Os portugueses não são todos iguais, mas uma coisa em que somos férteis é em colocar os interesses individuais acima dos coletivos e em ter pouco sentido de comunidade.

Podia contar muitos episódios que o comprovam, mas vou apenas citar um que sempre me impressionou. Em tempos plantaram-se árvores num bairro de Leiria onde não havia nenhuma. Uma vez plantadas era necessário regá-las. Sugeriu-se que cada prédio regasse a árvore fronteira. Nem pensar, isso era obrigação da Câmara, clamaram os moradores, mas em muitos países são estes que cuidam destas coisas.

Agora coloca-se em causa a obrigação de distanciamento social e fazem-se festas e ajuntamentos sem respeito pelos próprios e, sobretudo, pelos outros e pelas consequências de saúde, sociais e económicas dos atos individuais. E é aqui que bate o ponto.

Muitos portugueses não percebem que as suas ações, supostamente um direito que lhes assiste, provocam consequências que estão muito para além do próprio; por exemplo, se alguém resolve beber para além dos limites e tem um acidente, não está apenas a atentar contra si, está a pôr em causa o direito à segurança dos outros e a contribuir para aumentar a despesa pública por via das eventuais consequências de saúde para si ou terceiros e impactos no SNS.

É o que se passa com o desrespeito pelo distanciamento social e outras medidas preventivas contra a Covid-19, mas é também o que acontece com o consumo do tabaco, a alimentação irracional, a não realização de exercício físico, enfim, tudo o que prejudica a saúde individual e agrava os custos do SNS e a produtividade das empresas e serviços públicos. As seguradoras já perceberam, e a comunidade? Vamos todos continuar a pagar os custos da irracionalidade alheia? A responsabilidade social tem de estar acima da liberdade individual.

(Artigo publicado na edição de 25 de junho de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)