ainda não acabou. Valentyna e todos os elementos do Lis Tiger Club arrumam as 300 cadeiras da sala, limpam o chão, montam o ginásio e o tatami. O clube volta à atividade normal na segunda-feira e tudo tem que estar pronto.

Os próximos dias serão de recuperação, até porque Valentyna Bilous e Yuri Ceita, vice-campeão nacional (-86 kg) têm já o próximo objetivo traçado.

Vão estar no dia 23 de março num evento em Lormont, em Bordéus, França. Será o primeiro combate internacional para os atletas, rumo à competição na classe A, considerada como profissional.

É também a pensar nessa categoria que João Pedro Severino pretende realizar a gala do Lis Tiger Club em 2020. “Pelo menos um dos combates deles, senão os dois, serão profissionais. Será a primeira vez que se irá realizar um combate profissional em Leiria”, adianta.

Quanto à Gala New Talents Arrive III, dos nove combates realizados com sete atletas da casa, o Lis Tiger Club conseguiu cinco vitórias. “Estou muito orgulho de todos eles”, reforça João Pedro Severino.

Valentyna Bilous terá também uma nova faceta no clube. Com a saída de Jonathan Silva, a jovem atleta passa a ser a nova treinadora dos lutadores mais novos, ao mesmo tempo que completa o curso de arbitragem em kickboxing e trabalha.

Os ponteiros do relógio continua a girar e é hora de desligar as luzes do clube. Os oito atletas e o mestre celebram a noite, de vitória e aprendizagem, com champanhe, bifanas e chocolate, comprado no posto de gasolina às 5 da madrugada.

“Obrigada”, despede-se Valentyna. Como? Claro está, de “sorriso lindo” no rosto.

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Joaquim Dâmaso
Fotografia e vídeos
joaquim.damaso@regiaodeleiria.pt

Jorge Morgado
Edição
redacao@regiaodeleiria.pt

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