Quando o “Região de Leiria” surgiu, em outubro de 1935, Salazar havia plebiscitado dois anos antes, a Constituição que serviria de lastro à ditadura.

O concelho de Leiria teria cerca de 57.000 habitantes, dos quais perto de 75% seriam analfabetos. A agricultura era o sector dominante, o comércio na cidade era ativo, enquanto a indústria se restringia aos cimentos da Maceira, à moagem, a algumas cerâmicas e pouco mais.

Ilustração: Jorge Morgado

No que tocava à imprensa local, a multiplicidade de títulos engajados com as diversas cores políticas, como acontecia na 1ª República, não resistia à censura, mantendo-se alguma imprensa republicana, somente, até meados da década de 30.

Em 1935, publicavam-se seis semanários antes de aparecer o “Região de Leiria”.

O “O Mensageiro” vinha de 1914, assumia-se como o “órgão dos católicos” e tinha no seu diretor, o Padre Lacerda, um dos obreiros do núcleo concelhio da União Nacional. Isto acabaria por esvaziar o “Distrito de Leiria”, título reaparecido em 1935 como “semanário da União Nacional do distrito” e que desapareceria em 1936. O “O Mensageiro” manter-se-ia durante todo o Estado Novo e no regime democrático até 2013.

Já o “União Nacional”, semanário nacional-sindicalista aparecido em 1928, não tinha qualquer ligação ao “partido único” que, após 1933, também apresentava a mesma designação. Fundado por dois militares, Marino Ferreira e José Virgolino, assumia o “combate contra os anti-fascistas”. Tão zelosos eram da ditadura que atacaram a Constituição de 1933 e criticaram fortemente a outra União Nacional que lhes usurpara a designação, o que redundou na despromoção de capitães para tenentes, na mudança de título a partir de 1938, para “Portugal; anti-comunista”, no afastamento definitivo dos dois oficiais e no encerramento total em 1940.

O “Linha Geral” surgiu em 1931 como “orgão republicano” em crítica moderada, tendo percebido só depois de 1933 que a ditadura nem era transitória nem uma mera correção dos desvios republicanos. Não iria além de 1936.

O “Voz do Domingo”, nascido em 1933, era um “semanário católico de propaganda religiosa e noticiosa” e com o Padre Galamba de Oliveira foi mesmo um contraponto, no panorama católico, face ao buliçoso e politicamente comprometido Ferreira Lacerda. Doutrinário do ponto de vista apostólico, era nesse tom que fazia passar a mensagem política. Veio a ser o órgão oficial da diocese, tendo passado todo o Estado Novo e encerrado já no regime democrático, também em 2013.

Quanto ao republicano “Gente Livre”, ao aparecer em 1934, o título não resistiu à realidade. No afã da crítica ao novo regime, tinha opinião acutilante à boa maneira da velha República. Fechou menos de um ano depois de ter aberto.

Perante este estrangulamento da imprensa não alinhada faltava algo que não fosse, tão só, um órgão da Igreja ou do regime.

José Baptista dos Santos, republicano, tinha passado pela Junta de Freguesia e ligado aos meios tipográficos tinha conhecido de perto o “Anunciador”, um jornal gratuito dirigido por um outro tipógrafo e pago pelos anúncios, entre 1915 e 1924. Fora um sucesso quebrado por questões pessoais. Baptista dos Santos traria, então, um novo “semanário de propaganda comercial, industrial e turística, noticioso, literário e recreativo de distribuição gratuita“. Neste ecletismo o compromisso editorial dava a primazia à vida económica e logo enchia de anúncios a 1ª página do nº 1 do “Região de Leiria”, em 10 de outubro de 1935.

A Região era o mote também para as notícias e com o tempo ali viria a caber a escrita de velhos republicanos, ou da nova geração ligada à Oposição, ou ainda de gente afeta ao regime. Não era panfletário. Horácio Eliseu, Vasco da Gama Fernandes, Fernando Canais, Henrique Vareda, Travaços dos Santos, Matias Crespo, Helena Carvalhão, Jerónimo Pascoal, ou Lucínia Azambuja, entre muitos outros, escreveram ali antes de 1974. Até então, foi o único semanário laico a par dos dois católicos que atravessaram todo o Estado Novo, entrando o “Região…”, vigorosamente, no regime democrático até ao presente e ao futuro. Esta será outra história.

(Artigo publicado na edição de 1 de outubro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)