Três semanas após a passagem da tempestade, o REGIÃO DE LEIRIA foi perceber como é que os negócios de proximidade viveram aquela madrugada e os dias que se seguiram.
Vestidos de noiva, fatos para noivo, vestidos para damas de honor, roupas de batizados e trajes de cerimónia. O trabalho de Cilita Ferreira estava organizado para as épocas festivas que agora começam “e estava tudo a correr tão bem”, até à passagem da depressão Kristin.
De 28 de janeiro para cá, a costureira não tem dormido, porque precisa de ter bombas ligadas, 24 horas por dia, com recurso a um gerador, para tirar a água que entra na cave, onde fica o salão de provas dos vestidos. Se as bombas param, num quarto de hora entram 40 centímetros de água, adianta.
“Sinto-me mesmo cansada, claro”, desabafa, sem perder o sorriso no rosto, enquanto olha para os tecidos que tem em cima da mesa.
Abriu o ateliê em 2006, em Sismaria, freguesia de Monte Redondo, no concelho de Leiria, mas domina esta arte de trabalhar os tecidos desde os 16 anos de idade.
“Tenho muitos vestidos para fazer, muitos sonhos para realizar”, diz, recordando o entusiasmo que os noivos têm quando experimentam a roupa que vão vestir no dia do casamento.
O ateliê de costura Atilic não sofreu danos e Cilita Ferreira diz que “se tivesse luz” nada a impedia de trabalhar. Por estes dias já pensou em improvisar um provador no piso térreo.
Com provas para realizar, são muitos os clientes que tentam chegar ao contacto com Cilita Ferreira, mas por ali ter rede para comunicações também é algo raro por estes dias.
O marido de Cilita estava na Alemanha quando a depressão atingiu a região. Demorou três dias para conseguir ter notícias da família.
A costureira, de 55 anos, confessa que ainda não parou para fazer contas sobre o prejuízo que está a ter. “Não quero fazer ainda. É o meu ordenado, todas as despesas, mas os trabalhos também ainda não estão concluídos, por isso, acho que, depois de tudo isto passar, vou conseguir equilibrar tudo”, diz.
No seu espaço de trabalho, os carrinhos de linhas continuam na máquina de costura, a fita métrica está em cima da mesa, tal como os moldes e alguns pedaços de tecido. Está assim desde 28 de janeiro e vai continuar até a energia regressar às habitações de Sismaria.
No dia 13, a luz ainda não tinha chegado à localidade, uma das mais fustigadas nesta espera prolongada pela energia. Cilita não sabe quando irá ter luz, sabe que muitos perguntam isso diariamente na freguesia, mas desvaloriza também esse contratempo e não faz disso um problema: “Não vale a pena, sou uma pessoa muito tranquila”.
Sem água quente, tem recorrido, como tantos outros, aos “banhos à moda antiga”, com água aquecida numa panela num fogão a gás e a shampoo seco.
Para conseguir cumprir os prazos que tem com os clientes e futuros noivos, sabe que terá de passar umas noites em branco a cortar tecidos, alinhavar e chulear, a acrescentar nesgas ou a fazer plissados. “Não será fácil, mas vou conseguir”, afirma, de forma perentória, com novo sorriso, certa que os casamentos do verão de 2026 vão ser um sucesso e nas fotografias dos álbuns vão estar obras de arte feitas por si.
“Muitas das minhas clientes estão no estrangeiro, algumas são do norte do país, de Guimarães, e costumam vir no Natal, fazem a primeira prova e eu vou adiantando o trabalho até aos meses de verão.
Isso dá-me tempo para ir fazendo as peças, sem correria”, explica, justificando que além de profissional, também é mãe, avó, filha e mulher, e não sobra muito tempo para descansar, apesar de todo o planeamento.