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A tempestade é um tsunami nas empresas com efeitos que ainda não se conhecem

O vento ciclónico não escolheu empresas, nem sectores. Atravessou zonas industriais e múltiplas atividades. A Marinha Grande, Leiria e Pombal são os concelhos mais atingidos

FOTO: Joaquim Dâmaso

O empresário João Faustino é o rosto da catástrofe que se abateu sobre as empresas da região. É também o rosto de um dos sectores mais afetados, já que é presidente da Associação Nacional da Indústria de Moldes (Cefamol). Mas nenhuma atividade escapou, sacudida pelo vendaval ciclónico.

O Grupo TJ Moldes, da Marinha Grande, perdeu duas das suas cinco fábricas. O impacto da tempestade foi como “uma bomba, que destruiu duas unidades de produção e danificou três”, lamenta o empresário, explicando que tem milhões de euros de prejuízo — basta considerar que há máquinas atingidas que valem mais de um milhão de euros.

“Uma fábrica destas nem daqui a um ano está a trabalhar. Nem sei se alguma vez vai trabalhar”, refere João Faustino, constatando que, apesar de uma das suas unidades ter sido das mais afetadas, a Kristin “atingiu toda a economia em geral e não apenas o sector dos moldes”.

Uma ideia dessa trágica abrangência foi dada pelo presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, que apontou para prejuízos de mil milhões de euros, enquanto o diretor executivo da Associação Empresarial da Região de Leiria, Henrique Carvalho, estima que ultrapassem o dobro daquele valor.

As zonas industriais são um espelho da destruição, que paralisou milhares de empresas e causou danos estruturais noutras tantas, sobretudo nos concelhos da Marinha Grande, Leiria e Pombal.

O presidente da Junta de Freguesia das Meirinhas, João Pimpão, retrata em números o que aconteceu: “temos 180 empresas, em 170 choveu lá dentro e 178 ficaram sem energia elétrica. No conjunto, representam 1.500 postos de trabalho diretos, que estão em risco, e 286 milhões de euros de volume de negócios em 2024”.

Na segunda-feira, dia 2, quando falou ao REGIÃO DE LEIRIA, João Pimpão estava revoltado por, cinco dias após a tempestade, a E-Redes continuar “incapaz de repor a eletricidade”. “Como é que não tem um plano de atuação que permita responder num espaço de tempo adequado? Não se entende como é que se demora uma semana para se repor a energia em unidades industriais”, lamenta, enquanto considera que “o problema não são os técnicos que andam no terreno, que são uns heróis; o problema está nas administrações”.

Em Leiria, o Grupo Novagente é apenas um dos muitos exemplos dos efeitos da tempestade. Uma das suas unidades, a Faustino & Ferreira, perdeu 70% da área coberta e os prejuízos podem ascender a três milhões de euros, em máquinas e coberturas. A empresa dá emprego a 100 dos 400 trabalhadores do grupo, que atua na área da construção civil.

O administrador do grupo, Ricardo Faustino, explicou que tem “o pessoal a limpar e a reorganizar, a tirar o lixo, a fazer o que pode ser feito”, numa altura em que a empresa “tem grande parte da construção parada”. “Estamos a reorganizar e a assentar ideias também”, adiantou, considerando que as empresas e os postos de trabalho não estão em risco, “para já — este mês está garantido, mas no próximo vai-se produzir pouco e vai ter de haver apoios”.

A empresária Marta Casimiro, administradora da Meat Heritage — a unidade da Marinha Grande sofreu poucos estragos, mas a herdade de criação de animais, no Coimbrão, apresenta danos avultados — disse ao REGIÃO DE LEIRIA que, mais do que falar por si, “estava a falar por muitas colegas empresárias que estão em situações muito complicadas”.

“Vai demorar muito tempo a recuperar. Há empresas com danos estruturais muito graves e depois, no fim, logo se vê, porque a incerteza fica toda para o nosso lado”, refere Marta Casimiro, que já foi contactada por alguém que procurava emprego, com receio de que a fábrica onde se encontra agora não reabra, porque já estava numa situação financeira precária. Este problema, afirma, vai ser mais evidente “daqui a um mês, quando forem mais visíveis os efeitos” da tempestade.

A sua grande preocupação neste momento é a herdade, onde “perdeu tudo”, menos os animais: “estamos com um grande problema para os próximos dias. Na semana passada os animais salvaram-se, mas agora estamos com medo de uma tragédia muito grande, se o rio rebentar e entrar na herdade”, afirma.

A real dimensão dos prejuízos ainda estava a ser apurada à hora do fecho desta edição. Na Marinha Grande, estima-se que 70% das empresas têm danos consideráveis. Em Leiria e Pombal não será muito diferente. O vereador do Desenvolvimento Económico e Empresarial da Marinha Grande, Armando Constâncio, antecipa: “Aquilo que aconteceu foi uma explosão e está-se a formar um tsunami, que ainda não chegou à praia. Ainda estão por vir muitos dias duros”.

Governo aprova medidas no valor de 2.500 milhões

O Governo aprovou medidas de apoio no valor de 2.500 milhões de euros, que contemplam moratórias de 90 dias aos empréstimos bancários relativos a habitação própria e permanente, e a empresas e outras pessoas coletivas.

Haverá um regime seletivo de moratórias por 12 meses para as situações de danos mais profundos. Está prevista uma linha de crédito para tesouraria, de 500 milhões de euros, e outra para a recuperação de estruturas empresariais, na parte sem cobertura de seguros, de mil milhões de euros.

Foi estipulada uma moratória fiscal até 31 de março e uma transferência de 400 milhões de euros para a Infraestruturas de Portugal, para a recuperação das estradas e da ferrovia. Uma transferência de 200 milhões de euros para as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, para financiar autarquias na recuperação de equipamentos públicos e infraestruturas, e de 20 milhões de euros para a recuperação urgente do património cultural são outras medidas aprovadas pelo Governo.

Há também a dispensa de licenciamento e de controlo prévio para obras de reconstrução públicas e privadas, e foi criada uma Estrutura de Missão para a Reconstrução da região Centro do País, baseada em Leiria, sob a coordenação de Paulo Fernandes, ex-presidente da câmara do Fundão.

O diretor executivo da Nerlei CCI, Henrique Carvalho, considera as medidas positivas, mas disse estar preocupado com a sua operacionalização e com o facto de serem insuficientes para fazer face “aos grandes prejuízos e à calamidade”.

“Faltam apoios a fundo perdido, porque as medidas mais fortes para as empresas são financiamento, ou seja, mais dívida. É importante para soluções muito imediatas, mas são difíceis de resolver numa lógica mais de médio prazo”, alertou Henrique Carvalho.

Prejuízos estendem-se também à região oeste

Os prejuízos na região do Oeste ultrapassam os 20 milhões de euros, considerando um balanço preliminar da Associação Empresarial da Região Oeste, com base num levantamento que contou com 344 respostas. Segundo a associação, os dados “revelam uma situação crítica para a sustentabilidade empresarial” na região, onde 64% das entidades afetadas enfrentam interrupções na sua atividade (31% em paragem total e 21% em paragem parcial). A grande maioria dos afetados “sinaliza uma necessidade crítica de intervenção para evitar o fecho definitivo de portas”, e 20% dos empresários referem que os prejuízos ainda estão a ser identificados ou orçamentados.

O concelho de Alcobaça lidera as participações, com 266 casos (77%), que equivalem a 9,92 milhões de euros de prejuízos. Nas Caldas da Rainha, as situações reportadas equivalem 4,53 milhões de euros, com predomínio do sector agrícola. Entretanto, a Associação dos Industriais de Vidro de Embalagem quantificou em milhões de euros os prejuízos para o sector, que, aos custos da reconstrução das fábricas danificadas, soma as exportações perdidas.

O diretor da Vidrala, Carlos Barranha, exemplificou com a situação das duas unidades de produção na Marinha Grande, que normalmente produzem entre oito e 10 milhões de garrafas por dia e que a tempestade obrigou a “quatro dias de paragem total”.

Seis fornos e 23 linhas de produção, que representam quase mil postos de trabalho diretos e fabricam 2.400 toneladas de vidro por dia, estão “em fase de restabelecimento progressivo da capacidade produtiva”, numa altura em que se desconhecem “os custos de reparação e reposição das instalações”.

Por outro lado, a meia centena de empresas do Parque Empresarial do Camporês, em Ansião, também foi afetada pelo mau tempo, com metade a registar prejuízos graves.


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