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Rosto de José Vitorino Guerra

José Vitorino Guerra

Tempo incerto: Da abóbora

Apesar de integrar a culinária, ser utilizada para fins decorativos e possuir, ainda, propriedades terapêuticas chamar “cabeça de abóbora” a alguém não é propriamente um elogio.

A aboboreira foi uma das primeiras plantas de além-mar a ser integrada na alimentação animal e humana no território nacional e que ajudámos a disseminar mundo fora. A planta possui diversas variedades hortenses, como a conhecida abóbora-porqueira, a menina e a abóbora-chila. A abóbora rapidamente passou a integrar a culinária tradicional e a ser parte integrante de romarias e festas profanas.

Em tempos, a porqueira era muito utilizada nos meios rurais na elaboração da lavadura que se dava ao porco, um animal generoso e de quem tudo se aproveita, quando este representava uma reserva alimentar que, tarde ou cedo, acabava a adornar o fumeiro, transformada em enchidos, quando não em febras e lentriscas nas festanças.

Não há festa popular sem febras, chouriça assada ou pevides, muito boas para desfazer o tédio e dar trabalho às mãos. Recordemos o sucesso da febra e adjacências nas recriações históricas medievais. Na Lourinhã e na Atalaia a abóbora tem direito a festival gastronómico em sua honra.

A planta ou o fruto deram o nome a lugares, empresas, a pelo menos uma freguesia e até temos uma Serra da Aboboreira, rica em património arqueológico.

A abóbora-porqueira é excelente para fazer compota, a chila conquistou um lugar ímpar na doçaria e um cremezinho de abóbora-menina não aconchega menos o estômago do que um caldo verde ungido de bom azeite e com umas rodelas de chouriço a abençoar os outros sabores. Um Natal sem sonhos nem filhós de abóbora não tem o mesmo significado nem colorido.

A abóbora pode ser utilizada para fins decorativos e possui, ainda, várias propriedades terapêuticas. Tem sido utilizada na farmacologia como anti-inflamatório, vermífugo, diurético e emoliente. Apesar das qualidades terapêuticas chamar “cabeça de abóbora” a alguém não é propriamente um elogio.

Fora de época, mas em tempo oportuno, a Câmara Municipal de Leiria colocou umas sementes de aboboreira tanto nos vasos florais da sua “Avenida Cultura Urbana”, que os leirienses conhecem como “Heróis de Angola,” como nos do Terreiro. Vasos de onde brota uma ramagem larga e verdejante que confere um ambiente bucólico e de amarelo florido. Bucolismo que suaviza o período que atravessamos, onde é sempre possível descobrir candidatos a político a aboborarem com dedicação e entusiasmo.