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Sociedade

Fernando Gonçalves: “Sofri pressões inimagináveis”

Na semana em que foi substituído no cargo de director da Segurança Social, Fernando Gonçalves abre o livro e lança duras críticas a Raul Castro, Gonçalo Lopes, João Paulo Pedrosa e Paiva de Carvalho.

Na semana em que foi substituído no cargo de Director da Segurança Social, Fernando Gonçalves abre o livro e diz que foi vítima da sua seriedade.

Já estava à espera de ser substituído na Segurança  social?
Sim. Já estava. Eu o Manuel João Alves somos autores de um parecer jurídico que demos a todos os directores (e adjuntos) em Julho passado, sobre a nossa situação jurídica, decorrente da demissão dos cargos. Por isso já estávamos a dar como adquirida a nossa substituição.

Fernando Gonçalves (fotografia: Joaquim Dâmaso)

Sendo que este é um cargo de confiança política, mesmo não sendo já militante do PS, foi por isso que foi substituído?
Claro.  E acho até legítimo que um Governo o faça. Mas acho inaceitável que se ande a dizer publicamente – como o fez o Primeiro Ministro, Pedro Passos Coelho, dizendo que íamos inaugurar uma nova era – que acabaram as nomeações políticas para sempre. Agora tire as suas conclusões.

Quando foi nomeado já era militante do PS?
Não. Essa arma de arremesso foi usada por alguns dos meus adversários políticos – que lamentavelmente se fizeram também adversários pessoais, cometendo o pecado capital em política, que é atacar os familiares dos adversários. A minha revolta – que é bem conhecida – tem a ver com o que fizeram não só a mim, mas aos meus familiares.

Mas foi confiança política…
Eu fui para o PS a convite de uma pessoa do PS que eu estimo muito, que é José Miguel Medeiros. Eu inscrevi-me (eu o meu adjunto de então, Arlindo Francisco) quando não precisávamos de o fazer. Entrei para director da segurança social em Maio de 2005 e inscrevi-me em dezembro seguinte. Já estava a exercer funções.

Então sentiu alguma necessidade de corresponder ao partido que o tinha nomeado…
Não. Senti necessidade de corresponder ao apelo de um amigo, em nome de um projecto no qual eu acreditava. Porque José Miguel Medeiros tem uma característica. É amigo do seu amigo.Tem uma forma de fazer política decente. E ele foi uma das pessoas responsável pela actual directora da Segurança Social não ter sido afastada do Centro de Emprego. Porque entendia que não tinha que haver caciquismo. E que não deveria ser penalizada por ser do PSD. Mas há mais exemplos! Temos um comandante distrital de Bombeiros muito competente. Foram muitas  as pressões para que fosse demitido pela sua ligação ao PSD. E foi Medeiros que o manteve. Por isso lhe digo: é um homem que tem sentido de estado, tinha um projecto e foi em nome desse que eu aderi ao PS. Só que entretanto, em Leiria, o PS teve uma reviravolta do melhor para o pior…

Está a falar da sucessão de Medeiros? De João Paulo Pedrosa
A transmissão de poderes foi feita num almoço, no mesmo restaurante onde eu estava a almoçar, por acidente. Fiquei completamente esmagado. Até porque, conhecendo Pedrosa, já sabia o que aí viria.

Conhecia de onde? Da Segurança Social?
Não. Da política, da Câmara da Marinha Grande. Mesmo como vereador já era o que era. Como presidente da Federação, já imaginava que seria aquilo que foi. Eu entrei em Maio para a segurança Social e ele perdeu a Câmara em Outubro desse mesmo ano. E passou estes últimos seis anos a conspirar contra mim apenas com o intuito de ocupar o lugar de director da Segurança Social, levando para lá –como é conhecido de todos dentro do PS – a sua ajudante de campo, Alzira Cabaços. O plano era ocupar o meu lugar, o dr. Arlindo Francisco reformar-se-ia imediatamente e permitir-lhe-ia nomear a sua mulher de mão, Alzira Cabaços. E posso dizer-lhe que recusei dois convites a nível nacional, importantíssimos para a minha carreira, apenas para não deixar a Segurança Social de Leiria àmercê dessas duas pessoas. Mais: em 2005, Pedrosa fez uma campanha junto de Adelino Mendes e Virgílio David, dizendo que eu era bom demais para estar à frente da Segurança Social e que deveria ir administrar o Hospital de Santo André. Isso foi-me revelado no Congresso do PS em Santarém. Como a estratégia não resultou, utilizou outros processos, que me escuso a comentar, mas que meteram Governadores Civis e secretários de estado.

Quando se demitiu do PS, no verão passado, disse que a sua militância tinha sido um pesadelo
E foi. Embora eles tenham tentado explorar a manutenção do lugar, deixei bem claro por que me tinha demitido. A única ligação que eu tinha ao PS era a minha militância. A única forma de protestar contra o partido socialista de Leiria era entregar o cartão.

Quer dizer que continua a fazer a distinção entre o PS de Leiria e o PS nacional?
Sem dúvida.

Continua a sentir-se socialista?
Ainda eu era militante do PS (que então estava no poder) e disse, num jantar público, que me identificava com o centro: com a ala mais à direita do PS e a ala mais à esquerda  do PSD. Antes disso é importante esclarecer as razões da minha demissão. Eu recebi mais de 300 mails relativos à minha saída do PS. Imensos de solidariedade e decepção. E também alguns pouco simpáticos…como é a natureza da política. Alguns dos deputados do parlamento (fora do círculo de leiria) me disseram que preferiam ver-me a combater pelos ideais do PS dentro do PS. O que eu respondi sempre foi que de nada me valia escrever uma carta de protesto a António José Seguro, quando uma das suas espingardas em Leiria era João Paulo Pedrosa. O destino seria seguramente o triturador. Mais: a lógica política de João Paulo Pedrosa é a lógica da subserviência ao poder. Andou durante seis anos a agachar-se para tirar fotografias com Sócrates e colocar no Facebook. Porque ele era o salvador da pátria! Mas uma semana depois era o mesmo Pedrosa que dizia que era preciso pôr fim à era Sócrates. O deus transformou-se imediatamente no diabo. Poucas pessoas em leiria se bateram tanto por Sócrates. Mas era quando tinha poder. Quando cheirou a poder com António José seguro, foi a correr apoiá-lo. E estou absolutamente convicto de que o próximo combate eleitoral do PS, que a meu ver será entre Seguro e António costa, Pedrosa abandonará Seguro e apoiará Costa.

A verdade é que a sua demissão do PS chegou a ser entendida como uma tentativa de se manter no lugar, depois das eleições…
Isso foi veiculado por João Paulo Pedrosa e Gonçalo Lopes, quando não arranjaram forma de justificar as acusações de que estavam a ser alvo. Na questão do prefácio do livro (ver peça separada) ficou claro que havia, de facto, censura. Eu tenho prova documental. E quem é que o partido socialista protegeu durante este tempo todo? Pessoas como Paiva de Carvalho e Carlos Lopes. É esta a identidade do PSem Leiria? Se é, eu não tenho nada a ver com este partido.

Quer dizer que nunca fez essa tentativa de aproximação?
De todo. Aminha relação, nomeadamente com presidentes de câmara, nunca teve a ver com cores políticas. Tive o imenso gosto de trabalhar com grandes presidentes deste distrito, do PS, PSD e do PCP.

Entre esses está também o presidente da Câmara de Leiria?
Não. Leiria tem, a meu ver, a pior Câmara de sempre. A relação com o presidente da Câmara foi tão inacreditável, que Raul Castro não me cumprimentava em cerimónias oficiais e de Estado. Pelos vistos não sabe um dos seus deveres mais elementares. Para o leitor, será importante ter esta analogia: Sócrates e Cavaco odiavam-se. No entanto, as cerimónias públicas de um e outro eram absolutamente rigorosas em cumprimento das suas obrigações institucionais. Castro, eleito pelo PS, achou que tendo ganho poder, podia tratar de forma trauliteira e vergonhosa o director da Segurança Social. Esquecendo-se que não era o Fernando Gonçalves que estava ali. Era a instituição.

Se com Pedrosa e Gonçalo Lopes ficou claro na sua demissão de onde vêm as desavenças, o mesmo não se compreende face a Raul Castro. De onde vem essa animosidade?
Tem apenas uma razão. Ele deu a entender, num artigo, no Diário de Leiria, que das duas uma: ou o PS o apoiava ou então ele concorreria contra o PS. E na altura o que eu disse foi: vale mais perder com dignidade do que ganhar sem honra. E que se eu mandasse no PS, Raul Castro nunca seria o candidato . E Castro não gostou de saber isso. Uma das coisas que me fazem rir à gargalhada é quando se fala na Câmara socialista de Leiria! Aquilo é uma Câmara socialista? É uma manta de retalhos. Castro nunca foi do PS. O partido de Castro foi sempre ele próprio. Tal como o partido de Gonçalo Lopes também não é o PS, é ele próprio. Mas Castro não é eleitor em Leiria. Nem sequer mora em Leiria. Ele vota na Batalha. A única coisa que vem fazer a Leiria é decidir os destinos de Leiria.

Mas acha que é isso que faz dele um bom ou mau presidente da Câmara?
Claro que é.

É que há outros casos no distrito. Em Pombal há um presidente que também não mora no concelho e que sucessivamente
viu reforçadas as votações…

Enquanto Narciso Mota não precisa de nenhum vereador da oposição, porque a relação é de 7-2, Castro aceita tudo para se manter no poder. Esta Câmara é uma manta de retalhos constituída por pessoas que estão no executivo apenas porque isso lhes interessa pessoalmente. Não há nenhuma estratégia, nenhuma identidade política, nenhum rumo. É a pior camara de sempre. A prova provada da incompetência é a relação com a União de Leiria e a questão do estádio, que em 2010 a camara poderia ter resolvido de forma brilhante, com facilidade, e continua com aquele cancro nas mãos, revelando uma total incapacidade para gerir os destinos da cidade.

Como é que antevê as próximas eleições autárquicas em Leiria?
Aquilo que poderia ser o golpe de secretaria não funcionou. Porque Castro anunciou publicamente Lurdes Machado como vice-presidente, nomeando outra pessoa para o cargo. E Castro, que nunca escondeu que já sentiu a tentação de abandonar o barco, sabe que o golpe de secretaria nunca beneficiaria o seu vice-presidente. Porque a lei determina que em caso de renúncia ou morte, sucede o nº dois da lista e não o vice-presidente.

E da sua parte, agora que deixou as funções públicas, pode esperar-se o quê na política?
Depois de desempenharmos tantos anos os mais altos cargos no sistema da segurança social, muito dificilmente se sai do âmbito da política. Seguramente não farei nenhuma incursão partidária, mas enquanto cidadão e habitante de Leiria há 20 anos, é claro que terei intervenções cívicas, seja a que título for. Se há coisa que não vou fazer é aderir a qualquer outro partido.

Mas pode assumir alguma candidatura independente.
Nunca foi minha intenção e continua a não estar nos meus horizontes. Porque eu tenho uma grande virtude, que alguns na política identificam como grande problema. É ser sério. E acho que o ordenado que se paga a um presidente de câmara é absolutamente miserável se ele for desempenhado de forma séria. Louvo aqueles autarcas que estão nas Câmaras e saem incólumes da política.

Há quem diga que na verdade o que o Fernando Gonçalves queria era ser presidente da Câmara de Leiria…
Não tem o mínimo de fundo de verdade.

Percebi que na sua opinião Raul Castro não volta a candidatar-se.
Não sei. Pode candidatar-se, com o intuito de não completar o mandato e passar o testemunho ao seu nº 2.

Que será Gonçalo Lopes?
Ou outro qualquer. Até porque dificilmente Gonçalo Lopes deixará de cair na tentação de se manter num emprego chamado política. E se poder dominar Raul Castro, descartar-se dele, como João Paulo Pedrosa fez a Álvaro órfão, não deixará de o fazer. Eu próprio fui desafiar José Miguel Medeiros, nas eleições anteriores (era ele secretário de estado) para ser o candidato à Câmara de Leiria.Estivemos uma manhã inteira no hotel Mar e Sol em S. Pedro. Estive quatro horas a tentar convencer José Miguel Medeiros a concorrer a presidente. Sem sucesso. Na altura terminei a dizer-lhe: “eu acho que Castro vai perder contra Isabel Damasceno, mas tu ganharias”. O comentário que faço hoje é este: até Castro ganhou. Damasceno não tinha qualquer hipótese. Ninguém ganha eleições contra a máquina partidária.

Está convicto de que foi vítima da sua seriedade, é isso?
Tenho a certeza. O lugar da Segurança Social é muito complicado. Por isso fiquei tão satisfeito com a nomeação da drª Maria do Céu. Se o director ceder a pressões prescrevem milhões de euros em dívidas, há juntas médicas para reformar pessoas…

Sofreu essas pressões ao longo deste tempo?
Claro. Sofri pressões em coisas que são inimagináveis. Por exemplo, na adopção. Casais que querem adoptar passando à frente de outros.

Qual a sua maior conquista, ao longo desse tempo?
Foi a acção social. Que estava muito esquecida. Talvez por as minhas duas antecessoras serem assistentes sociais. Por vezes diz-se que em casa de ferreiro espeto de pau…E aqui convém dizer que na Segurança Social de Leiria há pessoas que se matam a trabalhar. Agora o bode expiatório é o funcionário público, e há ali grandes profissionais.  Por isso a minha grande conquista foi feita no terreno, no dia a dia, para dar à instituição a notoriedade e credibilidade que ela merece.

E a sua maior derrota?
Se calhar foram várias. Famílias que gostaríamos de ajudar mais e não podemos, subsídios que acabam…a história de um director é feita de muito sofrimento e muita preocupação. São imensos os problemas. Mas saí com a profunda convicção de ter feito um trabalho sério.

Foi o desafio da sua vida?
Sem dúvida. Poucos lugares de âmbito nacional terão a exigência daquele cargo. Porque é um lugar muito exposto, muito apetecível. Tanto que já disse à minha sucessora para não se preocupar com o PS, pois os ataques de que vai ser alvo serão por parte do próprio partido.

Porque é que é tão apetecível? É pela remuneração?
Pela remuneração, pela visibilidade mediática, pela projecção que pode dar para outros patamares…Por isso quando digo isto à Maria do Céu, estou a pensar no partido todo, e não apenas nos presidentes de Câmara e vereadores que vão deixar de o ser daqui a menos de dois anos. porque o PSD na sua lógica em nada difere do PS!

Foi a estrutura local do PSD que o quis subsituir?
Deixe-me dizer que o PSD nunca me atacou durante estes seis anos e meio…

Mas substituiu-o…
Sim, mas o PS também substituiu a minha antecessora. Não foi demitida por incompetência. Foi porque tinha sido nomeada pelo governo PSD/CDS. E tal como eu já disse, a drª Maria do Céu foi nomeada por confiança política. Porque foi o PSD a escolher. Se fosse o CDS, não seria ela, mas sim outra pessoa.  Felizmente foi o PSD.

O que é que vai fazer agora?
Já estou a fazer. Sou inspector principal da Autoridade para as Condições de Trabalho. Estarei nas Inspecção de Trabalho até estar. Nunca ocuparei o lugar de dirigente, porque é minha estratégia de vida nunca ser dirigente no lugar de origem. Trabalho para o Estado português há 27 anos. O Estado achou que eu serviria melhor os seus interesses na ACT do que na Segurança Social. Com este Governo ou outro qualquer estarei sempre onde o Estado achar que sou mais útil.

E de que forma pensa contribuir para a sociedade – uma vez que já disse que pretende envolver-se em actividade cívica?
Eu sou um cidadão de bem comigo mesmo. Consciente das minhas limitações mas também convicto do meu valor. Tenho conferências marcadas em universidades e politécnicos, a título gratuito, em que procuro dizer aos futuros gestores o que devem fazer, como devem fazer. Ou o que não devem fazer no início das suas carreiras profissionais.

 Paula Sofia Luz
paula.sofia@regiaodeleiria.pt

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