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Sociedade

Polémica na Caranguejeira obriga à saída do pároco

O clima de tensão entre parte da população da Caranguejeira e o até aqui pároco local, Joaquim Baptista, culminou com o afastamento do sacerdote. A polémica que envolve o presidente da da Junta local, obrigou à intervenção do bispo.

A saída do sacerdote foi confirmada na última terça-feira, em comunicado, pela Diocese de Leiria-Fátima. Fora transmitida dias antes à população.

Mas o caso que alimentou a polémica na paróquia vem de trás. E promete continuar. O Lar de São Cristóvão, na Caranguejeira, é o epicentro de um enredo ainda não totalmente esclarecido mas que mobilizou protestos. De tal dimensão que a Diocese acedeu ao pedido do sacerdote, dispensando-o de continuar na paróquia.

Joaquim Mónico, presidente da Junta local e até há poucos meses diretor e colaborador remunerado da instituição, a par com o pároco ex-presidente do lar, são as personagens centrais do conflito. Para já, da colisão de sensibilidades resultou a saída do pároco, substituído por Jorge Guarda, vigário geral da Diocese.

O bispo António Marto aceitou a saída do padre Joaquim Baptista (Fotografia de arquivo: Joaquim Dâmaso)

Histórias há, caro leitor, que são fáceis de contar. Daquelas que são escritas recorrendo-se à fórmula: “o caso conta-se numa penada”. Não desta vez. As versões divergem, pormenores há que ficam por contar.

Parece contudo incontornável que a continuidade na direção do lar por parte do presidente terá sido o rastilho que incendiou os ânimos. Centremo-nos pois nos factos em que convergem as duas versões: Joaquim Mónico reformou-se. A lei não lhe permitia acumular a reforma com o vencimento que auferia no lar. Mas atente-se como Paulo Antunes, membro da assembleia de freguesia, relata a situação criada a Joaquim Mónico que descreve como sendo alguém de uma profunda dedicação ao lar:

“Teve muitas vezes que ultrapassar a oposição sistemática dum elemento diretivo apenas interessado em arranjar pseudocasos para
complicar as suas ações, denegrir a sua imagem e assim tentar desmotivá-lo”.

Venceram “as calúnias e intrigas”, sendo que Joaquim Mónico “acabou por ceder, pedindo mesmo a reforma e logo de seguida a demissão da direção”, explica.

Conta ainda Paulo Antunes que o presidente da Junta foi convencido a recuar na sua decisão de sair, atendendo “à importância da sua permanência”.

Em dezembro, adianta, foi “aprovada pela direção a sua permanência e nas condições acordadas”.

Manifestação na calha

Contudo, o pároco “influenciado pelo outro elemento diretivo descontente com a solução encontrada, tomou a decisão unilateral de demitir verbalmente todos os elementos da direção”, conta ainda Paulo Antunes.

A situação deteriorou-se. Nos últimos dois meses a tensão avolumou-se. Ao permitir a saída do presidente da Junta da direção do lar, o pároco dava o dito por não dito, acusava-se.

Uma comissão de indignados surgiu. Manifestações de protesto foram programadas. Chegaram a estar mobilizadas cerca de 400 pessoas para se manifestarem durante uma reunião do conselho económico da paróquia, adianta Paulo Antunes para exemplificar a indignação popular.

A manifestação não se realizou porque a reunião foi transferida para Leiria. O pároco Joaquim Baptista garante que não voltou com a palavra atrás porque nunca houve qualquer acordo.

“Não houve acordo nenhum, houve sim pressão para que ele [Joaquim Mónico] continuasse no lar e continuasse a receber de outra maneira, ilícita, não digo ilegal, ilícita”, revela.

“Naturalmente que não concordei com essa situação”. E acrescenta: “não tomo atitudes drásticas e irrefletidas, vou dando espaço para as pessoas refletirem, mas quando vejo que as pessoas não aceitam que a legalidade seja reposta, reajo dizendo que não há condições para continuarmos”.

Contudo, “os visados reagiram mal e como tinham a máquina montada, puseram-se na sombra com outras pessoas a fazer barulho, mas eu não estou para ser enxovalhado”, lamenta.

Saída contra ilegalidades

O resultado foi o pedido “aosenhor bispo que me dispensasse da paróquia quando vi que as pessoas não estavam dispostas a viver neste contexto da legalidade”, remata.

Joaquim Mónico, por seu lado, não se quer alongar em comentários. “Lamento todo o desenrolar deste caso”. Quanto ao facto de o problema residir na sua eventual remuneração, esbate o argumento. “Eu exercia o cargo de forma voluntária, sei bem o que é legal, a minha preocupação era que os utentes não fossem prejudicados”, sublinha.

Já em relação ao acordado com a direção para continuar em funções, é perentório: “foi falado entre quatro paredes e é como o segredo da confissão, lamento que chegue à praça pública”.

Caberá agora a Jorge Guarda, vigário-geral da Diocese, encontrar uma solução para este caso. Isso mesmo adiantou, na última terça-feira, a Diocese no comunicado em que anuncia que o bispo António Marto aceitou o pedido de dispensa do pároco, após “diversas formas de pressão e animosidade, no sentido de manter a direção e o referido colaborador em funções”.

Para além de agradecer o serviço prestado por Joaquim Baptista, o bispo dirige-se aos paroquianos da Caranguejeira, apelando a que “todos se esforcem por criar condições de convivência fraterna”.

Contudo, o presidente de Junta avisa: “Uma guerrilha é fácil começar mas acabar com ela é difícil”.

(Notícia publicada na edição de 20 de julho de 2012)

Carlos S. Almeida
carlos.almeida@regiaodeleiria.pt