Três ministérios e seis entidades formam o novo Comando Integrado de Prevenção e Operações (CIPO), que foi apresentado hoje, 8 de abril, como a resposta nacional ao “momento de enorme gravidade e de enorme emergência” que existe no país, e na zona centro em especial, após o “comboio de tempestades”: o elevado risco de incêndio provocado pela queda de milhões de árvores.
“Tivemos a tempestade Kristin, anteriormente tínhamos tido incêndios, tivemos um ‘comboio de tempestades’: temos de evitar uma nova tragédia”, alertou o ministro da Agricultura e do Mar. No auditório da Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTG), em Leiria, onde esteve ao lado dos ministros da Defesa, Nuno Melo, e da Administração Interna, Luís Neves, José Manuel Fernandes foi um dos que não poupou nas palavras:
“Neste território temos um ‘barril de pólvora’ que exige cooperação e ação rápida. Estamos todos convocados para este objetivo, todos”, apelou o ministro, lembrando que há “cerca de 24 mil hectares que precisam de intervenção e, nesses, zonas mais críticas que exigem urgência”.
O CIPO abrange municípios do Centro e de Lisboa e Vale do Tejo afetados pela tempestade, mas Leiria, Marinha Grande, Pombal e Ourém são os territórios que inspiram maior preocupação. “Há imensa lenha por retirar”, frisou o ministro do Ambiente. “O ICNF vai avançar com este objetivo de se retirar esse material. Até ao início do verão temos de ter todos os caminhos florestais desobstruídos”.
O presidente da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) deu como exemplo o norte do concelho de Ourém, como sendo dos que inspira mais cuidados. “Tem uma população muito dispersa”, com “casas rodeadas de vegetação e árvores tombadas”, que, segundo Tiago Oliveira,”vão secar e contribuir para incêndios de muito difícil extinção”.
O muito elevado risco de fogos florestais, que, para complicar mais, podem alastrar a áreas urbanas e industriais, obrigou àquilo que o ministro da Administração Interna considerou um “alinhamento inédito”, resultante no CIPO. Porque, “pela primeira vez”, se conjugam esforços de “todas as entidades com responsabilidades na prevenção e no combate, incluindo estruturas de proteção civil, forças de segurança, entidades florestais e as nossas forças armadas”.
A intenção, explicou em Leiria Luís Neves, é “criar uma estrutura de coordenação permanente”, que assegure a articulação entre prevenção e execução no terreno, para “reduzir riscos de incêndios rurais e reforçar a capacidade na resposta”.
“É a primeira vez que se assiste ao que estamos a procurar fazer e isso tem a ver com os momentos dramáticos que iremos, seguramente, passar”, antecipou o ministro.
A tempestade Kristin deixou muito material lenhoso combustível caído pelo chão, obstruindo caminhos rurais e aceiros, que são essenciais para o combate aos fogos. “Temos de nos preparar para ser um tempo terrivelmente difícil e de risco acrescido”.
Por isso, “estamos a pedir a todos uma mudança na forma de pensar e agir, reforçando o trabalho em equipa. Queremos que o trabalho deixe de ser isolado – a compartimentação acabou. Nada na vida pública se faz sozinho” disse.
Na sessão desta quarta-feira, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses também colocou o “dedo na ferida” de um setor frequentemente de costas voltadas. “Temos de ter como objetivo trabalhar em conjunto, evitar a crítica fácil e contribuir para o bem comum de Portugal e dos portugueses”, defendeu António Nunes.
É com esse espírito que o CIPO, que está instalado numa viatura da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) estacionada nos Bombeiros Sapadores de Leiria, além da ANEPC, integra ainda o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, AGIF, Liga dos Bombeiros Portugueses, Guarda Nacional Republicana e Estado-Maior-General das Forças Armadas, bem como os ministérios da Agricultura e Mar, Administração Interna e Defesa.
“O que aqui foi apresentado traduz-se numa mudança importante na forma de trabalhar e, sobretudo, na mentalidade”, reforçou Luís Neves, sublinhando o “compromisso comum de agir”.
O novo comando procura ser “um sistema que se antecipa e reduz o risco antes dele se concretizar”, em alternativa a “um sistema que responde quando o problema surge”.
Apesar da expectativa alta em torno da nova resposta, “ninguém pense que se vai conseguir alcançar tudo aquilo que gostaríamos”, frisou o ministro.
“Há áreas que levarão meses e até anos a serem recuperadas. Mas esta equipa procurará mitigar o maior número de danos possíveis e garantir que o país está melhor preparado”, porque “não há tempo a perder, todos são necessários e precisamos de todos. O país exige de nós que o coletivo funcione, precisa do poder central, do Governo e das suas instituições”.
Segundo Luís Neves, “o que fizermos agora terá seguramente impacto direto nos meses que se seguem e esse impacto será sentido pelas populações. Por isso, a responsabilidade que todos temos é enorme”.
O presidente da Câmara de Leiria congratulou-se na ESTG com a instalação do CIPO no concelho:
“Não é apenas uma decisão operacional. É também uma mensagem de enorme importância para a comunidade: a de que estamos a agir com antecipação, com consciência da dimensão do desafio que temos pela frente”.
Para o autarca, mais do que um sinal para a sociedade, a nova estrutura representa “um salto na forma como nos organizamos no terreno: com maior capacidade de antecipação, melhor articulação entre entidades e presença permanente onde o risco é mais elevado”.