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“O tempo é crucial nos casos de desaparecimento de pessoas com demência”, alerta Alzheimer Portugal

A maior parte das pessoas é encontrada rapidamente, mas estima-se que até um quarto dos casos implique buscas formais. A Alzheimer Portugal defende mais prevenção e articulação nas intervenções.

Um homem de 92 anos desapareceu no sábado, 17 de janeiro, do lar onde reside, em Figueiró dos Vinhos. Foi encontrado perto da meia-noite numa zona agrícola, a cerca de um quilómetro da instituição, com ferimentos ligeiros e sinais de hipotermia.

O idoso, com doença de Alzheimer, terá saído do lar “em estado de desorientação” e caído “numa ribanceira de acentuado declive”. O desaparecimento foi participado às 17h40, tendo a vítima sido localizada após “seis horas de buscas ininterruptas, realizadas sob condições meteorológicas adversas”, que envolveram várias valências da GNR, incluindo equipas cinotécnicas e o recurso a drones, bombeiros e população.

Em agosto passado, a GNR também localizou, com o apoio de drones e binómios cinotécnicos, uma mulher de 94 anos, dada como desaparecida na freguesia de Cela, concelho de Alcobaça. A idosa foi encontrada 27 horas após o alerta, “com sinais de desidratação e sem ferimentos visíveis”, numa zona “não muito afastada” da sua residência, mas “de difícil acesso e coberta de vegetação”.

Já em abril, as autoridades registaram dois desaparecimentos de pessoas idosas. No dia 25, um homem de 81 anos foi localizado três dias depois de ter desaparecido do lar onde residia, na Marinha Grande. Foi encontrado por um familiar num terreno baldio com muita vegetação, a cerca de um quilómetro, e, apesar de debilitado, estava “consciente e estável”, segundo a PSP.

Dias antes, a 11 de abril, um idoso, de 83 anos, residente em Mata Mourisca, Pombal, foi encontrado após 24 horas de buscas, também a um quilómetro de casa, “numa zona florestal”. Estava “desorientado e com ferimentos ligeiros”, informou então a GNR.

Estes são alguns casos de desaparecimento de pessoas idosas e/ou com demência comunicados às autoridades. Mas são muitos os que não são reportados por serem rapidamente resolvidos.

Não existem estudos em Portugal sobre esta problemática, mas dados internacionais indiciam que o desaparecimento de uma pessoa que vive com demência constitui “um incidente frequente durante o curso da doença” e que “até um quarto destas situações requer intervenção das forças de segurança”.

O tempo é um fator absolutamente crítico. Quando um desaparecimento implica buscas formais, nós sabemos que a maioria das pessoas que são encontradas com vida são encontradas no prazo de 48 horas

Catarina Alvarez
Responsável pelas relações institucionais da Alzheimer Portugal

Petição a debate

O tema ganhou visibilidade em dezembro de 2023 após o desaparecimento de Avelina Ferreira, de 73 anos, das urgências do Hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa, onde deu entrada sem poder ser acompanhada. Foi encontrada sem vida cerca de três meses depois, muito perto da unidade de saúde, já depois do lançamento de uma petição pública que visa exigir do Governo medidas para melhorar a prevenção e a resposta em casos de desaparecimento de pessoas com demência.

O abaixo-assinado recolheu até ao momento 9.824 assinaturas, devendo ser debatido em breve pela Assembleia da República.

O documento defende medidas que garantam o acompanhamento e a segurança das pessoas com demência, como, por exemplo, a atribuição de uma pulseira distintiva quando recorram a serviços de saúde, a colocação de um dispositivo de geolocalização e/ou de alarme na saída das unidades de saúde, o reforço da segurança e formação dos profissionais de segurança em instituições hospitalares nestas matérias.

Mas não só. A petição, também dirigida às polícias, sugere a criação de um “ponto de contacto único para casos de desaparecimento; clareza na informação prestada; celeridade nos processos administrativos” e “consulta de câmaras de vigilância”, bem como a “ativação de uma rede de profissionais de rua” para divulgação de avisos de desaparecimento através de um sistema de mensagens à semelhança dos alertas da Proteção Civil.

Sensível ao tema, a associação Alzheimer Portugal, que também subscreve o documento, tem dinamizado várias ações de informação, para o público em geral e forças de segurança, onde partilha estratégias de prevenção e de atuação.

O assunto “já nos preocupava no tempo da pandemia, porque as situações de desaparecimento eram reportadas, sobretudo, dos estabelecimentos de saúde”, lembra Catarina Alvarez, psicóloga e responsável pelas relações institucionais da Alzheimer Portugal, frisando que, “apesar de haver uma lei que protege o direito de sermos acompanhados nos serviços de saúde, tendo em conta a situação que se vivia, as restrições eram tão severas que não contemplavam, muitas das vezes, pessoas com deterioração cognitiva”.

Segundo Catarina Alvarez, o debate no Parlamento irá permitir ainda abordar “o que falta fazer”, a começar pelo “cumprimento sistemático da lei” no que toca ao acompanhamento dos utentes, nas unidades de saúde, e pela sistematização da intervenção.

No caso de Avelina Ferreira, “percebemos que a resposta não foi articulada e atempada”, adianta a responsável em declarações ao REGIÃO DE LEIRIA, realçando a necessidade de desenvolver protocolos para que todas as entidades envolvidas trabalhem de “forma mais articulada e eficaz para que não haja nem feridos graves, nem mortes decorrentes de um incidente de desaparecimento”.

Em caso de desaparecimento de uma pessoa idosa/com demência, a PSP de Leiria recomenda que seja comunicado às forças de segurança, com informações sobre as rotinas da pessoa e do vestuário utilizado, entre outras características. É também importante contactar pessoas de confiança que possam ajudar a localizá-la, e perguntar, junto dos locais frequentados pela pessoa desaparecida qual foi o último momento em que foi vista

Perfil individual

Catarina Alvarez defende, por outro lado, a adoção de medidas preventivas, como a elaboração do perfil individual da pessoa com demência, com informações detalhadas que podem ser úteis numa situação de desaparecimento.

Alerta ainda para o facto de existirem padrões de comportamento habituais, sendo relevante conhecer “a história de vida da pessoa, os seus hábitos, as suas rotinas e também a fase de doença em que se encontra”.

Sabe-se, por exemplo, que “as pessoas não percorrem habitualmente longas distâncias”, podendo andar até 2,5 quilómetros na maioria dos casos. Mas é preciso considerar a possibilidade de a pessoa ter “um passado prévio de desportista ou uma robustez física que lhe permite andar muito”, ou “fazer parte da sua rotina caminhar”, contrariando aquele padrão, ressalva.

Quanto ao uso da tecnologia e sistemas de geolocalização, alerta para a necessidade de considerar os direitos da pessoa com demência, “muitas vezes esquecidos”, relativos à sua “privacidade, liberdade de movimentos, dignidade e confidencialidade da informação sobre a sua saúde”.

“Cada vez mais se fazem diagnósticos atempados e a pessoa sabe do seu diagnóstico numa fase inicial da doença, estando perfeitamente capaz de compreender a natureza deste problema e de dizer aquilo com que concorda numa situação de futura incapacidade ou de desaparecimento”, sustenta a psicóloga.

“Este aspeto é absolutamente fundamental: não podemos colocar um sistema de geolocalização numa pessoa sem termos legitimidade para o fazer. Não podendo ter autorização prévia da pessoa para esse efeito, essa autorização cabe a quem legitimamente a representa”, esclarece.

“Quando uma pessoa desaparece, o tempo é crucial. Primeiro vamos procurar nos locais habituais que a pessoa frequenta. Se não estiver, ou houver uma disrupção na rotina e quem a acompanha não a conseguir localizar, é crucial reportar de imediato às forças de segurança e que todos os intervenientes, incluindo proteção civil, bombeiros, autarquias e voluntários, estejam articulados para não prejudicar as diligências”.

A psicóloga contraria ainda o estigma que sugere que “as pessoas com demência se movimentam sem uma intenção”. “Nós evitamos o termo deambulação, porque tem uma conotação negativa, e está associado ao facto de a pessoa, alegadamente, se movimentar sem um propósito”, o que não é o caso, sublinha. “Nós podemos não compreender o propósito (…) mas há sempre uma intenção”, e “por isso é que é tão importante e fundamental conhecer o percurso e a história de vida da pessoa”, reforça.

701

Entre junho de 2019 e meados de dezembro de 2025, a PSP atribuiu 701 pulseiras no distrito de Leiria no âmbito do programa “Estou Aqui Adultos”: 73 em 2019; 38 em 2020; 52 em 2021; 130 em 2022; 108 em 2023; 174 em 2024; e 126 em 2025. Nesse período, a PSP de Leiria recorreu duas vezes à base de dados das pulseiras (2023 e 2025) para promover o reencontro com a família

112

Quem encontrar uma pessoa aparentemente desorientada, deve ligar para o 112, comunicar a localização e, se tiver uma pulseira, o respetivo código alfanumérico, para que a PSP possa contactar a família. O código é único, sem relação com dados pessoais, sendo válido em todo o país durante dois anos. As pulseiras visam “agilizar o trabalho de sinalização de uma pessoa adulta momentaneamente desorientada e promover o seu rápido retorno à família”, explica a PSP, esclarecendo que a adesão é gratuita e pode ser realizada através da plataforma estouaquiadultos.mai.gov.pt

A reter

Locais conhecidos
Além da história de vida, dos hábitos, das rotinas e da fase da doenças, existem padrões comportamentais genéricos que importa considerar para ajudar a encontrar uma pessoa com demência que esteja desaparecida. Segundo a associação Alzheimer Portugal, as pessoas com demência tendem a dirigir-se para locais previamente conhecidos e procuram alcançar um objetivo específico, pelo que importa conhecer os seus antecedentes.

Distâncias curtas
Na maioria dos casos, as pessoas deslocam-se a pé e percorrem curtas distâncias, sendo muitas vezes encontradas a cerca de 2,5 km do local onde foram vistas pela última vez, a não ser que tenham hábitos de caminhada e consigam ir mais longe ou tenham acesso a algum tipo de transporte. Tendencialmente, deslocam-se perto de caminhos e/ou estradas em linha reta, caminham até encontrar uma barreira física, podendo isolar-se em áreas naturais locais, onde permanecem. As pessoas com demência podem ainda não responder a alguém que as chame, nem pedir ajuda, e, se tiverem delírios persecutórios, poderão tentar esconder-se. Deixam, por outro lado, poucas pistas físicas.

Prevenção e intervenção
Para ajudar a prevenir o desaparecimento de pessoas com demência, a Alzheimer Portugal aconselha a procurar informação sobre os sintomas e evolução da doença e a conversar com a pessoa aquando do diagnóstico de modo a conhecer a sua perspetiva sobre a utilização de um dispositivo de geolocalização, de modo a não interferir com o exercício dos seus direitos, em especial, à privacidade e liberdade. Recomenda ainda a elaboração do perfil individual da pessoa com demência, com informações detalhadas que poderão ajudar as autoridades num caso de desaparecimento (formulário disponível em alzheimerportugal.org).

Medidas essenciais
Garantir que a pessoa tenha um documento de identificação (ou cópia) e informações para contacto; requerer a pulseira “Estou aqui Adultos”; etiquetar as roupas; avaliar a autonomia e independência da pessoa à medida que a demência progride; envolver a família e/ou profissionais, assegurando uma rede de apoio; e acompanhar a pessoa nas suas deslocações são outras medidas essenciais.
Fonte: Alzheimer Portugal


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