As tempestades de vento e chuva alagaram os pomares de maçã e pera da região Oeste e os regadios dos rios Lis e Alcoa, provocando prejuízos enormes e lançando dúvidas sobre a próxima campanha agrícola. E também um lamento pela incapacidade de armazenar água suficiente para as necessidades que surgirão dentro de meses.
Os produtores de pera rocha estão “extremamente preocupados”. Além dos problemas em estruturas, acessos, deslocação de terras e sedimentos lançados nos pomares, o presidente da Associação Nacional de Produtores de Pera Rocha (ANPR), Filipe Ribeiro, refere que há árvores “inteiramente submersas há quase um mês”, causando grande apreensão, pois desconhece-se como vão reagir.
Os pomares de pera rocha ocupam 8.500 hectares e a ANPR tem 32 associados, responsáveis por 116 toneladas de produção no ano passado. “Este ano estamos apreensivos, porque já vimos de uma situação débil [por causa dos prejuízos provocados pelo fogo bacteriano] e não sabemos qual será o impacto desta inédita sucessão de intempéries”, refere Filipe Ribeiro.
O presidente da ANPR chama ainda a atenção para a “grande importância das barragens em termos de biodiversidade, energia limpa, controlo e manutenção dos caudais mínimos nos períodos secos”, considerando que “o país tem de fazer uma grande reflexão sobre a importância da água”.
“Agora a água parece muita, mas a maior parte vai para o mar e não tiramos partido dela. É um grande problema, porque uma barragem, para além de armazenar, também serve de depósito de infiltração para os aquíferos”, explica.
No caso da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Lis (ARBVL), o administrador-delegado, Henrique Damásio, considera que “é absolutamente essencial construir mais mecanismos de retenção temporária de água, porque a que estamos a ver agora é demais, mas quando for daqui a três meses, em maio, já será de menos”.
O problema “é muito mais a falta de uma estratégia para se decidir e fazer do que outra questão qualquer”. Na perspetiva de Henrique Damásio, agora poderá ser a altura para avançar, “porque está demonstrado que estamos muitíssimo vulneráveis. É mesmo preciso pôr mãos à obra e, se calhar, deixar outros eventos menos importantes e canalizar recursos e energia para fazer alterações absolutamente necessárias”.
Quanto aos estragos, a área inundada atingiu, na sexta-feira, dia 13, os 1.900 hectares, num total de 2.145 de perímetro hidroagrícola, com a consequente perda de culturas agrícolas, cabinas de rega e outras estruturas.
Os prejuízos da ARBVL ascendem a 2,5 milhões de euros, devido a danos no edifício-sede, estações elevatórias submersas e nos canais de rega.
A Agência Portuguesa do Ambiente terá de suportar um valor semelhante, relativo a estragos na estrutura de diques marginais do rio e coletores de encosta.
À semelhança do que acontece com a pera, os produtores de maçã também estão preocupados por “há quase três meses não poderem fazer a manutenção dos pomares”. Além de problemas sanitários, há “mortalidade radicular, enfraquecimento de muitas árvores e até a morte de algumas, porque os solos estão saturados ou alagados”, refere o presidente da Associação de Produtores da Maçã de Alcobaça (APMA), Jorge Soares.
Além da destruição de caminhos, devido a alagamentos, e de alguns pomares, por causa de grandes deslizamentos de terras, Jorge Soares considera que “o potencial produtivo está afetado, já não vão produzir o que poderiam, nem em quantidade, nem em qualidade, mas ainda não é possível quantificar o dano”.
Quanto à questão do armazenamento da água, o presidente da APMA considera que, se algumas pessoas não “fossem contra as represas de água e as barragens, não se estava a falar de vários dos problemas atuais, porque passámos agora por três meses de chuva persistente e daqui a uns tempos vamos passar meses de seca”.
“É uma pena estarmos a falar desta chuva e não podermos estar satisfeitos a armazenar uma parte, para que todo o ano pudéssemos criar condições dignas para as pessoas viverem, produzir alimentos, riqueza e emprego”, destaca Jorge Soares.
Na área do Aproveitamento Hidroagrícola da Cela, o presidente da Associação de Beneficiários (ABCela), Carlos Malhó, considera que, para “um futuro alargamento do regadio, seria bom haver mais reservas de água”, mas, para já, é mais importante concretizar o investimento de seis milhões de euros previsto para o arranjo das margens do rio Alcoa, para “os agricultores não andarem sempre com medo que os diques rebentem e causem prejuízos”.
Aliás, “o pior das cheias foi o rebentamento de um troço de cem metros de dique”, que inundou 1.500 hectares e colocou também na “iminência de desmoronamento” partes do rio Alcoa ao longo dos sete quilómetros concessionados à associação. Além disso, perdeu-se a cultura de milho, houve estragos nos contentores das centrais de rega, alguns dos quais tombaram, e os custos da ABCela devem “quadruplicar em relação a um ano normal, sobretudo com a energia e combustíveis”.
Suinicultura do concelho de Leiria foi a mais afetada
O presidente da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores, David Neves, revelou que “a situação mais crítica é mesmo no concelho de Leiria” e que, “na zona de Lisboa e Vale do Tejo, mais a sul do distrito de Leiria, também há algumas dificuldades, com muitas explorações danificadas”.
Questionado sobre as linhas de apoio anunciadas na semana passada pelo ministro da Agricultura e Pescas, lembrou que a região tem essencialmente pequenas e médias explorações e, “no contexto de uma catástrofe nunca vista, é importante que tenham condições para fazer face às necessidades do momento”, porque “há um acréscimo substancial de custos”.
Uma situação que considera preocupante tem a ver com a necessidade urgente de as linhas relacionadas com a reconstrução das unidades ficarem disponíveis.
“As estruturas de cobertura das explorações sofreram muito e não existe a possibilidade de imediatamente satisfazer as necessidades. As pessoas têm de fazer encomendas às empresas, que legitimamente lhes exigem o pagamento antecipado”, explicou David Neves.
Os prejuízos globais até agora ascendem a 280 milhões de euros, em 285 explorações.