A cantora Inês Apenas revisita o cancioneiro de José Afonso em “Apenas Abril”, projeto que inclui um álbum e um espetáculo ao vivo, que já tem datas agendadas em Leiria, Ourique, Lisboa e Santarém em abril.
Inês Apenas, de 28 anos, decidiu pegar na obra de José Afonso, figura que sempre a marcou, “primeiro, porque é muito necessário”, disse em declarações à Lusa.
“E porque desde a minha infância que ouço muito mais Zeca do que qualquer outro cantor de intervenção, porque a minha família sempre foi muito ligada ao trabalho, à terra, e trauteava as canções e as melodias do Zeca Afonso”, partilhou.
A canção de intervenção “muito necessária” no pré-25 de Abril de 1974 é, para Inês Apenas, “sempre intemporal”.
“Continua sempre intemporal, porque a liberdade nunca está garantida. Então, acho que é a maior importância disto tudo”, disse.
O álbum “Apenas Abril” inclui sete das muitas canções que José Afonso criou e cantou, uma seleção que se tentou que fosse “um bocadinho abrangente”.
Entre os temas escolhidos estão “Os Bravos”, canção que Inês Apenas sempre quis recriar “um bocadinho mais eletronicamente”, “Vejam Bem”, canção que a cantora “trauteava mesmo muito em criança, sem saber a letra”, ou “Cantigas do Maio”, “que tem uma melodia lindíssima”.
Além de canções da sua preferência, Inês Apenas foi escolhendo outras consoante os convidados que juntou ao disco: Sérgio Onze, Inês Monstro e Bia Maria.
Os três juntam-se ao álbum “porque é importante essa simbologia da união da nova geração, de cantar Zeca, mas com talentos diferentes, que também trazem outras formas de cantar”.
“Temos o Sérgio Onze, que é fadista [a cantar ‘Que amor não me engana’], a Inês Monstro que tem uma força brutal a cantar, portanto uma voz poderosíssima ‘Era um redondo vocábulo’, e a Bia Maria [que dá voz a ‘Canção de embalar’], que é de uma sensibilidade que eu tinha que trazer também para este disco. Tudo cantores que eu admiro”, referiu.
O álbum inclui sete canções, mas ao vivo serão tocadas mais.
“Apenas Abril” tem estreia marcada em 10 de abril em Leiria, no Teatro Miguel Franco. O concerto será depois apresentado em Ourique, em 18 de abril no Cine Teatro Sousa Telles, em Lisboa, 21 de abril na Casa Capitão, e em Santarém, 24 de abril na antiga Escola Prática de Cavalaria.
Em palco com Inês Apenas estarão Carolina Viana e Joana Rodrigues, que formam a dupla Redoma, com quem a cantora partilha a produção dos temas.
“A Joana Rodrigues mais na parte da eletrónica, eu ao piano, voz principal, e guitarra, e a Carolina Viana como ‘backing vocal’ e com percussões e no violoncelo. Somos três mulheres em palco e depois teremos, obviamente, os convidados que podem ir rodando, dependendo dos concertos”, contou.
José Afonso nasceu em 2 de agosto de 1929, em Aveiro, e começou a cantar enquanto estudante em Coimbra, tendo gravado os primeiros discos no início dos anos 1950 com fados de Coimbra, pela editora Alvorada.
Em 1964, lançou o álbum de estreia, “Baladas e Canções”, sobretudo marcado pela tradição coimbrã, seguindo-se, em 1968, o primeiro de originais e o primeiro na editora Orfeu, de Arnaldo Trindade, sob o título “Cantares do Andarilho”.
Até 1981, editou uma série de álbuns que se tornaram marcos da música portuguesa, desde “Contos Velhos Rumos Novos” (1969) a “Fados de Coimbra e Outras Canções” (1981), passando por “Traz Outro Amigo Também” (1970), “Cantigas do Maio” (1971), “Eu Vou Ser Como a Toupeira” (1972), “Venham Mais Cinco” (1973), “Coro dos Tribunais” (1974), “Com as Minhas Tamanquinhas” (1976), “Enquanto há Força” (1978) e “Fura Fura” (1979).
Autor de “Grândola, Vila Morena”, uma das canções escolhidas para senha do avanço das tropas, na Revolução de Abril de 1974, José Afonso morreu em 23 de fevereiro de 1987, em Setúbal, de esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada cinco anos antes.