
Docente e investigadora, Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra/Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia
A doença de obesidade continua a ser uma epidemia crescente. Curiosamente, a perceção desta doença mudou ao longo do tempo. Quem nunca ouviu a expressão “gordura é formosura”? Afinal, é ou não bom ter gordura?
A gordura no nosso corpo funciona como reserva, regulação da temperatura, proteção dos órgãos, absorção de vitaminas (A, D, E e K). A gordura também participa na formação e libertação de hormonas, com função na regulação do apetite/saciedade, metabolismo de gordura e de açúcares, energia gasta e armazenada, inflamação, fertilidade.
Por outro lado, a gordura é uma fonte de ácidos gordos essenciais que o organismo não consegue produzir sozinho, que corresponde aos principais constituintes das membranas das nossas células, e contribui para o bom funcionamento do sistema imunitário e circulatório, diminuindo o risco cardiovascular. São exemplos de fontes de ácidos gordos essenciais o ómega-3, presente em vários peixes e vegetais (como couves de folha verde escura, beldroegas, espinafres, brócolos), frutos secos (nozes, amêndoas, avelãs), cogumelos. Gordura em pequena quantidade faz parte de uma alimentação saudável e equilibrada.
Qual é, então, o problema? Parte dele está relacionado com o aumento notável do consumo de açúcar e alimentos ultraprocessados na nossa dieta.
Tipicamente, estes alimentos são ricos em calorias e pobres em nutrientes, e tudo o que não seja utilizado pelas células do corpo para produzir energia é convertido em gordura corporal. Por sua vez, a acumulação excessiva de gordura conduz à desregulação de vários mecanismos no corpo, como a resistência à insulina, apneia do sono, infertilidade, e ativa outros pró-inflamatórios, com redução significativa da qualidade e esperança de vida. Muitas das mudanças na alimentação estão intimamente associadas a insegurança alimentar e interagem diretamente com a atual crise ecológica e climática.
É neste contexto que a dieta mediterrânica (Património Cultural Imaterial da Humanidade) contribui simultaneamente para uma biodiversidade alimentar e para preservar o consumo de produtos locais e da época, reforçando o compromisso com uma alimentação saudável a partir de uma produção sustentável.
A dieta mediterrânica tem por base vegetais frescos, fruta, leguminosas, pão de qualidade e cereais integrais, frutos secos, ervas aromáticas, cogumelos, consumo moderado de peixe e carne, e o azeite como gordura principal.
Este padrão alimentar requer, naturalmente, ajustes de acordo com a fisiologia de cada corpo. Ainda assim, a par do prazer na preparação das refeições em companhia, a prática de exercício físico, o contacto regular com a natureza e com pessoas e o descanso adequado constituem, provavelmente, a melhor forma de viver mais anos com saúde.
Na Universidade de Coimbra (UC), trazemos a dieta mediterrânica para a ciência através do projeto PAS GRAS: redução de riscos metabólicos, determinantes ambientais e comportamentais da obesidade em crianças, adolescentes e jovens adultos. Estudando componentes da dieta mediterrânica, procuramos desenvolver uma ferramenta personalizada de avaliação de risco e promover uma abordagem holística, assente em práticas de investigação participativa e na coprodução de conteúdos educativos criativos e digitais, como forma de promover a saúde ao longo da vida.
O projeto é coordenado pela UC e reúne 16 parceiros de oito países, incluindo outros projetos como o “Cogumelos do ‘Prado ao Prato’”, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que pretende reforçar a importância dos cogumelos como componente da mediterrânica.
