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Pedro Amado

Jurista

O café do poder é sem açúcar, se faz favor

É indispensável sentir um genuíno compromisso político com o bem público, sem espaço para cair em armadilhas do próprio ego.

O poder é um tema interessante. É tão interessante que Abraham Lincoln dizia que se quisermos conhecer o carácter de uma pessoa temos de lhe dar poder, como se de uma substância psicoativa se tratasse e a partir daí a pessoa tivesse de enfrentar, sob esse efeito, um derradeiro exame de carácter.

No entanto, uma vez que estamos num período em que muitas pessoas se candidatam e preparam para o realizar, algumas delas pela quarta vez, parece-me ainda mais interessante evocar um segundo tempo desse exame, onde a avaliação é feita com muito mais profundidade e subtileza, reportando-se ao momento em que se perde ou se é forçado a sair do poder.

Acho que não estarei desalinhado com Lincoln por considerar este segundo tempo mais importante, daí que se recomende ao candidato estar muito bem preparado.

Para começar, é preciso flexibilidade para conseguir descer uns degraus e voltar à condição de cidadão comum sem muitas cerimónias. Idealmente, o candidato até deve ser discreto nesse movimento, sentir-se bem por ter chegado a hora de regressar para perto dos seus pares e saber conviver, no mínimo, com a alternância de poder.

Depois, é necessário ter autoconfiança suficiente para se despir do benefício ou do crédito social que a posição de poder lhe conferia. Nos momentos de maior fragilidade ou ansiedade, deve conseguir controlar o ímpeto de voltar a vestir o fato e a gravata. Em emergência, pode olhar durante algum tempo para fotografias de outros meninos e meninas aptos a ocupar o seu lugar, deixar-se envolver pela mística da igualdade de oportunidades, ler alguns artigos da Constituição da República ou, em último caso, usar uma cábula de nudez. Nós fingimos que não vimos, apenas porque é uma metáfora importante a ter em mente.

Por fim, e para ser aprovado com distinção, é indispensável sentir um genuíno compromisso político com o bem público, sem espaço para cair em armadilhas do próprio ego e deixando apenas, aos sábados de manhã, uma janela entreaberta por onde possam circular os laivos de narcisismo.

Só com essa estrutura mental e de personalidade será possível aguentar o regresso a um café e suportar menor entusiasmo à nossa volta, eventualmente menos reverência, cumprimentos mais frios e desinteressados, menos cuidado connosco, um ascendente apenas simbólico sobre quem nos pedia favores, pessoas sentadas que já não se levantam como se fossem impulsionadas por uma mola e todos esses horrores que ensombram os finais de mandato.

Apesar de tudo isto, a boa notícia é que tudo depende da vocação e do objectivo com que se candidatam. Se o sucesso do exame for interpretado como uma oportunidade para executar uma nobre missão de cidadania e for iluminado pelas luzes do ideal republicano e do espírito democrático, o exame é mais fácil e se calhar nem precisam de estudar muito.

Boa sorte a todos para dia 26 de setembro.