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Cultura

É sexta-feira foge comigo: um ano em balanço

O projecto “É sexta-feira foge comigo” completa um ano de existência. Pedro Miguel, o autor dos textos que o REGIÃO DE LEIRIA publica e que ganham vida multimédia online, faz o balanço do projecto, que vai ter novidades.

O projecto “É sexta-feira foge comigo” completa um ano de existência. Pedro Miguel, o autor dos textos que o REGIÃO DE LEIRIA publica e que ganham vida multimédia online, faz o balanço do projecto, que vai ter novidades.

Para comemorar um ano de existência, o “É sexta-feira foge comigo” desta semana nasce de uma compilação de títulos, expressões, excertos de todos os textos publicados anteriormente. Chama-se “A sexta”.

A sexta

Andava nisto há um ano. No início era só esperança com passarinhos a cantar e palminhas dentro da cabeça a acompanhar, por causa da recordação daquele pôr-do-sol na praia com a rapariga mais bonita do parque de campismo, não fossem os primos de França aparecerem, já na ida para a tenda para estragar o momento.

Vida complicada aquela, onde se refugiou nas recordações em que bastava trocar cassetes no pátio da escola a apontar para as estrelas enquanto fazia juras de um amor platónico eterno, o suficiente para andar feliz durante um mês. Irritou-se quando percebeu que certas raparigas, outrora tão simpáticas, deixavam de lhe falar de um momento para o outro só por causa do namorado novo.

Bebia café para acalmar, contradição gritante, ao lembrar-se das palavras de um coreógrafo que dizia como se a humanidade dependesse disso: “O café é muito importante!” e numa ida a Paris, em plena melancolia da estação de comboios forçou-se a tentar lembrar de uma canção chamada “Disco Blues” que tinha escrito para uma rapariga.

Ao regressar, pela A9, lembrou-se que Portugal não ficava a caminho de nada, e em Barcelona, naquelas noites em que o truque era beber vodka embebida em melancia para disfarçar o botellon, tinha saudades do cheiro a creme hidratante depois de um dia de praia, dos duches a dois, dos olhos claros por causa da luz do sol. E o riso dela, meu Deus! Aquele riso…

Budapeste também era agradável, vista a correr de uma margem do Danúbio para a outra, enquanto nas ruas algumas jovens inglesas falavam descontraidamente da sua vida sexual, com a falsa certeza de que ninguém as percebia.

A frase “Não te vais safar” recordou-lhe a arrogância feminina sem encanto no momento da despedida, ao contrario do casal de idosos que vira na praia, que já mal falavam entre si porque simplesmente não era preciso. Segundo os astros, amavam – se perdidamente há mais de meio século.

Os amigos deixaram-no pendurado, numa ida a Paris, e teve de reagir, uma nova adaptação ainda a medo e cheio de hesitações, um reaprender como quando se passa a cumprimentar a recente ex-namorada com dois beijos na cara.

Do quotidiano é que ninguém se safava, com a economia de pantanas, o trabalho que não vinha, as notícias por carta a dizer “infelizmente não foi selecionado”, a contrastar com as vidas burguesas do bairro de Marais em Paris.

Vidas como a do Ramiro, um dos melhores provadores de cidra das margens do Reno, segundo o próprio, e rituais de passagem , a discutir nomes de bandas, de discos e de canções em frente ao centro comercial nos anos 80. Sonhos mirabolantes como o do “Xeique em Branco”, e hábitos vulgares como o de guardar os talões das garantias em cima do frigorifico.

Cantava de manhã à noite, naquela ilha continental, tudo permanecia normal, como tinha de ser. Andava nisto há um ano. “É sexta-feira, foge comigo”, repetia ele, e ela nada. Mas será que já ninguém lê jornais?

texto: Pedro Miguel