Como é que duas irmãs gémeas acabam por seguir o mesmo percurso académico e profissional?
Elisabete Marchante (EM) – Houve alturas, durante a nossa infância, em que não queríamos bem a mesma coisa, mas com o tempo fomos mudando e quando chegou a hora de nos candidatarmos à universidade colocámos ambas como primeira opção Medicina e depois Biologia. Entrámos as duas em Biologia e já não pensámos em mudar. Já em pequenas gostávamos de observar as diferentes espécies vegetais, nomeadamente em locais inóspitos junto às zonas para onde íamos passar férias.
Hélia Marchante (HM) – E lembramo-nos de na altura dizermos que seria “tão fixe” se um dia nos pagassem para fazermos isto.
Há diferenças entre quando começaram e agora?
EM – Sim. Existe cada vez mais uma maior consciência da necessidade de investigar nestas áreas, não só por parte dos biólogos como da sociedade em geral. Por outro lado, também os decisores políticos têm uma maior consciência da necessidade de apostar na biologia e na ciência. Assente nas grandes ameaças à biodiversidade, as estratégias definidas, em termos europeus e mundiais, sobre a importância da biodiversidade têm sido acompanhadas por Portugal.
É fácil apostar numa carreira ligada à investigação sem segurança profissional?
EM – O meu primeiro contrato de trabalho mais duradouro foi assinado há três meses. É uma precariedade muito grande. É muito difícil. Muito difícil. Tivemos colegas muito bons que desistiram, que acabaram por ingressar em outras carreiras, procuraram alternativas. Espera-se, em muitos casos, que as pessoas trabalhem voluntariamente, mas o voluntariado tem limites e não se pode confundir com uma carreira profissional. As pessoas querem ter uma vida. Pese tudo, considero-me uma pessoa de sorte, consideramo-nos pessoas com sorte.
O facto de serem gémeas influência a forma como trabalham em equipa e comunicam com o público?
HM – De certa forma sim, dada a nossa afinidade quando um dos elos está mais fragilizado, o outro segura a continuidade dos projetos, é o que acontece, por exemplo, com um grupo de trabalho que coordenamos as duas. Tem sido um privilégio trabalharmos juntas, mas também ir mantendo as pessoas na equipa, pois essa dinâmica tem facilitado a forma de comunicar os resultados do nosso trabalho.
O que vos levou a dedicarem-se ao estudo das espécies invasoras?
EM – Após a licenciatura começámos a investigar em áreas diferentes, habitats protegidos, neurociências e toxicologia, mas acabámos por nos deixar tocar pela essência da natureza, pelo que vem debaixo dos pés. Mudámo-nos para o maravilhoso mundo do solo, para a base da vida. Entre estudos propusemos um primeiro projeto sobre invasoras e este tem sido o fio condutor até hoje, pese cada uma de nós trabalhar em outros projetos.
Como identificam a origem das espécies invasoras e a forma como chegam e se propagam em território nacional?
EM – Muitos de nós vivemos numa “cegueira vegetal”, incapazes de distinguir o verde que nos rodeia. O nosso maior desafio é ajudar as pessoas a perceber que há espécies diferentes e que muitas delas não deviam estar ali. É o caso da erva-das-pampas (nome científico Cortaderia selloana), que chegou a Portugal através de viveiros ornamentais. Durante anos só se vendiam plantas femininas, sem capacidade de reprodução. Mas, quando começaram a entrar plantas masculinas, vindas da América do Sul, passou a haver pólen e sementes, e a invasão tornou-se rápida e massiva. Hoje cobre extensas áreas, como é o caso da região de Leiria, e continua a ser propagada, por exemplo, por muitas pessoas que a levam para jardins sem saberem que é proibida, que é uma invasora.
Quais são as espécies invasoras que vos preocupam mais?
HM – As que nos preocupam mais são as acácias, a erva-das-pampas, os jacintos-de-água e outras espécies aquáticas como as elódias. As invasoras aquáticas têm aumentado muito e são difíceis de controlar, enquanto as terrestres, como as acácias e os penachos, estão já espalhadas por todo o território continental. Cada uma tem impactos diferentes, mas todas acabam por alterar profundamente os ecossistemas e dificultar a recuperação das espécies nativas.
Que impactos têm estas espécies invasoras nos ecossistemas e na vida das pessoas?
HM – Os impactos são muito variados e quase sempre negativos. As invasoras competem com as espécies nativas, alteram os habitats e reduzem a biodiversidade. No caso das aquáticas, como os jacintos-de-água, podem bloquear cursos de água e afetar a qualidade da água. As terrestres, como as acácias ou a erva-das-pampas, ocupam grandes áreas e dificultam a regeneração natural. Além disso, muitas têm custos económicos elevados, porque obrigam a trabalhos de remoção e condicionam atividades agrícolas, florestais ou turísticas.
Que estratégias de combate têm sido mais eficazes?
EM – As estratégias mais eficazes passam por arrancar as plantas antes de produzirem sementes, como no caso da erva-das-pampas, e por remover as invasoras aquáticas de forma sistemática, evitando que bloqueiem cursos de água. É essencial atuar cedo e de forma contínua, porque cada ano de atraso significa milhões de novas plantas. Também é importante envolver os cidadãos, dado que, muitas vezes, são eles que introduzem ou propagam estas espécies sem saber, mas podem ajudar a prevenir e a controlar se forem informados.
Que obstáculos enfrentam na luta contra as invasoras?
EM – O maior obstáculo é a lentidão das entidades em reagir. Muitas vezes, quando se começa a agir, a espécie já está largamente espalhada. Outro problema é a falta de conhecimento público, as pessoas continuam a comprar ou plantar espécies invasoras porque não sabem que são proibidas. Há ainda a questão dos custos elevados de remoção e da dificuldade em manter ações contínuas, já que basta um ano sem intervenção para a invasão ganhar nova força.
Que papel tem a comunicação e a sensibilização pública neste combate?
HM – A comunicação é fundamental. Muitas pessoas não sabem que estas plantas são invasoras e acabam por propagá-las sem intenção, levando-as, como já referimos, para jardins ou espaços públicos. Se forem informadas, podem ajudar a prevenir novas introduções e até colaborar na remoção. É por isso que investimos tanto em sensibilização, ensinar a reconhecer as espécies, explicar os riscos e mostrar que cada gesto conta para proteger a biodiversidade.
Que medidas consideram prioritárias?
EM – As medidas prioritárias passam por atuar mais cedo e de forma contínua, reforçando a vigilância e a remoção sistemática das espécies invasoras. É essencial melhorar a legislação e a sua aplicação, garantindo que não há venda ilegal e que as entidades locais reagem rapidamente. Também precisamos de investir em sensibilização pública, para que os cidadãos reconheçam estas plantas e não as introduzam nos jardins ou espaços naturais. Só com prevenção e ação coordenada conseguiremos reduzir os impactos.
Que conquistas destacam no combate às invasoras?
HM – Uma das maiores conquistas foi o uso de controlo biológico, algo raro em Portugal e na Europa. O nosso projeto foi o primeiro em Portugal e o terceiro na Europa, e mostrou que, além do controlo químico ou físico, é possível usar organismos específicos para reduzir a reprodução das plantas invasoras. No caso da cássia-de-espigas, conseguimos impedir a formação de sementes, limitando a sua expansão.
Como têm conseguido envolver os cidadãos neste combate?
EM – Através do projeto Invasoras (https://invasoras.pt/), que começou como um simples website em 2003, evoluiu com apoio da agência Ciência Viva e hoje está ligado à plataforma internacional iNaturalist (https://www.inaturalist.org/), dentro da rede portuguesa Biodiversity for All. Qualquer pessoa pode registar observações, validar registos de outros e contribuir para aumentar o conhecimento. Já existem mais de 100 mil registos, usados por cientistas e municípios para planear ações de controlo.
Que tipo de pessoas participam nestes projetos de “ciência cidadã”?
HM – Pessoas muito diversas, como caminheiros, curiosos, participantes em workshops e saídas de campo, cidadãos atentos que aprenderam a reconhecer invasoras. Em alguns projetos marinhos, também muitos pescadores têm colaborado. São pessoas de várias formações e idades, que se tornam “convertidos” depois de perceberem a importância de identificar e controlar estas espécies.
Significa que há sinais positivos?
EM – Sim. Hoje também já existem mais municípios com fundos ambientais e projetos dedicados ao combate às invasoras. Em Leiria, por exemplo, o projeto “Leiria sem Invasoras” tem feito um trabalho importante. Mas falta uma verdadeira mudança de mentalidade, muitas vezes os jardineiros continuam a cortar relvados de forma rotineira, sem dar prioridade ao controlo das invasoras, e isso mostra que ainda não é visto como essencial.
Como compatibilizam o rigor científico com a comunicação para o público?
HM – O segredo é filtrar e simplificar a informação sem perder rigor. Ajustamos a linguagem ao público, seja em escolas, com jovens ou cidadãos sem formação científica, e escolhemos bem as mensagens-chave que queremos transmitir. Se falarmos como num encontro científico, a mensagem não passa. O objetivo é tornar a informação acessível, sem a desvirtuar.
Que mensagem gostariam de deixar ao leitores?
EM – A mensagem é simples: aprendam a ver as plantas que vos rodeiam. Muitas das espécies invasoras parecem bonitas, mas têm impactos graves na natureza e na nossa vida. Se conseguirmos reconhecê-las e evitar a sua propagação, já estamos a dar um passo enorme para proteger a biodiversidade. Cada gesto conta – arrancar uma pluma, não comprar uma planta proibida, informar um vizinho -, tudo ajuda a travar a invasão.
Qual é o vosso maior desejo para o futuro da biodiversidade em Portugal?
HM – O nosso maior desejo é que Portugal consiga proteger melhor os ecossistemas nativos, reduzindo a presença das invasoras e valorizando as plantas autóctones. Queremos que as pessoas aprendam a reconhecer e a cuidar da nossa biodiversidade única.
Licínia Girão (texto)
Nota de direção: “90 anos e o futuro” é um ciclo de entrevistas que o REGIÃO DE LEIRIA começou a publicar em 2025. Trata-se de um espaço editorial integrado nas comemorações dos 90 anos do jornal, que promove a reflexão e tenta descodificar os desafios que marcam o horizonte do segundo quartel de século XXI. Em todas as edições da série “90 anos e o futuro” iremos procurar olhar o mundo e a região, identificando os vasos comunicantes entres os espaços global e local. Acreditamos que, no final de cada conversa, será mais fácil entender o percurso que nos trouxe até aqui e perspetivar o horizonte dos próximos anos.
A produção deste artigo é apoiada por uma bolsa do projeto Climate Frontline, liderado pelo EJC, em parceria com a REVOLVE.