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Um mês depois… ainda nos falta muita coisa

“O que ainda muito nos falta é o sabermos trabalhar juntos. Unidos. Remando todos para o mesmo objetivo. Com a mesma determinação e ousadia. Sem críticas mordazes. Sem protagonismos político/partidários”, escreve o padre Nuno Miguel Rodrigues, numa carta aberta.

"E subitamente a alma lusa acordou. De norte a sul, todos se solidarizaram", escreve o padre Nuno Miguel Rodrigues FOTO: SF

Passou um mês em que o vento e a chuva tudo levaram. Sentimo-nos sem nada. Percebemos a força da natureza e a nossa impotência.

Vimos o que até então nunca tínhamos visto. Fomos todos colocados à prova. Uns reclamaram contra a Kristin. Outros barafustaram contra o Leonardo e outros vociferaram contra a Marta. E muitos contra Deus. E nenhum deles teve razão.

O quanto ainda temos de aprender, com a força da natureza, que se vira contra o próprio homem, quando teimosamente a queremos modificar ou maltratar.

O rasto de destruição foi gigantesco. Acordamos atónitos e increntes. Felizmente que foi durante a noite. Caso contrário, as mortes humanas teriam sido uma tragédia. A destruição material é dolorosa, mas nunca uma fatalidade. Aprendi, como lição de vida, um adágio bem português: vão-se os anéis fiquem os dedos. Tudo é reparável, menos a morte de qualquer ser humano.

E agora? O que fazer? A palavra-chave rapidamente apareceu. Reerguer. Isso mesmo. Voltar a nascer. Voltar a crescer. Voltar a andar. Voltar a viver. Voltar.

E subitamente a alma lusa acordou. De norte a sul, todos se solidarizaram. Todos partilharam a mesma sorte. O mesmo teto. A mesma casa. E o mesmo desígnio. Foi bonito de ver, centenas e centenas de camiões de bens a chegarem à tão falada região do Liz e do Lena. À região do rei D. Dinis. À região do Pinhal de Leiria. Obrigado a todos. A pessoas individuais. A instituições públicas e privadas. A autarquias e associações. A tanta gente de boa vontade.

Espero que, um dia, todos estes nomes sejam inscritos a letras de ouro no futuro muro da solidariedade que será construído na cidade de Leiria para a todos nos lembrar que a tempestade passou e destruiu, mas que juntos soubemos reerguer.

Um mês depois ainda nos falta muita coisa. Mesmo muito. Não me refiro aos bens materiais, financeiros, apoios e todo o tipo de ajudas. Do Governo. Da autarquia. Das seguradoras, ou de outras instituições. Estas vão chegando e chegarão.

O que ainda muito nos falta é o sabermos trabalhar juntos. Unidos. Remando todos para o mesmo objetivo. Com a mesma determinação e ousadia. Sem críticas mordazes. Sem protagonismos político/partidários. Sem querer tirar dividendos de qualquer espécie. Sem entrar no jogo do passa culpa. Sem se deixar vencer pela burocracia. Sem sermos donos de nada.

De uma forma límpida. Transparente. Apenas e só com a consciência do serviço público de bem fazer. Sem microfones ou câmaras de televisão. Sem muitas conversas. Sem discutir palco ou espaços. Sem protagonismos.

E aqui ainda muito nos falta fazer.

Os próximos meses vão mostrar que não é com entrevistas ou conferências de imprensa que se vão resolver os problemas. Muito menos com vigílias ou protestos. Ou com visitas de médico como gostam os políticos de fazer. Ou com egos inchados. Ou com bairrismos saloios. Ou com centralismos ou regionalismos bacocos.

Precisamos de acordar a alma imortal que há em cada um de nós que é português e juntos cantarmos o hino nacional.

Nuno Miguel Rodrigues
Padre