A passagem da depressão Kristin pelo concelho da Nazaré deixou um cenário de destruição generalizada, com impactos profundos em infraestruturas públicas, atividades económicas e na vida quotidiana da população.
Mais de 715 ocorrências foram registadas pela Proteção Civil até à passada segunda-feira, num concelho que permanece sob estado de calamidade decretado pelo Governo.
Apesar da dimensão dos estragos, não há registo de vítimas mortais nem de feridos, havendo apenas uma munícipe que precisou de ser realojada temporariamente em casa de um familiar.
Entre os danos mais visíveis contam-se a destruição de esplanadas, montras de lojas da primeira linha de praia e a deposição maciça de areia nas ruas do centro histórico da vila. A tempestade provocou ainda o arranque e colapso de telhados em vários edifícios, danos em dezenas de viaturas, bem como a queda de numerosas árvores, causando obstruções em vias públicas e agravando os prejuízos materiais.
Registaram-se também danos severos em equipamentos turísticos, como o complexo OHAI, o parque de campismo da Orbitur, o hotel Miramar Sul ou o restaurante S. Miguel.
Com o Plano Municipal de Emergência ativado, a Comissão Municipal de Proteção Civil determinou a suspensão de todas as atividades turístico-marítimas e de lazer no mar, incluindo passeios e atividades recreativas, mantendo-se apenas a pesca profissional, sob condições de segurança apertadas. As escolas encontravam-se encerradas devido à pausa letiva; no entanto, o reinício das aulas foi adiado. O segundo semestre deveria ter iniciado na passada segunda-feira, mas as atividades letivas só foram retomadas esta quarta-feira, após a realização dos trabalhos necessários para garantir condições de segurança. As Piscinas Municipais, a infraestrutura municipal mais afetada pela tempestade, permanecem encerradas por tempo indeterminado.



Na frente marítima e no sector económico, os danos estenderam-se às infraestruturas do Porto de Abrigo da Nazaré e a várias embarcações. Entretanto, o Município solicitou esclarecimentos à Secretaria de Estado das Pescas e do Mar sobre a exclusão das atividades piscatórias e de aquacultura dos apoios financeiros extraordinários anunciados.
Durante vários dias registaram-se cortes prolongados no fornecimento de energia elétrica, bem como falhas nas comunicações, com maior impacto em Valado dos Frades, Famalicão e Pederneira. O abastecimento de água esteve igualmente condicionado, tendo sido restabelecido em todo o concelho apenas com o apoio de geradores.
No âmbito das medidas de apoio às populações afetadas, a câmara vai isentar as taxas para obras em jazigos e sepulturas danificados nos cemitérios municipais, na sequência da tempestade. A decisão foi tomada em articulação com as juntas de freguesia, garantindo uma resposta coordenada e sensível numa matéria de particular importância para as famílias. Paralelamente, será também aplicada a isenção das taxas de ocupação de via pública associadas às obras de reparação de habitações danificadas pela intempérie. As medidas de apoio ao comércio local estão igualmente em análise e deverão ser divulgadas em breve.
Em visita ao concelho, o ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, e o secretário de Estado do Turismo, Pedro Machado, garantiram rapidez nos processos de reconstrução. Numa unidade hoteleira da Pederneira, com prejuízos estimados em cerca de um milhão de euros, Pedro Machado destacou o apoio aos empresários, através de seguros e linhas de financiamento a fundo perdido.
Segundo o presidente da Câmara da Nazaré, os prejuízos nas infraestruturas municipais “ultrapassam já os 15 milhões de euros”, valor que não inclui os danos em propriedades privadas. “Está em curso o levantamento e a avaliação rigorosa dos estragos. Sabemos que os prejuízos em privados são muito elevados, pelo que abrimos uma linha de apoio aos munícipes e empresas para a elaboração de um relatório exaustivo”, explicou Serafim António.
Apesar da dimensão dos estragos, a resposta no terreno tem sido marcada por uma forte mobilização da comunidade. Perante a adversidade, a união e a solidariedade saíram à rua: trabalhadores municipais, forças de proteção civil, voluntários e cidadãos têm estado lado a lado na limpeza de ruas, desobstrução de vias e apoio às populações, ajudando a repor gradualmente a normalidade.
“Quero deixar um agradecimento profundo a todos os funcionários municipais e, de forma muito especial, aos voluntários que têm dado um exemplo notável de entreajuda e compromisso com a comunidade”, destacou o chefe do executivo municipal, sublinhando a resiliência e a força coletiva do concelho.
“700 ocorrências ilustram complexidade da situação”, diz Serafim António
Após a tempestade Kristin, o presidente da Câmara da Nazaré, Serafim António, detalha os prejuízos e as ações de apoio do município.
Que danos imediatos causou a tempestade no concelho?
Há danos significativos em infraestruturas, espaços públicos e propriedades privadas, tendo sido registadas mais de 700 ocorrências. Numa primeira fase, as intervenções prioritárias centraram-se na desobstrução das principais vias, no restabelecimento do abastecimento de água, fortemente condicionado pelas falhas de energia elétrica, e na garantia dos serviços essenciais, com recurso à contratação urgente de geradores. Depois, os trabalhos evoluíram para uma fase intensiva de limpeza e remoção de árvores e detritos da via pública.
Já há estimativa dos prejuízos? Que apoios foram acionados ou solicitados ao Governo?
A quantificação global dos prejuízos ainda está em apuramento, dada a extensão e diversidade dos danos. Estão em curso articulações para acionar mecanismos de apoio à recuperação de infraestruturas, às populações afetadas e a instrumentos financeiros extraordinários.
Que medidas estão a ser adotadas?
A atuação municipal tem-se centrado na segurança das pessoas, reposição da normalidade e apoio às situações urgentes. A médio prazo, face aos danos em equipamentos municipais, nomeadamente nas piscinas, está a elaborar um relatório detalhado sobre o estado das infraestruturas para sustentar um plano de manutenção e requalificação, integrar soluções energéticas e reforçar a resiliência face a futuros fenómenos extremos.