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Consultório RL

Enurese: Zangar-se ou castigar as crianças não é solução

A perda involuntária de urina na infância é, regra geral, transitória. Há medidas que podem ajudar a criança a ultrapassar essa fase, indica a pediatra Cláudia Gomes

Cláudia Gomes
Pediatra
Leiria

15%

A enurese é mais frequente no sexo masculino, está presente em 10 a 15% das crianças com idade superior a 7 anos e tem uma taxa de resolução espontânea de aproximadamente 15% ao ano

O que é a enurese?

A enurese corresponde à perda involuntária de urina, cinco ou mais vezes por mês, durante três meses consecutivos ou mais, numa idade em que o controlo voluntário já deveria existir, ou seja, em crianças com idade superior a 5 anos. Atualmente, é considerada exclusivamente noturna, caindo em desuso o termo enurese diurna (que passou a designar-se por incontinência).

Quais são as principais causas?

A maioria das situações de enurese primária monossintomática (ou seja, sem um período de continência de esfíncter superior a seis meses e sem outros sintomas associados) não tem na sua base nenhuma doença orgânica. Na maioria das vezes afeta crianças com antecedentes familiares (pais ou irmãos) também com enurese, sendo mais prevalente no sexo masculino.

Existem fatores de risco associados?

Existem alguns fatores que aumentam a incidência de enurese, alguns deles corrigíveis, como a obstipação, parasitoses intestinais, perturbações do sono (roncopatia e síndrome de apneia obstrutiva do sono). Paralelamente existem doenças que importa excluir como a infeção do trato urinário e a diabetes.

Quando é que os pais devem começar a procurar ajuda para os filhos?

Esta questão é abordada pelos médicos e enfermeiros em qualquer consulta de vigilância de saúde e deve ser abordada pelos pais sempre que se suspeita do diagnóstico.

O que não devem os pais fazer?

A enurese é, regra geral, uma situação transitória. No entanto, pode ser um fator de stress, depressão e isolamento para a criança. Por outro lado, os pais podem ser um fator agravante da situação. Zangarem-se e castigarem os filhos NÃO ajuda. Os pais devem motivar a criança e recompensar as noites secas (evitando doces ou dinheiro); devem retirar as fraldas e resguardo (se a criança tiver mais de 8 anos); devem restringir a ingestão de líquidos a partir das 19 horas; e devem informar os educadores de infância e professores da importância de lembrar a criança com enurese de ir à casa de banho de forma regular.

Como diagnosticar?

O diagnóstico é clínico e baseia-se nos sintomas. Os exames complementares de diagnóstico permitem excluir outras doenças ou comorbilidades.

É possível tratar?

Existem medidas gerais anti-enurese que são de extrema importância e de fácil aplicação e que são a primeira linha na abordagem destas crianças. São exemplos: modificar os hábitos urinários (urinar pelo menos cinco a seis vezes por dia), usar um calendário para premiar as “noites secas”, aumentar a ingestão hídrica durante o dia e reduzir à noite, evitar a obstipação e modificar a dieta (não ingerir cafeína, chocolate, sumos e bebidas gaseificados). O tratamento farmacológico (com medicamentos) reserva-se para as situações refratárias e exige acompanhamento médico especializado.

(Artigo publicado originalmente no Diretório de Saúde 2018 do RL, onde pode encontrar esclarecimentos de especialistas sobre outros temas)

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