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Cultura

Património local inspira arte pública em Ansião, Figueiró dos Vinhos e Pombal

Ansião, Figueiró dos Vinhos e Pombal têm novas esculturas construídas pela comunidade para valorizar a cantaria e a calcetaria.

E se um bolo, água e conhecimento dessem azo a arte pública? Foi o que aconteceu nos municípios de Figueiró dos Vinhos, Pombal e Ansião, onde associações locais lançaram ‘mãos à obra’ para dar vida a novas esculturas.

Desenvolvidas no âmbito do projeto Territórios de Pedra, as intervenções foram inauguradas ao longo do mês de junho e, a coordenar o trabalho das associações, esteve o professor de escultura Fernando Freire, natural de Ansião, que ajudou a cumprir o objetivo principal da iniciativa: elaborar peças que contribuam para a valorização da cantaria e da calcetaria.

Com as instalações criadas, o projeto pretendeu, também, “aproximar as populações do processo criativo, valorizando a memória e os materiais do local”, recorrendo ao “saber fazer secular dos artistas locais”, lê-se no site do Territórios de Pedra.

“Viagem ao Conhecimento” foi a primeira intervenção inaugurada, no dia 10 de junho, na Praça Luís de Camões, em Ansião. O tema do conhecimento foi retratado através de “livros” de pedra empilhados, dedicados a distintas disciplinas, terminando com “Os Lusíadas”.

Fernando Freire explica que a escultura foi colocada naquela praça “devido à proximidade com a escola, fonte do conhecimento e do saber”.

Para Paulo Freire, dirigente da Associação de Moradores e Amigos do Lugar dos Netos (AMALN) – que ficou responsável pela peça para Ansião – contribuir para o projeto foi uma experiência “muito boa”, promovendo a mobilização de grande parte dos elementos da AMALN.

Em Figueiró dos Vinhos e Pombal, o envolvimento da comunidade local foi igualmente “excelente”, reflexo da participação do Rancho Folclórico Flores de Alegria e da Tertúlia Berço da Tauromaquia, respetivamente, diz Fernando Freire.

Na freguesia de Abiul, em Pombal, nasceu a peça “Memorial ao Bodo”, inspirada no bolo de festas típico da localidade, cuja receita tradicional incluía “cerca de dez quilos de farinha” e exigia que “o forno ficasse a aquecer durante três dias para a confeção”. Depois de cozido, o alimento era distribuído pela população que ia às festas do Bodo. Uma tradição que remonta ao século XVIII, explica o coordenador.

Já habituadas à tarefa de amassar o bolo, algumas habitantes do lugar tiveram de “amassar cimento”: experiência inédita para as senhoras, que revelaram “muita preocupação” inicial, recorda.

Carlos Martins, presidente da direção da associação Tertúlia Berço da Tauromaquia, afirma que a iniciativa foi um desafio, devido, entre outros aspetos, ao pouco tempo para realizar a peça. Apesar disso, sublinha, foi uma “atividade giríssima”.

Relativamente às críticas que o memorial recebeu, Carlos Martins considera-as “questões políticas” e lamenta a falta de “uma fotografia aérea”, para mostrar todos os elementos que constituem a peça, nomeadamente a calçada, a pá, o rodo e o vasculho: instrumentos que se utilizavam na época, para ajudar à confeção do bolo no forno.

“Memorial ao Bodo” foi inaugurada a 20 de junho, em homenagem ao bolo de festas típico de Pombal

Em Aguda, no concelho de Figueiró dos Vinhos, a inspiração foi a água como “elo dinâmico de ligação do passado e do presente”, segundo esclarece a nota do projeto Territórios de Pedra.

Nesta peça denominada “Memórias de outros tempos”, inaugurada no passado dia 27, foram incluídos diferentes elementos: calçada, cantaria e pedra solta de duas cores, dividindo simetricamente o círculo da rotunda como símbolo do “duplo sentido atribuído à intervenção”. Faz também parte da escultura uma bomba de tirar água, numa “recriação de outros tempos”, lê-se no site do projeto.

“Tem tudo a ver com o nosso concelho, com a água e o xisto. O cascalho em volta da bomba é alusivo às nossas ribeiras”, especifica Fátima Dias, responsável pelo Rancho Folclórico Flores de Alegria.

“Memórias de outros tempos” foi inspirada na água e nas características da vila de Figueiró dos Vinhos

De acordo com Fernando Freire, as intervenções comunitárias constituíram “uma oportunidade de pôr as pessoas a trabalhar em coisas que habitualmente não fazem e depois descobrem que até sabem fazer”. “É a arte popular. As pessoas sentem-se felizes e realizadas” e, resume, “ficaram satisfeitas”.

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