O covid-19 é um vírus profundamente anti-social que atinge o âmago da nossa vida relacional e inibe tanto o contacto com o outro como a dinâmica e a mobilidade em que assentam as nossas sociedades. Obriga-nos a transformar numa espécie moderna de Robinson Crusoé, a personagem criada por Daniel Defoe, no século XVIII, um náufrago solitário que sobreviveu anos a fio numa ilha deserta. O confinamento social torna-se necessário para atalhar a propagação do vírus que vai andar por aí a deixar um rasto de dor, até haver uma vacina ou a imunização da comunidade.

Precisamos de continuar a resistir. Somos devedores dos que nos procuram salvar e de todos quantos nos asseguram a cadeia produtiva e logística, demasiadas vezes sem as adequadas condições de segurança. Teremos, ainda, de enfrentar uma pesada recessão, onde muita coisa irá mudar e exigir uma forte capacidade de adaptação a novas realidades. Os desafios vão ser tremendos e muito do que se considerava adquirido esvaiu-se na poeira dos dias. Temos de deixar de ser perdulários, fruto de um consumismo desregrado ou das más práticas políticas. O modelo económico dos últimos anos, assente, em grande parte, no turismo, desvendou a sua fragilidade conjuntural.

Nas últimas décadas, tornámo-nos cada vez mais endividados e dependentes de terceiros, em particular de Espanha. Políticas erradas e ilusões fugazes conduziram à desindustrialização, à alienação de sectores produtivos e financeiros, à dependência do abastecimento por transporte rodoviário, após termos virado as costas à ferrovia e ao mar, onde colhemos muita da nossa razão de ser. Está na altura de pensarmos na inversão da tendência e de construirmos uma estratégia nacional para o desenvolvimento.

Os exemplos das nossas potencialidades e recursos têm surgido dos centros tecnológicos e universitários e da reconversão das empresas que procuram corresponder às novas necessidades, além das múltiplas iniciativas de particulares e de entidades de solidariedade social, sem que pareça ter havido da parte do governo uma adequada coordenação política.

Mais uma vez, a sociedade mostrou capacidade de iniciativa para enfrentar os desafios, assim tenhamos a liderança, o saber e a visão para mobilizar o melhor de todos nós.

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(Artigo publicado na edição de 16 de abril de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)