“Tenho 87 anos e nunca vi coisa assim”. Virgílio Batista lembra-se do pinheiro que, à porta de casa, lhe fez companhia durante muitas décadas. Caiu a 28 de janeiro, a dois passos da porta, em cima da casa do filho, no Tremelgo. Esse pinheiro, companhia da habitação construída em plena Mata Nacional de Leiria, não foi a única árvore a cair.
A poucas dezenas de metros dali, no parque do Tremelgo, o eucalipto gigante com mais de um século e meio tombou. Tinha mais de 53 metros de altura, quase 170 anos de idade. Escapara à série de fenómenos extremos, entre incêndios e tempestades do passado, mas rendeu-se agora à mercê dos ventos violentos.
“O Tremelgo está morto”, decreta Virgílio Batista. Quando o nosso jornal visitou o casal octogenário, passavam nove dias da tempestade, e a água e a luz continuavam uma miragem. “Usamos candeeiro a petróleo, como na minha infância”, explica Florinda Prudêncio, à porta de casa. Morava em Leiria e lembra-se de que, no ciclone de 1941, também lhe caiu a casa em cima.
“Já lá vão tantos anos, e agora acontece isto”. Felizmente, a sua casa está de pé. O mesmo não se pode dizer do parque do Tremelgo: “Era agradável e fazíamos lá uns bons passeios”. O Pinhal de Leiria, completa, também “quase desapareceu”, lamenta Florinda Prudêncio.

Este golpe pode revelar-se muito duro para o Pinhal. Octávio Ferreira, engenheiro silvicultor que durante anos esteve ligado à gestão do Pinhal de Leiria, aponta a gravidade dos ferimentos que a tempestade acrescentou à Mata. Depois de percorrer a zona que escapou ao fogo de 2017, resume o que encontrou: “temos agora a Mata Nacional com regeneração natural de 7/8 anos, parte da qual tombada, alguns talhões plantados depois do fogo de 2017, muito mato e nada mais”. De facto, os pinheiros adultos que persistiam no Pinhal apareciam, na sua esmagadora maioria, decepados.
Desde 1880, com o trabalho de Bernardino Barros Gomes, a Mata Nacional de Leiria passou a ter um ordenamento florestal rigoroso, baseado na definição de 342 talhões e em planos de gestão revistos periodicamente, que permitiram, ao longo do século XX, um aproveitamento contínuo e sustentável, com o corte médio anual de 155 mil pinheiros e a produção regular de madeira de elevada qualidade, resina e outros produtos, explica o engenheiro silvicultor. Esta gestão foi reforçada em 1970 com a introdução do inventário florestal por Acácio Amaral, que atribuiu a cada talhão um verdadeiro “bilhete de identidade”, garantindo controlo preciso do que se cortava e do que permanecia.
A organização da mata em talhões de idades diversificadas, mas homogéneas em cada unidade, assegurava um abastecimento estável à indústria e contribuía simultaneamente para reduzir os riscos de incêndios e vendavais. “Tudo agora acabou”, aponta Octávio Ferreira, num texto que reproduziu nas redes sociais.
“A incúria dos homens nos anos anteriores a 2017 foi agora complementada, a preceito, pela natureza malévola”, denuncia. Entre as baixas, contam-se as árvores notáveis, incluindo o eucalipto do Tremelgo, em que “eram precisas 12 pessoas para o abraçar”. A grandiosidade da árvore, em 1997, mereceu a classificação de interesse público. Octávio Ferreira antevê que “nos próximos decénios não haverá cortes de pinhal, as indústrias não terão matéria-prima”. Na prática, “teremos de importar madeiras; daqui a 40/50 anos talvez já haja alguma madeira de serração e resina; no final do presente século XXI tenderá a haver a diversidade de idades de 1980”. Para já, “em 2026 não temos mais Pinhal, depois de, ao longo de 700 anos, este ter fixado as areias móveis, fornecido biodiversidade, ambiente, paisagem, madeiras, lenhas, caça, espaços verdes e de lazer”, lamenta.
Quando os fogos de há 100 meses, em outubro de 2017, devastaram a Mata, o “Pinhal é Nosso” surgiu como comissão popular e petição pública focado na defesa e na sua reflorestação. Maria Loureiro fez parte do movimento que, entretanto, deixou formalmente de existir. Os problemas, esses, nem por isso. A tempestade amplificou-os.

“Para resolver o problema com que a região se debate, desde logo no plano da Mata Nacional de Leiria, mas também das populações, aquilo que se espera é que o investimento seja outro e a atitude perante as políticas ambientais seja outra”, defende. Em jeito de balanço, constata que a regeneração do Pinhal defendida anteriormente, “não tem resultado”, recordando igualmente que a comissão defendia o reinvestimento do produto da venda da madeira na reabilitação da Mata: “nem esse valor veio, nem o Orçamento de Estado prevê verba específica para esta matéria”.
Além do mais, a falta de investimento nas instituições do Estado que servem as populações, incluindo o ICNF e a Proteção Civil, ficou evidente depois da tempestade, aponta.
Das árvores que tombaram aos telhados que voaram
Ricardo Machado, responsável do coletivo One Piece After Another, é mais ativo no litoral, mas o seu olhar estende-se também para o rasto de destruição no Pinhal, provocado pela tempestade Kristin, que “tombou quase todas as árvores do Pinhal de Leiria, incluindo o gigante eucalipto centenário”.
“Será precisa muita união da comunidade, do povo, para voltarmos a reflorestar em zonas que nos eram queridas, como o parque das merendas do Tremelgo, da Portela, para não falar dos hectares de pinheiro-bravo”, conclui.

Antes que os olhares se centrem na floresta, há assuntos domésticos prementes. José Brilhante carrega, com ajuda de militares, telhas de cor preta para dentro de uma carrinha. A sua casa conta-se entre as muitas que sofreram o impacto da depressão Kristin. No ponto de fornecimento de materiais, instalado desde o dia 2, nos estaleiros da Câmara da Marinha Grande, encontrou o que precisava, podendo agora blindar a habitação, em Boa Vista, do efeito da chuva.
Por ali, numa fila, ordeiramente, aguarda-se pela vez de poder procurar o modelo de telha que resolva o problema de cada um dos lesados pela tempestade. É o caso de Miguel Vieira, da Marinha Grande. Chove em casa e pode bem ser que a agulha num palheiro esteja ali, na multidão de opções que se encontram pelo verdadeiro armazém de materiais de construção improvisado que agora mora nas imediações do Parque da Cerca. “Chove-me em casa, é chato”. Quão chato? “As luzes de teto não podem estar ligadas porque temos a laje infiltrada e depois faz curto-circuito no quadro”. Ainda assim, relativiza: “quando vejo colegas, familiares e amigos que perderam meio telhado, a minha [casa] não ficou assim muito afetada, mas é chato na mesma”.

Desde que a inclemência da Kristin e o subsequente comboio de tempestades descarrilou no concelho, o corrupio tem sido constante. Cristina Simões, técnica municipal, contabilizou, diariamente, cerca de 400 pessoas à procura de telhas e outras tantas de lonas. Esse era o ritmo dos primeiros dias. No final da semana passada, quando o Região de Leiria visitou o espaço, a azáfama era muita, mas esta responsável deixou claro que tudo estava muito mais calmo.
A técnica da autarquia, que usualmente atua sobretudo na área da comunicação e relações institucionais, transformou-se, por imposição das circunstâncias, numa especialista em telhas. “Descobri que há um leque gigantesco de tipos de telhas. É incrível. Há telhas muito raras”. Ali existe agora, devidamente seccionado, um espaço de materiais de construção não muito diferente dos espaços comerciais.
A principal diferença radica no espírito solidário que serve como moeda de troca, num processo que procura cruzar com os dados relativos às reais necessidades de quem solicita apoio. “Temos o dever de ajudar, acima de tudo, quem mais necessita; portanto, quem não necessita não se dirija aqui”, enfatiza Cristina Simões, acrescentando que os donativos para reforçar a oferta naquele ponto ainda são necessários. Para além da generosidade material que tem presenciado, Cristina Simões elogia os incansáveis voluntários, alguns provenientes de pontos distantes do país. “Temos voluntários fantásticos da Ericeira, de Ovar, de Lisboa, pessoas que chegam — ainda hoje chegou um senhor de Esposende a dizer ‘estou aqui, disponham’”. “Enche-nos o coração”, confessa.
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Este domingo, dia 15 de fevereiro, cumprem-se uma centena de meses desde o fogo que, em outubro de 2017, consumiu 86% do Pinhal de Leiria. No rescaldo da tempestade de 28 de janeiro, teme-se que a recuperação daquela mancha florestal seja um objetivo cada vez mais difícil
A produção deste artigo é apoiada por uma bolsa do projeto Climate Frontline, liderado pelo EJC, em parceria com a REVOLVE