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Freguesias: Idosos, pessoas sem teto, escolas desobstrução de vias são prioridades

Sem luz, água ou comunicações, as Juntas de Freguesia do concelho de Leiria, e de outros municípios afetados pela intempérie, desdobram-se para atender às necessidades mais prementes e organizar-se no meio do caos, com o apoio da população e voluntários.

Transformado em centro de emergência, o pavilhão do Souto da Carpalhosa tem acolhido várias pessoas FOTO: Joaquim Dâmaso

Manuel Alves ficou quase sem teto na noite em que a depressão Kristin “arrasou” o lugar da Moita da Roda, na freguesia de Souto da Carpalhosa, Leiria.

“Arrancou-se tudo. Partiu-se a chaminé, caiu tudo à entrada da porta, caiu uma trave e tive de passar por baixo para poder entrar e sair”, conta, lamentando os danos na casa que foi adaptada para ele poder circular em cadeira de rodas. Nessa noite, foi acordado pelo vendaval e conseguiu fechar uma janela, mas diz ter vivido momentos aflitivos quando a casa se inundou.

Naquele dia, os vizinhos bateram-lhe à porta para saber como estava e continuou a receber o apoio domiciliário da associação Samvipaz, de Ortigosa. No sábado à noite, por falta de condições de habitabilidade, foi encaminhado para o pavilhão desportivo do Souto da Carpalhosa.

Transformado em centro de emergência, a estrutura acolhia, na terça-feira, 24 pessoas – entre as quais uma família de seis -, que foram identificadas no decorrer das visitas realizadas em toda a freguesia por quatro grupos de voluntários, explica Sandro Ferreira, presidente da Junta.

“Ontem [segunda-feira] e hoje, já foram a todas as casas duas vezes”, assegura, referindo terem detetado pessoas que ficaram sem telhado ou em risco de cair e outras que dormem com ventiladores e precisam de ter luz para garantir o fornecimento de oxigénio.

Num dos cantos do pavilhão, foram colocados camas e colchões, que não têm faltado dado o movimento de solidariedade que se estendeu a todo o país, depois de este acordar para a tragédia que atingiu o concelho.

“De Beja, trouxeram-nos lençóis, cobertores… Todos os dias têm chegado camiões com ajuda e é impressionante o material que temos dado. Hoje vieram [donativos] do Algarve, ontem vieram de Benfica e já recebemos ajuda da Covilhã”, conta o autarca, referindo que têm sido efetuadas entregas diárias às pessoas mais velhas, faltando ainda condições para armazenar alimentos por falta de energia.

Na terça-feira, apenas o centro da freguesia do Souto da Carpalhosa tinha luz, e continuava a faltar água em muitas zonas, necessidades básicas para as escolas poderem reabrir.

“Estamos a fazer o possível para conseguir abrir na segunda-feira as três escolas e jardins de infância. Não vão ter as condições ideais, mas estamos a tentar reparar os telhados e também precisamos que venha a luz”, referiu.

Sandro Ferreira tem também dormido no pavilhão, revezando-se com outros elementos da junta e voluntários para acompanhar dia e noite as pessoas acolhidas, deixando para segundo plano casas e empresas, apesar dos danos que a maioria sofreu.

“Neste momento, a prioridade são estas pessoas, são as casas da freguesia, as pessoas idosas. Não queremos que fiquem sem ter onde viver. Felizmente, temos o apoio de muita gente”, partilha.

Sem eletricidade, a energia é garantida com gerador, que também permite aquecer a água para as pessoas da freguesia poderem ali tomar banho. Já as refeições para os voluntários e pessoas desalojadas são confecionadas, mesmo sem luz, no salão paroquial de São Miguel por um grupo de moradores.
O autarca enaltece ainda o trabalho realizado por voluntários e pelos bombeiros, “que têm sido incansáveis”, na desobstrução e limpeza das estradas, ruas e espaços públicos.

Neste momento, a prioridade são estas pessoas, são as casas da freguesia e as pessoas idosas. Não queremos que fiquem sem ter onde viver. Felizmente, temos o apoio de muita gente

Sandro Ferreira
Presidente da Junta de Souto da Carpalhosa

Escuteiros, bombeiros e voluntários incansáveis

A presidente da Junta de Colmeias e Memória também não consegue afastar-se do caos que lhe caiu nos braços e não dar prioridade à freguesia. “Caíram-me duas árvores em cima da casa e lá continuam porque estou a dar prioridade a resolver os problemas das pessoas da freguesia”, adiantou, sem queixas, ao REGIÃO DE LEIRIA quando confrontada com a forma como tem lidado com o impacto da tempestade.

“Não há uma única casa na freguesia que não ficado sem telhas no telhado”, adianta Patrícia Marcelino, referindo contar com “muita ajuda”, que permitiu instalar um centro de apoio à população para distribuir alimentos, toldos e telhas, mas também para acolher 20 desalojados, entre as quais crianças e grávidas, e pessoas que necessitam de ventiladores para poder dormir.

Instalado no salão da Junta, o espaço ia ser deslocado, no início da semana, para o pavilhão das Colmeias após a colocação de um gerador, permitindo também acesso a banhos quentes.

“Além do apoio da população, tivemos o apoio dos escuteiros que foram incansáveis e de voluntários, que vieram de norte a sul do país, perguntar o que é que nós precisávamos”, destaca ainda, referindo que as pessoas estão a ser contactadas porta-a-porta para identificar necessidades, acompanhar quem está doente e precisa de cuidados médicos de enfermagem.

“Muitas pessoas estão sozinhas e sem qualquer tipo de comunicação. Não há telefone, estamos mesmo isolados”, reforça a autarca, alertando para a gravidade da situação.

Destaca ainda o trabalho realizado por uma coluna de bombeiros e por militares que desobstruíram e limparam as vias principais.

O fornecimento de água estava a ser restabelecimento lentamente na zona das Colmeias, verificando maiores dificuldades na Memória, onde foi disponibilizado um autotanque, que deverá ser reforçado com um segundo.

Já conseguimos desobstruir as vias, no entanto, ainda existe muito trabalho para fazer. Muitas empresas ficaram sem telhados e sem painéis, e temos muito lixo nas ruas, que anda a voar e cria desconforto

Patrícia Marcelino
Presidente da Junta de Freguesia de Colmeias e Memória

Desobstrução de vias essencial

Em Santa Catarina da Serra e Chainça, a Junta conseguiu subcontratar algumas empresas para desobstruir as estradas o mais possível, logo após a tempestade. “Fomos muito bem sucedidos, e avançámos com limpeza das escolas, para poder identificar os danos, que são bastantes”, relata, por sua vez, João Rito, presidente da Junta.

“Após essa situação, preocupámo-nos com as pessoas, principalmente com as que têm mais dificuldade. Fomos e vamos com frequência dar a volta à freguesia, levar alimentos a quem precisa”, refere, dando ainda conta da criação de um posto de apoio, junto ao pavilhão da União Desportiva da Serra para as pessoas poderem tomar banho.

Localmente, a comunidade também se mobilizou para dar o seu contributo e ajudar a restabelecer a freguesia.

Além do apoio da população, tivemos o apoio dos escuteiros que foram incansáveis e de voluntários, que vieram de norte a sul do país, perguntar o que é que nós precisávamos

João Rito
Presidente da Junta de Freguesia de Santa Catarina da Serra e Chainça

Quando questionado sobre a forma como lidou pessoalmente com esta calamidade e como tem conseguido gerir a freguesia neste primeiro mandato, João Rito admite ter também sofrido danos em casa que aguardam reparação, mas afirma estar mais preocupar com as outras pessoas. “É verdade, sou presidente da Junta há relativamente pouco tempo, no entanto, lidámos [executivo, colaboradores e voluntários] bem com esta situação, apesar de bastante alarmante e debilitante para nós. Mas conseguimos o apoio das pessoas, que nos ajudaram bastante e tentámos dar a volta à situação o mais rapidamente possível”.

Em termos de organização, assume que “houve uma fase mais complicada mas que está mais ou menos a normalizar”, refere, destacando que houve “proatividade” da equipa em avançar rapidamente com as operações de limpeza.

Medida essencial para que as pessoas possam circular em segurança e para garantir o acesso dos meios de socorro, distribuição de bens ou recolha de resíduos.

Todas as freguesias do concelho têm procurado mobilizar a população para colaborar em diversas ações de recuperação, marcando pontos de encontro. Este sábado, dia 7, a Câmara de Leiria promove também uma ação de limpeza em todas as freguesias, em articulação com as juntas e Unidades Locais de Proteção Civil à semelhança da realizada na cidade de Leiria, apelando à participação da população.


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