Mais de metade dos utentes do lar de terceira idade Solar D. Maria, na freguesia de Maçãs D. Maria, em Alvaiázere, está infetada com Covid-19. A estes juntam-se nove funcionários num total de 34 pessoas. É a situação mais grave de que há conhecimento no distrito de Leiria, até ao momento.

Na passada terça-feira, a presidente da Câmara Municipal, Célia Marques, não confirmou o número de casos ao REGIÃO DE LEIRIA, mas fonte próxima da instituição disse ao nosso jornal serem 23 os utentes contaminados e oito os profissionais, incluindo os proprietários do lar. Descreveu ainda a situação como “gravíssima”.

Entretanto, no dia seguinte, quarta-feira, dois comunicados emitidos pela autarquia adiantavam tratar-se de um número superior de pessoas infetadas: 34 no total.

A dimensão do contágio começou a ser conhecida após a morte de um dos utentes, na passada sexta-feira, que acusou positivo. Na sequência do óbito, o município decidiu adquirir testes, num investimento superior a 6.500 euros, com o objetivo de perceber, o mais rapidamente possível, a dimensão do problema e de tomar as medidas necessárias, explicou a autarca. Neste conjunto de testes, foram também abrangidos os bombeiros que faziam o transporte dos utentes para unidades de saúde.

Questionada sobre o que mais a preocupa neste caso, Célia Marques afirma “tudo”. No entanto, uma das questões em que tem centrado a sua atenção é a capacidade de o lar permanecer em funcionamento. Se, por um lado, há vários funcionários infetados, por outro, os restantes deveriam cumprir quarentena.

A presidente da Câmara adianta que já foi solicitado apoio junto de várias entidades, incluindo a segurança social que dispõe de uma bolsa de voluntários. Acredita, no entanto, que “será necessário falar com as funcionárias que deram negativo para apelar à sua colaboração, porque a instituição precisa delas neste momento”. Salienta que “se todas saírem, os idosos vão ficar numa situação complicada”, lembrando que não se trata de “um trabalho das nove às cinco, mas de 24 sobre 24 horas”.

O REGIÃO DE LEIRIA tentou por várias vezes contactar a direção do lar, mas sem êxito.

A autarquia de Alvaiázere procedeu à ativação do Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil e, com vista a “atenuar os impactos inevitáveis deste surto, aparentemente ainda localizado”, garantiu a prestação de serviços de enfermagem, “para assegurar os devidos cuidados aos utentes da instituição, agradecendo-se, desde já, a todos os enfermeiros que se disponibilizaram para este efeito”.

Foi ainda cedido equipamento de proteção individual a todos os profissionais da instituição, de forma a assegurar a sua segurança, e foram efetuados contactos com a ACREDEM – Associação Social Cultural, Recreativa e Desportiva de Maçãs de Dona Maria para garantir as refeições a todos os utentes do lar, dá conta num comunicado.

A Câmara disponibilizou também alojamento para utentes e profissionais e instalou um hospital de campanha no Pavilhão Desportivo de Alvaiázere, com 30 camas, 20 das quais articuladas, com condições de conforto e salubridade, com o apoio da Santa Casa da Misericórdia e de várias instituições particulares de solidariedade social.

A autarquia recomenda a “adoção de todas as práticas com vista à redução da propagação da doença, sendo de especial importância o isolamento social de todos os cidadãos, podendo estes aceder aos serviços de abastecimento de alimentos e de medicamentos, que estão a ser promovidos pelas juntas de freguesia e pelo Município”.

Preocupação também em lares de Pombal

Dos seis óbitos registados no distrito de Leiria por Covid-19, quatro correspondem a utentes de lares de terceira idade. Além do utente do Solar D. Maria, três mortes ocorreram em Pombal e relacionam-se com um foco de infeção no lar da Associação Sócio-Cultural, Recreativa e Educativa da Cumieira e Circunvizinhas.

Em relação a este caso, o delegado de saúde de Pombal, José Ruivo, afirma que “a situação está mais ou menos controlada”. A instituição regista agora 14 casos confirmados de Covid-19 – 12 utentes e dois funcionários – mas autoridade de saúde e direção do lar encontravam-se, ontem, a diligenciar no sentido de transferir, para outro local, todos os que tiveram teste negativo.

Controlados os casos da Cumieira, é em duas outras instituições do concelho de Pombal que as atenções se centram: Centro Social Paroquial da Ilha, com três funcionárias e uma utente infetadas, e o lar Paço Verde, em Almagreira, com uma trabalhadora cujo teste também deu positivo.

José Ruivo explica ao REGIÃO DE LEIRIA que as quatro funcionárias dos dois lares estiveram recentemente juntas, num convívio da comunidade imigrante a que pertencem. “A situação pode ser explosiva” e deixa o alerta: “é muito importante que as pessoas tenham consciência que trabalhar num lar é de muita, muita responsabilidade”. O delegado de saúde reforça ainda a ideia de que “ficar em casa é não sair, mas também não deixar entrar”.

Gonçalo Ramos, presidente da União de Freguesias de Guia, Ilha e Mata Mourisca confirma ao nosso jornal que o caso está a ser acompanhado pela autarquia. Adianta que as três funcionárias do lar da Ilha estão em isolamento e que a utente – que teve contacto com o primeiro do concelho, detetado no Carriço – se encontra hospitalizada.

O presidente da Junta esclarece ainda que foram realizados testes a 28 utentes que, de forma mais próxima, se relacionaram com os casos de infeção. Até à data, nenhum outro caso positivo surgiu. “Esperamos que não tenha mais desenvolvimentos”, desabafa.

(Atualização às 16h05 do dia 1 de abril de 2020, com a informação das medidas adotadas pelo Município de Alvaiázere e às 17h30, do dia 2 de abril, com o número de casos positivos)