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O valor e o preço das coisas

Não peço muito. Eu espero na fila. Eu espero numa segunda fila. Eu pago mais uns cêntimos pelo saco. Mas pedir-me para retirar a etiqueta com o preço em casa ou, esperar numa segunda fila para que uma funcionária despreze qualquer cuidado com algo que é para oferecer, parece-me pedir demais.

FOTO: FreePik

No rescaldo das festas de fim de ano, é chegada a hora de fazer um ponto de situação ao estado atual do valor – das coisas, das pessoas e da conveniência.

Diferentemente daquilo que tem sido hábito, este ano deixei algumas das minhas compras de Natal para a última da hora – casa, família, o meu aniversário e uma tese em desenvolvimento fizeram com que assim fosse. Adiante.

Não obstante os juízes de valor que se tecem sobre esta época do ano – sobre os quais, já agora, eu não concordo, pois serei sempre a favor de qualquer desculpa para presentear aqueles que amo com tempo de qualidade, refeições caseiras e presentes – a verdade é que a maioria de nós ainda se continua a preocupar em trocar prendas no dia de Natal – seja para fazer as delícias dos miúdos ou agradar a graúdos, todos gostam de dar e receber um bom presente.

Uns fazem listas, outros deixam tudo para o último dia, mas a verdade comum que uns e outros parecem ter é a mesma: o preço das coisas aumentou, mas o seu valor tem vindo a diminuir. Passo a explicar.

Numa das tardes que tirei para ir ao Shopping de Leiria tratar de alguns presentes – juízes do comércio local, tenham calma, que já falo convosco! – foi com espanto – e até alguma indignação e tristeza – que me apercebi da falta de sensibilidade – quiçá, humanidade – no trato com o cliente.

E não, não estou a falar da intimidade outrora existente no comércio, que sabia de cor o nome de cada freguês – estamos a falar de um centro comercial com centenas de pessoas, seria irrealista esperar algo do género. Estou a falar de comprar presentes em lojas que outrora nos recebiam com um sorriso e ficavam felizes em vender-nos os seus produtos (quanto mais não fosse pela comissão!).

Presentes que escolhi com cuidado, para os quais consenti passar mais de 20 minutos numa fila para pagar, para no final chegar à caixa e me dizerem que a) ou retirava o preço do meu presente e o embrulhava em casa, ou b) teria de ir para uma segunda fila para fazer o embrulho (inicialmente optei por esta opção, até uma das funcionárias designadas para fazer o dito embrulho, rasgar, sem qualquer cuidado, a etiqueta com o preço, deixando parte da mesma no presente em questão, e proceder com o embrulho.)

Não peço muito. De verdade que não. A barra está mais baixa do que alguma vez esteve. Eu espero na fila. Eu espero numa segunda fila. Eu pago mais uns cêntimos pelo saco. Mas pedir-me para retirar a etiqueta com o preço em casa ou, esperar numa segunda fila para que uma funcionária despreze qualquer cuidado com algo que é para oferecer, parece-me pedir demais.

Infelizmente, este não foi um caso isolado, tão pouco o pior.

Numa outra loja do mesmo centro comercial, inaugurada recentemente, optei por comprar um conjunto de roupa. Não bastou os 5 minutos que passei à procura da caixa para pagar (não sei onde andam os especialistas em atendimento personalizado e vendas cruzadas na altura de definir o local das caixas de pagamento), qual não é o meu espanto quanto me deparo com uma dezena de caixas automáticas onde, para maior conveniência e conforto do cliente (dizem eles!) somos nós que temos de passar os artigos, separar a roupa dos cabides, retirar etiquetas, ensacar e proceder ao pagamento.

Já nem falo do embrulho e do talão de troca, em caso de necessidade. Mas aí, deixo a questão: a conveniência é para quem? Porque certamente não é para o cliente, que paga mais e ainda é obrigado a fazer o trabalho do funcionário da loja. Tão pouco para a coitada da única funcionária que andava de caixa em caixa a ajudar os clientes que, tal como eu, não percebiam a dinâmica da coisa.

Infelizmente, e mais uma vez, não foi caso único, já que de caixas automáticas está o maior hipermercado do país, cheio.

Falo agora, especificamente, do hipermercado Bom Dia que inaugurou não faz muito tempo na zona da Guimarota, e que dispõe de um sofisticado sistema de pagamento: ao dirigir-se às caixas – na sua maioria, automáticas – o cliente não necessita de registar os artigos, basta proceder para o modo de pagamento, tudo, mais uma vez, em nome da conveniência e do conforto. Doce engano.

Da última vez que fui a este supermercado – entretanto já fui outras duas vezes, para fazer “a prova dos nove” – aconteceram duas situações um tanto ou quanto inusitadas.

A primeira foi quando, a meio das compras, me apercebi que tinha de ir ao carro. Deixei o meu companheiro no supermercado, mas para poder sair, tive de chamar uma funcionária para abrir uma das cancelas (a palavra “cancela” foi escolhida a dedo, já que me senti como um animal, com o que aconteceu a seguir) para poder sair.

Até aí tudo ok, não fosse o sistema que abriu a cancela ter mencionado o último artigo que eu havia pegado no supermercado (mas não tinha colocado na cesta).

Fiquei com vontade de ir para o carro e não voltar mais. Para além de me sentir observada o tempo todo, a desconfiança que paira no ar, na relação da loja com o cliente, é no mínimo exagerada, despropositada e desconcertante, a ponto de me questionar se lá quererei continuar a fazer a minhas compras.

Paralelamente, o designado “sistema sofisticado de pagamento que oferece mais conforto, rapidez e conveniência ao cliente” foi o mesmo que, por três vezes, me cobrou artigos a mais ou trocou artigos de marca branca, que eu havia escolhido, por artigos semelhantes de marca, obrigando-me a pagar mais no total final da conta.

Quantas vezes terei eu pago a mais por artigos que não levei para casa, até me aperceber que as caixas cometiam este erro? Claro, podemos dizer que são diferenças de cêntimos ou meia dúzia de euros, mas se multiplicarmos este erro por vários artigos e várias idas ao supermercado em questão, façam as contas.

Por sua vez – e falando agora de uma livraria no centro da cidade – a experiência de comprar – que, não se enganem, também é um serviço que as lojas nos prestam, caso contrário, comprávamos todos, tudo online – foi completamente diferente.

A loja em questão – que tinha uma fila tão grande quanto a do primeiro exemplo que aqui citei, também ela uma superfície que vende livros – recebeu-me com o cuidado que uma loja deve ter: continua a optar por teres Seres Humanos a atender-nos, aconselhar-nos, a proceder ao pagamento da nossa compra, e, espantem-se, a embrulhar com o cuidado e a atenção que merecem, os artigos que ali adquirimos, num verdadeiro ato de rebeldia em contramão.

Por fim, deixo a seguinte reflexão: não sou fundamentalista e acredito verdadeiramente que exista muito pouco que qualquer um de nós possa fazer para travar o “progresso”, mas existe uma coisa que teremos sempre em nosso poder: o nosso valor enquanto Seres Humanos e a nossa força enquanto comunidade.

A opinião que aqui deixo foi baseada na minha experiência – e acredito que alguns de vós se possam rever nela – e não pretende atacar quaisquer superfícies comerciais ou lojas diretamente, contudo, como um todo, existem realidades para as quais precisamos acordar, e eu, pessoalmente, não faço questão de viver numa onde tudo tem um preço, mas muito pouco tem valor.

Ana Reis
Leiria

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