Normalmente, por esta altura estaríamos em plena rentrée, cheia de animação, sound bytes, de excessos na oratória e até de alguma esquizofrenia política. Neste ano, com esta pandemia que lhe roubou tudo o que pudesse ser normalidade, não há rentrée, mas maior esquizofrenia nunca se viu.

Há dez meses, logo a seguir às eleições, António Costa e o PS trataram de descartar a geringonça. E como o orçamento, atrasado por força da data eleitoral, só chegaria já em plena crise pandémica, razões de Estado, e de política, garantiam à partida a sua aprovação. O PSD, nessa circunstância, como noutras até aqui, por obrigação ou por convicção, não importa para o caso se por uma ou por outra, renunciou ao papel de principal opositor ao governo, e pautou-se por uma oposição colaborante. Que deixava António Costa confortável na sua opção de rotura com a geringonça, e Rui Rio desconfortável na liderança do seu partido.

É este quadro de conforto para o governo e de desconforto para o seu principal opositor que, de repente, António Costa dinamitou com
estrondo.

Poderíamos encontrar boas razões para esta atitude. Razões estratégicas, porque um conforto circunstancial poderá tornar-se desconfortável. Ou de opção política central: aquele conforto é, mais que desconfortável, perigoso para o regime.

A nobreza política dessa opção, no entanto, choca frontalmente com o tom de ultimato com que foi colocado aos supostos parceiros. E chega a parecer esquizofrénico que liberte um adversário para capturar um aliado.

(Artigo publicado na edição de 3 de setembro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)