“Alerta Bajouca”, ostenta o cartaz que é transportado num carrinho onde também segue uma criança. É Ruzena Silva, natural da Eslováquia, quem empurra o carrinho que faz parte da manifestação domingueira na Bajouca.

Ruzena Silva casou com um português, mora na freguesia da Bajouca, Leiria, onde esta tarde cerca de três centenas de pessoas saíram à rua para contestar os planos de prospeção e exploração de gás para a localidade.

“Já vivo cá há dez anos, mudei para aqui e não vou mudar mais e não me agrada a perspetiva de se estragar o nosso ambiente”, explica num português quase perfeito. Mora numa zona que permite o contacto com a natureza e não quer que as explorações de gás mudem isso: “moro perto do parque do Pisão, gosto de passear na natureza, tenho as minhas hortas e não gosto da ideia de se estragar o nosso ambiente”.

Estão explicadas as razões de Ruzena, uma entre as cerca de três centenas de manifestantes que hoje ocuparam as ruas da freguesia, contra os planos da Australis Oil & Gas. A empresa pretende fazer da Bajouca um dos primeiros locais de exploração de gás em Portugal, no âmbito das concessões de Pombal e Batalha e que, também, contemplam planos similares para Aljubarrota, Alcobaça.

A manifestação percorreu as ruas da localidade na tarde deste domingo (fotogaleria) Fotos: Joaquim Dâmaso

“Não ao furo, sim ao futuro” foi uma das palavras de ordem mais ouvidas entre os manifestantes que pelas 14h30 saíram do centro da Bajouca e se dirigiram a pé, ostentando cartazes, para Bouça de Cá. É aí que está o terreno para onde se prevê a realização do furo.

E foi num palco improvisado junto ao local que Gonçalo Lopes, presidente da Câmara e Leiria, adiantou que este é o tempo próprio para o Governo interromper as concessões assinadas em 2015, na fase final do executivo de Pedro Passos Coelho, com a Australis.

A explicação é simples: uma vez que a empresa ainda não fez avultados investimentos, a ter de existir uma compensação indemnizatória, ela será diminuta. Lembrando que a exploração de hidrocarbonetos contraria a necessidade de proteger o ambiente para as futuras gerações, Gonçalo Lopes adiantou: “temos de estar ao lado do futuro e para haver futuro não pode haver furo”.

Antes já Pedro Pedrosa, presidente da Junta local, sintetizara de forma simples e curta, o argumento da população: “o furo não pode ser feito, porque não pode”. “Todos sabem porquê”, acrescentou.

Vizinha da população da Bajouca, Céline Gaspar, presidente da União de freguesias de Monte Redondo e Carreira, manifestou a solidariedade com a população da Bajouca, dizendo-lhes que não estão sós nesta reivindicação. A autarca explicou que esteve no Congresso Nacional de Freguesias, que terminou na véspera, em Portimão. Aí, apresentou uma moção a contestar a exploração de gás, documento que contou com o apoio de muitas freguesias do distrito e que foi aprovada, referiu.

“Os presidentes de junta estão do vosso lado”, disse Céline Gaspar à multidão, em cima do palco improvisado.

Momentos antes, na rede que ladeia o terreno para onde está previsto o furo, tal como aconteceu com largas dezenas de pessoas, também Bruno Oliveira deixou uma mensagem de protesto escrita numa fita que atou à rede. “A minha mensagem é semelhante à que tem sido dita: ‘não ao furo, sim ao futuro’”, confidenciou ao REGIÃO DE LEIRIA.

O jovem da Bajouca explica que o furo “está muito próximo da população e vai estragar as nossas águas”.  “Em minha casa uso, água de um furo, vem direta dos lençóis de água e [a exploração de gás] vai contaminar a nossa água”, reforçou o jovem manifestante.

Carlos S. Almeida
Jornalista
carlos.almeida@regiaodeleiria.pt

Joaquim Dâmaso
Fotojornalista
joaquim.damaso@regiaodeleiria.pt