Há cerca de três meses, a população de Ortigosa, freguesia entretanto agregada à de Souto da Carpalhosa, foi surpreendida com uma poda “drástica” de 45 choupos situados na zona de merendas do Parque Temático da Lagoa. No passado dia 15 de maio, alertados para o abate de árvores na zona das tasquinhas, alguns cidadãos intervieram para impedir mais cortes. Por terra ficaram contudo 25 exemplares.

Nesse mesmo dia, o parque foi encerrado por iniciativa da Junta de Freguesia (JF), que alega “perigo de queda de árvores”. Num aviso à população, esclarece que a medida foi tomada na sequência da queda de dois choupos no fim de semana anterior, e que “após análise de técnicos da Câmara de Leiria (CML)” e com base na informação produzida, o parque “será totalmente reformulado implicando a remoção dos choupos existentes e a sua substituição por outras espécies com características mais adequadas, visto os existentes apresentarem perigo iminente de quebra”.

A informação apontava contudo outra alternativa, que passaria pela avaliação de cada exemplar com respetiva análise laboratorial “caso fosse considerada a sua manutenção”, e sugeria que o parque fosse interditado “até tomada de decisão”.

A JF no entanto não esperou e decidiu avançar de imediato com o abate. A medida, amplamente contestada, levou a presidente da Assembleia de Freguesia (AF) a marcar uma reunião extraordinária na semana seguinte para a Junta prestar esclarecimentos.

Ao REGIÃO DE LEIRIA, Eulália Crespo, presidente da Junta (PSD), não quis pronunciar-se sobre o corte das árvores. Referiu apenas que a Junta está “a trabalhar com a Câmara”, que esta “recomendou interditar o parque por razões de segurança” e que “a situação está a ser analisada por várias entidades”, nomeadamente autarquia e ICNF.

Decisão “precipitada”

Quando Marília Ferreira, presidente da AF (PS), se deslocou ao local, alertada por uma publicação no Facebook, e se deparou com árvores “deitadas abaixo” e o parque interditado, contactou a presidente da JF que “disse que tinha sido por ordem da Câmara”.

Eulália Crespo já lhe havia dado conta da queda das duas árvores e colocado a hipótese de reunir para decidir o que fazer quanto à festa do Dia da Criança e das tasquinhas da Ortifae a realizar este mês naquele espaço.

“Quando recebi a notícia, não dei grande importância porque haveria solução com a colocação de sombras artificiais”, explica, afirmando porém não esperar uma intervenção tão “drástica”.

Considerando a medida “precipitada” e “despropositada”, convocou a AF que deliberou pedir apoio do Município no sentido de avaliar o estado das árvores e a necessidade de as abater.

Ex-presidente da Junta de Freguesia de Ortigosa (eleito pelo PS) e impulsionador do parque da Lagoa, Américo Coelho também contesta a medida, para a qual diz não encontrar explicações, até porque “das 25 árvores cortadas, nenhuma está podre”.

“O ano passado caiu uma árvore, fecharam o parque e reabriram-no sem fazer nada”, sublinha, defendendo a necessidade de avaliar todos os exemplares para confirmar se estão ou não doentes. Quanto à poda dos choupos na zona de merendas, entende que deveria ter sido feita em janeiro/fevereiro e não em março, e que o corte deveria ser inclinado e não a direito para evitar a acumulação de água e o risco de apodrecimento. A intervenção terá ainda deixado os restantes exemplares “sem proteção”.

“Tenho pena e é injusto porque esta JF está a fazer um trabalho interessante no sentido de recuperar o parque e criar mais-valias. Tenho que lhe tirar o chapéu por isso, mas esta medida foi drástica e sem avaliação prévia”, conclui.

Opinião que Isabel Silva, membro da AF e ex-elemento da JF (PSD), também partilha. Ao REGIÃO DE LEIRIA, assume não concordar com o abate total das árvores “sem ter sido ouvida a AF” e “sem um parecer mais credenciado” nem com o modo como foi efetuada a poda anterior de meia centena de choupos.

Avaliação a pedido

Confrontada com a situação, Ana Valentim, vereadora responsável pelos Espaços Verdes, adianta que as intervenções no parque da Lagoa não carecem de autorização do município por ser gerido pela JF, embora emita recomendações técnicas mediante solicitação das juntas, cabendo a estas acolhê-las ou não.

“Foi o que se verificou há cerca de dois meses, em que foi prestada informação técnica quanto à necessidade de poda de algumas árvores do Parque da Lagoa”, refere a autarquia, acrescentando que as podas “são necessárias, uma vez que promovem o vigor das árvores e um crescimento mais robusto”, devendo “ser realizadas sem que comprometam o natural desenvolvimento da árvore”.

Já quando “as árvores se encontram com alguma fragilidade, importa efetuar uma avaliação detalhada aos exemplares e a partir daí decidir quais as medidas a tomar”, nota ainda. “As medidas podem passar por tratamentos ou abate, esta última se decorrente da avaliação, se concluir que os exemplares se encontram em declínio e sem possibilidade de recuperação”, conclui.

Artigo publicado na edição de 6 de junho de 2019 do REGIÃO DE LEIRIA