Adérito Araújo, professor universitário aderito.araujo@gmail.com

Os nossos autarcas, pouco cultos e ansiosos de protagonismo, são muito permeáveis a modas. Agora não há quem não queira ter a sua “maravilha” nos infindáveis concursos promovidos por um espertalhaço que aí viu um filão. Já outros aspiram a algo mais arrojado: pertencer ao restrito clube dos que têm um bem classificado como Património Cultural e Imaterial da Humanidade (PCIH).

Vem isto a propósito de Pombal ter atribuído o título de Património Cultural do Município às Touradas de Abiul, numa iniciativa mais vasta que pretende candidatar a festa brava a PCIH. E qual o raciocínio dos nossos autarcas? “Se a coisa for classificada, teremos hordas de turistas. É só massa a entrar!” Esquecem-se é que a classificação acarreta, em si, um compromisso forte, que transcende a esfera política. Deveria, por isso, ter sido amplamente discutida.

Gosto de touros. Cresci com Hemingway e, em miúdo, adorei ver o Chibanga em Abiul. Não acho é piada nenhuma aos tipos embonecados, encavalitados num cavalo, a espetar farpas no lombo de quem não pediu para estar ali. E são precisamente esses e outros embonecados que sustentam esta candidatura. Como pombalense, identifico-me mais com a cestaria da Ilha, com o Bodo das Castanhas de Vermoil, com a biodiversidade da Serra de Sicó. Mas se a ideia é promover o sacrifício animal, porque não a matança do porco? Essa sim, verdadeiramente popular a nacional.

(texto publicado na edição em papel de 18 de maio de 2012)