Às vezes apetece meter a mão no vespeiro, sem temor de convocar esconjuros nem medo de desafiar as forças que nos impelem no sentido inverso da História e que a pandemia tornou mais agressivas.

O 1.º de Maio teve a sua comemoração autorizada e o confinamento foi suspenso para quem se deslocou à Alameda residindo fora do concelho de Lisboa, mas para visitar um familiar doente, ir fazer compras a um supermercado fora do centro da cidade ou ir ver o rio ou o mar, mesmo que num raio de um quilómetro não houvesse vivalma, era-se recambiado para casa pela polícia.

Mas tratando-se da CGTP foi diferente, por maioria de razão estando-se perante um negócio social do tipo “faz lá a tua manifestação e não chateies muito com greves porque temos coisas mais importantes para resolver”. E foi patético ver alguns a defenderem o indefensável, como se apenas eles estivessem ungidos da sapiência necessária para entender o que o comum dos mortais via ao contrário.

Se houve 1.º de Maio também tem de haver Festa do Avante, naturalmente, e alguém terá afirmado que não lhe passaria pela cabeça restringir atividades políticas; ora como os festivais de música foram cancelados e a ida às praias ameaça ser um folhetim, é expectável que na quinta da Atalaia a festa se fique por dois discursos, o da abertura e o do encerramento, pois tudo o resto é “festa pá”.

Entretanto o país pode dormir tranquilo pois todos fomos informados que 3500 militares da GNR estiveram envolvidos na operação “Fátima em casa”, vigiando para que nem um só peregrino se fizesse à estrada, nem um só se aventurasse santuário adentro e que neste 13 de Maio se operasse o milagre do silêncio, capaz de ecoar por todo o país, confrontando-nos com a nova dimensão Mariana do tempo Covid. Para ruído já temos que baste. Será que ainda alguém duvida dos milagres de Fátima?

(Artigo publicado na edição de 14 de maio de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)