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“Ópera na Prisão” leva 16 reclusos ao palco do Teatro José Lúcio da Silva em Leiria

“Così fan tutte: da Coda ao Final Beat” inclui dança, teatro, audiovisual e árias de ópera, e faz parte de “Ópera na Prisão/Pavilhão Mozart” Foto de arquivo: Joaquim Dâmaso

Manuel Leiria
Jornalista
manuel.leiria@regiaodeleiria.pt

Dezasseis reclusos do Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens (EPL-J) mostram sábado, no palco do Teatro José Lúcio da Silva, o resultado de três residências artísticas desenvolvidas no último ano na prisão.

“Così fan tutte: da Coda ao Final Beat” inclui dança, teatro, audiovisual e árias de ópera, e faz parte de “Ópera na Prisão/Pavilhão Mozart”, lançado em 2016 pela Sociedade Artística Musical dos Pousos (SAMP) com o objetivo de baixar os níveis de reincidência criminal entre jovens reclusos.

Esta semana decorrem os últimos preparativos para o momento mais esperado: a saída dos reclusos da cadeia para revelarem ao público o que têm feito.

Quarta-feira afinaram-se gargantas para cantar Mozart. Na antiga sala da encadernação da prisão, um painel na fachada propagandeia uma frase de Salazar que termina com “É Portugal que revive”. Lá dentro, os professores da SAMP ajudam a dar nova vida a outro Portugal. No EPL-J, “Ópera na Prisão/Pavilhão Mozart” é uma espécie de oásis.

“Aqui estamos num buraco. Com isto temos um objetivo e não podemos fazer asneira, senão tiram-nos”, conta Mathieu Pinto, 28 anos, que está no projeto desde 2014, quando “Ópera na Prisão” arrancou.

Homem do rap francês, Mathieu assume-se rendido ao desafio nascido da ópera: “É um incentivo. Transmite-nos responsabilidade. Se não formos responsáveis, vai tudo abaixo”. Por outro lado, chegar a palco mostra algo: Mostra “aos responsáveis que conseguimos fazer coisas que importam. Fazer isto valoriza-nos”.

É tempo de ensaiar. Em semicírculo, fazem-se exercícios de relaxamento de corpos e de aquecimento das vozes. A sala gelada é encimada por azulejos com frases moralistas do Estado Novo. Numa das paredes há fotografias de outros ensaios, atuações dentro e fora do presídio e de muitos encontros da equipa da SAMP com familiares dos reclusos.

Entre o coro, Jefferson Sá, 19 anos, faz o segundo ensaio de ópera. “É difícil não sabendo a letra nem italiano!”, desabafa.

Participou nas residências de teatro e audiovisual e também se surpreendeu com a ópera, que só conheceu agora. “Ensinou-me a ter paciência e a perceber que, com trabalho, se conseguem resultados. Enriqueceu-me enquanto homem”.

Os resultados são evidentes, frisa o coordenador do projeto, David Ramy, porque é “qualquer coisa que durante dois anos te anos obriga, semanalmente, a sentar frente a uma partitura, a seguir as mãos de alguém que comanda, a ter a responsabilidade de decorar uma letra em italiano”. E “com isso ganhas uma disciplina que não tinhas. Isso refletiu-se no Pavilhão Mozart”.

Mas não só. O dia-a-dia na prisão também se alterou, porque os reclusos “sentem-se pessoas e começaram a retribuir o que recebem”. Na ópera e nas residências, os detidos “são chamados pelo nome e não pelo número” e “sentem que há outra relação com eles”. “O comportamento desta malta que participou na Ópera [na Prisão] é completamente diferente”, realça.

A SAMP pensa já no próximo passo. “Estamos a aguardar a aprovação de um curso profissional de teatro musical para o ano letivo de 2020/2021”, avança David Ramy.

Vai permitir ensinar teatro, dança, música e audiovisual a qualquer pessoa, mas também a reclusos que saem antes de terminar os estudos, encaminhando-os para a SAMP, em Leiria, ou para polos a instalar noutros pontos do país. “Vão poder sair com conhecimento, um certificado e uma ideia de futuro, tentando procurar um mercado de trabalho”.

Quando chegar a sua vez, Jefferson Sá quer tentar uma carreira nas artes. Mas primeiro há o espetáculo de sábado: “Ir lá fora significa muito. É sempre bom mostrarmos às outras pessoas que não estamos parados no tempo”.

Essa “prova de vida” é já dia 23 de novembro, no espetáculo conjunto de “Ópera na Prisão/Pavilhão Mozart” no Teatro José Lúcio, em Leiria, às 16 horas. Aí, serão apresentados os resultados das residências artísticas desenvolvidas pela Escola de Dança Clara Leão, Leirena Teatro e Casota Collective com os reclusos.

Os bilhetes estão à venda aqui e custam 3 euros. Antes, às 15 horas, é inaugurada oficialmente a exposição de fotografia no Marachão de Leiria.

Em janeiro de 2020, o projeto leva a encenação teatral criada na residência artística à Fundação Gulbenkian, que financia a intervenção através do PARTIS.

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