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Literatura

Kellerman desafia-se com poesia e o resultado é apresentado no sábado

“E quando acabarem as perguntas?” nasce do desafio lançado pelo escritor a si próprio. Um exercício em que se preocupou em “perceber se não estava entretido com um monólogo” e que é revelado sábado, dia 14, na livraria Arquivo.

O escritor de Leiria experimentou escrever poesia e entusiasmou-se. "Passei a encarar a experiência com outra seriedade e compromisso", assume Paulo Kellerman

É a estreia de Paulo Kellerman na poesia. “E quando acabarem as perguntas?” comprova a pulsão do escritor de Leiria para escrever “no arame”, equilibrando o risco e o gosto pelo autodesafio (e também, noutros casos, pelo heterodesafio) em incursões literárias exploratórias por novos caminhos.

O novo livro é lançado este sábado, dia 14 de maio, às 18h30, na livraria Arquivo, em Leiria, com leituras de Ana Moderno, Andreia Mateus, Liliana Gonçalves, Rita Rosa e Susana Neves.

O que o levou a escrever poesia?
O desafio. Preciso de desafios constantes, ou começo a ficar meio apático e melancólico. E quando não surgem desafios feitos por outros (como as peças de teatro ou a ópera), eu próprio me desafio. Foi o que aconteceu com este livro: desafiei-me a escrever algo que não tinha experimentado antes, explorando e testando novas abordagens no meu trabalho. Depois entusiasmei-me, e passei a encarar a experiência com outra seriedade e compromisso. Foi quando comecei a pensar em termos de livro, o que implicou uma estruturação cuidada e um trabalho diário.

Que tal foi a experiência? Qual foi o maior desafio?
A experiência foi intensa porque se transformou no meu projecto prioritário, no meu entusiasmo maior. Um desafio grande foi equilibrar esse entusiasmo com alguma objectividade; perceber se aquilo que estava a escrever fazia sentido fora do meu universo interior, se fazia sentido para os outros. Tenho uma ideia mais ou menos romântica de que a escrita apenas se cumpre e completa quando é lida por alguém. Não se trata de busca de validação nem de escrever a pensar nos leitores; é antes uma questão de complementaridade. Como num diálogo: apenas tem sentido falar se alguém ouvir (e reagir). O maior desafio foi perceber se não estava entretido com um monólogo.

Habitualmente lê poesia?
Sim. Pelos mesmos motivos que leio ficção: para me fazer sentir, pensar e questionar.

A poesia é um género com poucos leitores. Mas os que leem têm um sentido crítico apurado. Já teve reações?
Algumas reacções entusiasmadas, algumas mais contidas, algumas silenciosas. Gosto quando me dizem algo como “o teu livro fez-me questionar isto ou aquilo”, “o teu livro fez-me sentir isto ou aquilo”, “o teu livro irritou-me por isto ou aquilo”, “o teu livro tirou-me o sono por isto ou aquilo”. Gosto do “isto ou aquilo”. E gosto de causar desconforto, desassossego. Não me interessa escrever estórias de adormecer, mas estórias de acordar.

Depois de experimentar o conto, o romance, a escrita para teatro e ópera, o que falta agora, depois de um livro de poesia?
Já me lembraram que falta a literatura de viagens. Faltará sempre alguma coisa. Mas gostava, por exemplo, de regressar ao ensaio e desenvolver um projecto de escrita não ficcional com idosos, focado nas memórias individuais e no papel da memória.

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