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Francisco Lacerda

Professor na Universidade de Estocolmo

Aventuras na neve

Estamos a preparar-nos para o inverno e eu faço planos para a neve, recordando quando fui convidado para trabalhar na Universidade de Estocolmo e me pus a caminho da Suécia

Estamos em novembro. Na Suécia, a neve começa a cobrir as montanhas acima do Círculo Polar Ártico e aqui em Vallentuna, ao norte de Estocolmo, já houve umas noites com temperaturas negativas. Hoje está um desses dias em que a luz fantástica da Escandinávia realça as cores de outono, enquanto os chapins reais me invadem a varanda à procura de insetos imobilizados pela baixa temperatura. Estamos a preparar-nos para o inverno e eu faço planos para a neve, recordando quando fui convidado para trabalhar na Universidade de Estocolmo e me pus a caminho da Suécia na esperança de poder dar uso aos skis de slalom que tinha comprado em Leiria, ao meu vizinho e amigo Victor.

Eram uns skis de competição, velozes para quem os soubesse controlar, mas quase impossíveis de manobrar para inexperientes como eu – mais ou menos como “condutor de domingo” a entrar com um Ferrari numa competição de Fórmula 1. Mas, graças à ignorância na matéria, eu não fazia ideia da dificuldade nem da enorme discrepância entre a imagem de perícia que emanava dos skis e a limitadíssima capacidade de controle que eu tinha na altura. Cheguei até a fazer algum sucesso inicial antes de surgirem oportunidades de mostrar os meus dotes de esquiador. Sempre disse que “não era muito bom” – o que significava conseguir a custo manter o equilíbrio em pistas mais ou menos planas – mas, num país em que slalom é desporto vulgar não passava pela cabeça de ninguém que eu tivesse comprado uns skis daqueles por mero entusiasmo e ignorância na matéria.

A minha resposta era tomada como sinal de modéstia, em linha com a imagem que o supercampeão sueco de ski alpino, Ingemar Stenmark, transmitia com o seu encolher de ombros e dizendo “é só andar” (“det är bara åk”) quando lhe perguntavam qual era o segredo do seu enorme sucesso. Foi assim que a minha noiva, vendo os skis que eu guardava no hall de entrada e a forma “humilde” como eu descrevia a minha perícia, respondeu entusiasticamente à proposta de irmos até Åre, a mais famosa estância de ski na Suécia. Era uma viagem com que eu tinha sonhado, mas sem nunca ousar realizá-la. E cheios de entusiasmo lá nos pusemos a caminho de Åre. Porém, embora excitado com o projeto, comecei a sentir uma certa ansiedade ao notar a discordância entre a minha perícia de esquiador e a imagem que a minha companheira fazia de mim, mas ela “tranquilizou-me” revelando que era instrutora de ski. E lá chegou finalmente o momento da verdade, depois de uma viagem de teleférico até ao topo das pistas.

Foi aí que a imagem de esquiador que ela fazia de mim começou a desbotar perante a meia-hora que levei para ajustar as botas e fixá-las naqueles skis de 1,80 m. Mas ela não desanimou e encorajou-me a segui-la, enquanto deslizava elegantemente para o início da pista fazendo uma curva suave para a direita. Cheio de brio, tentei imitá-la, mas curvas não eram a minha especialidade e segui em frente, para um buraco na neve junto à base da torre do teleférico e de onde o terror da descida à minha direita não me deixava sair. Com muito esforço e perseverança lá consegui finalmente sair dali e começar a aprender slalom graças à competência e paciência da minha companheira. Acabei por comprar uns skis adequados, manobráveis, e depois de uma estadia nos Alpes em que a minha mulher me induziu a esquiar em pistas pretas –precipícios impossíveis de descer sem skis e bom controle – fazemos agora aventuras juntos em qualquer pista. Passados o meu medo e os acidentes iniciais, esquiar continua a ser uma das brincadeiras mais inspiradoras a que nos dedicamos como adultos.

E cá estou à espera de que este inverno traga muita neve e boas condições para ski – como nos bons velhos tempos!