Filho de pais cabo-verdianos, Adilson nasceu em Luanda, Angola, em 1983. Os pais estavam a caminho de Portugal, para onde emigraram e se fixaram, em 1984. Adilson foi batizado, fez a Profissão de Fé e frequentou a catequese na Igreja Matriz de Quarteira, tal como os seus cinco irmãos. Viveu toda a vida em território português mas, em 42 anos, o país onde cresceu, estudou, trabalhou, construiu laços e formou a sua identidade, jamais lhe reconheceu o direito à nacionalidade. A mãe bem tentou, mas morreu antes de o ver português.
É a partir da história de Adilson que Dino d’Santiago construiu uma ópera que atravessa a biografia emocional e política deste homem: um filho da diáspora cabo-verdiana, nascido por acaso em Luanda, mas moldado no corpo e na alma pelo Algarve.
O espetáculo assume-se como manifesto lírico pela justiça, uma denúncia poética dos mecanismos invisíveis que perpetuam o “não lugar” de milhares de vidas como a de Adilson: vítimas do extinto SEF, depois da ineficaz AIMA, presas na teia de mais de 400 mil processos de autorização de residência pendentes.
O conceito, encenação, libreto e dramaturgia são de Dino D’Santiago (a partir do texto original “Serviço Estrangeiro” de Rui Catalão), com direção musical de Martim Sousa Tavares, que nesta récita em Leiria assume a condução da Orquestra Filarmonia das Beiras.
São duas horas de uma história de resistência, amor, luto e esperança que chega ao palco do Teatro José Lúcio da Silva, esta quinta-feira, 15 de janeiro (21h30, 15, 17,5 e 20 euros, M12).
60 anos de Teatro José Lúcio da Silva
O espetáculo “Adilson” assinala também os 60 anos do Teatro José Lúcio da Silva que, segundo o município, “continua a afirmar-se como um espaço central da vida cultural de Leiria, celebrando o passado e projetando-se para o futuro com a mesma ambição de serviço público que marcou a sua história”.
Em 2025, o Teatro José Lúcio da Silva recebeu 92.154 espectadores, “uma evolução claramente positiva” porque se trata do “valor mais elevado desde a reinauguração, em 2007”.
Ao longo do último ano, de acordo com o município de Leiria, realizaram-se 218 sessões, distribuídas por diferentes áreas artísticas: teatro (que atraiu 39% do público), música (30%), dança (15%), cinema (2%) e outros eventos, como conferências e cerimónias (14%).
Além de Leiria, o público que procura a programação do Teatro José Lúcio é proveniente de vários pontos do país, como Lisboa, Porto, Coimbra, Marinha Grande ou Caldas da Rainha.
O ano que terminou marcou também o regresso do cinema à principal sala de espetáculos de Leiria, com adesão positiva: “Desde setembro, a adesão do público tem crescido de forma consistente”.
Para o futuro, o Teatro José Lúcio da Silva aposta numa “nova etapa de consolidação”, sobretudo a partir da “candidatura apresentada à Direção-Geral das Artes para o quadriénio 2026-2029”, no âmbito da Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses.
“O objetivo passa por manter níveis de afluência semelhantes aos dos últimos anos, reforçando a fidelização dos públicos e a formação de espectadores críticos e participativos”, avança o município de Leiria.